Fausto Rodrigues Valle
A porca estava prenhe e sumiu por uns tempos. Quando voltou, estava acompanhada por meia dúzia
de porquinhos, foi parir longe das vistas curiosas. Logo me apaixonei por uma leitoinha, a mais
engraçadinha, se bem que todo porquinho é engraçado, com aquele jeito moleque, enfiando o
focinho à feição de tomada elétrica na terra, fuçando coisas. Quando crescido, é bruto e
inconveniente.
Resolvi adotar a leitoa, criá-la como um cachorrinho. Separei-a da manada e logo deu que a porca
mãe sumiu com os outros, nunca mais sendo vista. A leitoinha ganhou o nome de Paca, nem sei
por que Paca.
A primeira dificuldade foi alimentar Paca. Arranjei uma mamadeira, enchi de leite de vaca, e
dia após dia, fui alimentando Paca. Que, por isto mesmo, pela dependência alimentar, passou a
me acompanhar para onde eu ia. Quando eu estava sentado, ela se deitava próximo. Se eu andava,
ela corria atrás, com seu ronc-ronc intraduzível. Como estávamos os dois sempre juntos, e sós,
eu conversava com ela. Incrível, mas conversávamos. Ela me entendia e eu a entendia. Ela
discriminava meus sentimentos, meu humor, e sabia perfeitamente quando era admoestada por
qualquer falha, vindo até mim, ronc-ronc, e me roçava a pele um tanto áspera em minha perna,
com delicadeza, pedindo desculpas.
Fazia dela o que queria, do mesmo modo que eu faria com um cachorrinho. Ela gostava que eu
alisasse a sua barriga. Então, deitava e deixava-se coçar, por um bom tempo.
Paca aprendeu a pedir água quando tinha sede. Corria até o rego d’água, de margem alta, voltava
e roncava, voltando ao rego. Fazia isto dando a entender que não alcançava o líquido. Ela então
bebia água de minhas mãos em concha.
O tempo foi passando e Paca cresceu, tornando-se um porca enorme e eu fiquei com o apelido de o
menino da porca. Foi aí que as inconveniências começaram. A porca acompanhava-me quase o tempo
todo e o seu tamanho, aliado à rispidez e à maneira desabrida e grosseira de todo suíno, trazia
inúmeros problemas. As poucas vezes que se distanciava de mim, era para meter o focinho no
barro e às vezes até em excrementos frescos encontrados atrás das moitas, como era o costume do
lugar. E depois vinha me adular, enfiando-me o focinho carinhosamente... O seu peso e tamanho
impediam-me de evitar o contato. Quantas vezes Paca entrou em casa, atrás de mim, derrubando
vasos e empurrando cadeiras, para desespero de minha mãe.
Estava ficando difícil a vida com a leitoinha que eu havia adotado. Criou-se um impasse. Por
um lado, uma porca já na idade de ceva, que deveria ser castrada para engorda. Por outro lado,
a afeição que lhe dedicava, como se fosse uma cadelinha, e que ela me dedicava, como se eu
fosse, quem sabe, o porco-pai ou porca-mãe, deixava-me cheio de dúvidas da atitude a ser
tomada.
A seqüência de minha vida deu solução ao problema. Tive de ir para a cidade para estudar. No
tempo de separação, Paca foi castrada, engordada e, finalmente, transformada em gordura,
lingüiça, costelinhas, etc. û sem o meu conhecimento. Nem me pediram assentimento. Nas férias,
comi umas almôndegas muito gostosas. Tive o cuidado de não perguntar pela Paca, para não ter o
desprazer de rejeitar as almôndegas.
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