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05.12.2004

Úlcera do Olhar
Gabriel Lopes




   Amanheceu , já quase de tarde, o domingo mais embaçado de sua vida. As vistas ardiam com raiva e comandavam os movimentos lúgubres dos olhos, como se pedissem arrego ao mundo que as tem apresentado. Não obstante a pesada luta por um pouco de claridade, remetiam-no à mais completa e imensa escuridão. Seria o reflexo de seu estado de espírito? Preferiu não acreditar.

   Achou estranho ver a casa tomada por neblina. Mórbido ver tudo sem detalhes, como se fosse vulto. Os objetos tornaram-se mais imponentes como nunca. Eram imensos, de difícil acesso. Até o pálido relógio de parede da cozinha, com seus ponteiros sem audácia - que se conformaram com a eterna saga de viver em círculos, repetindo movimentos sempre lentos - transformou-se em espécie de deus, quando agradeceu aos céus por poder enxergá-lo, quase com o nariz colado na tampa. "Como deve ser penosa a vida de um cego..."

   Sentiu-se arrogante e dono de um ego maior do que deveria ser capaz de carregar. Estava ali, irritado, e já trocando arrufos com as paredes, somente por estar com a visão debilitada por menos de uma manhã. Pensou nos surdos, nos amputados, nos paraplégicos... e ficou controlado, quase calmo.

   Preparou umas compressas emergenciais de soro fisiológico, as quais acabaram por aliviar a vista esquerda. A outra continuou irredutível, como se fosse personagem do Saramago. Não havia alternativa se não esperar e derramar compressas de soro até inundar sua poética íris, e essa fizesse com que a nervosa córnea se convencesse de quão agradável seria um alívio. Prometeu até proporcioná-las prazeres intermináveis com horizontes repletos de flores e mares tranqüilizantes. Não acreditaram nele. Preferiram continuar ardendo. Estavam inebriadas naquele inferno vermelho e cálido, cujo caldeirão fervente fazia escorrer lágrimas vulcânicas pelo rosto. As mesmas lágrimas fluíam até o ouvido, criando pequenas poças, enchendo de alegria os singelos micróbios duendes, que começaram a dançar e pular com suas botinhas pelos relevos de sua orelha.

   Assim dormiu. E dormiu quase o domingo inteiro.

   Na segunda, estava mais debilitado que irritado. Não hesitou em ir ao trabalho e se comportou da mesma forma como se perfeito estivesse. Só não evitou os indesejáveis comentários e as feições de pavor das pessoas ao depararem com sua vista direita.

   Arredio aos médicos, somente se convenceu de consultar o oftalmologista na terça. Pensou, enquanto esperava ser encaixado entre os pacientes que aguardavam sem paciência o atendimento: "É só um arranhãozinho, nada que um colírio não resolva".

   Transcorridos uns vinte minutos, foi convidado a entrar no disputado consultório do mesmo médico que o examinara desde criança, o qual preencheu sua ficha, fez perguntas de praxe e o examinou friamente com aqueles aparelhos ainda mais gelados. Por fim, deixou desenhar em seu rosto uma expressão meio torta, levou a mão direita ao queixo, como se segurasse um copo, e comentou:

   - Você está com uma úlcera na córnea. Depois, temos que ver quais serão as seqüelas... Antônio ficou nervoso. Imaginou o que poderia significar uma úlcera na córnea. Nem sabia que córnea pegava úlcera!

   Úlcera por si só é uma palavra aterrorizante. "Estou com uma ÚLCERA. Soa feio, as pessoas te olham mais pálido, te sentem mais enfraquecido". É grave. No entanto, úlcera, na sua essência, é um corte, uma ferida, uma lesão. Ele ficaria mais feliz se tivesse um corte na córnea. Mas o doutor disse que é úlcera, então, resolveu sofrer como se fosse um doente de úlcera.

   A córnea é a lente transparente externa do olho e fica bem na sua região central. Ela recobre a pupila e a íris, que são a porção colorida do olho. Existem diferentes tipos de úlcera na córnea. Elas podem ser causadas por um trauma, uso incorreto de lentes de contato, bactéria, vírus ou fungo. O tecido da córnea se quebra, começando pela superfície e daí a irritação e o embaço.

   "Depois, temos que ver quais serão as seqüelas". Refletiu sobre o significado daquela curta, mas reveladora frase. Além de estar com úlcera no olho, a melhor das hipóteses, seria um resquício, uma seqüela. Antes mesmo de completar 30 anos.

   De todo modo, não levou muita fé. "Ele deve estar exagerando". O médico continuou preparando uma pomada até passar em seu olho, ordenando que não o abrisse mais. Abruptamente, estampou um esparadrapo sobre um pedaço de algodão, o que passou a ser um ridículo e imenso curativo em seu rosto.

   Com a face em frangalhos, fez, sentindo tudo muito estranho, o percurso de Botafogo até o Flamengo. "Como é castrador ver o mundo pela metade. Será que alguém se acostuma? Acho que sim. O ser humano tem um grande poder de adaptação. Mas é frustrante". Não podia evitar o pensamento.

   Reflexões sobrevoavam sua cabeça, quando se deu com pensamentos mais frutíferos. "Minha visão está debilitada em decorrência do mundo que tenho enxergado. Essa úlcera é reflexo de alguma amargura contida, que se manifestou logo no meu olhar, logo na principal forma de como o mundo se apresenta".

   Nesse aspecto, Antônio tinha razão. O olhar é o sentido mais privilegiado, muito embora nem sempre tenha sido assim. Imaginem a elevação do tato e do olfato como os principais sentidos dos seres humanos. Seríamos realmente diferentes. Nossa cultura seria outra. A nossa sensibilidade, maltratada por reflexos instantâneos, frenéticos, neuróticos, do mundo visual, seria mais aguçada e a compreensão das nossas sensações mergulharia, novamente, em uma complexidade menos nostálgica que urgente.

   O ritmo asfixiante das sociedades modernas acelerou nosso cotidiano e, em meados do século XX, suas conseqüências elevaram, efetivamente, o olhar como o principal sentido. Dessa forma, nos desacostumou a refletir sobre objetos estáticos, cujas divagações e conclusões poderiam diferir de acordo com o sentimento de cada um, de uma forma muito menos opressora, e passou, brutalmente, a produzir reflexos imediatos e pré-concebidos, justamente pelo efeito da união imagem-movimento. Então, tornamo-nos "escravos" de estímulos cada vez mais parciais e insinuantes. Quase sempre persuasivos. Ganhamos em velocidade, em quantidade, mas perdemos em reflexão e crítica. Esta que é essencial para um mundo sustentável.

   Hoje, o mundo é feito de imagens, tornou-se visível, ainda que intocável. A realidade, sob esse prisma, é aquilo que se pode ver, mas que não se pode tocar. Deixamos de viver o mundo para ver as aparências do mundo que se tornou visível. E já quase não sabemos mais distinguir essa aparência da efetiva realidade.

   O cinema trouxe-nos uma nova forma de lidar com imagens. Apresentou aos nossos olhos verdadeiras obras primas e colaborou para o entendimento e questionamento do comportamento humano. Revolucionou a forma de o homem lidar com o mundo e a maneira de compreender sua própria vida. Porém, a indústria cinematográfica, visando lucro e audiências massivas, passou a produzir produtos com as técnicas da instantaneidade, recheados de efeitos mirabolantes, o que ajudou a educar nossas percepções de maneira também instantânea.

   A televisão intensificou todos esses estímulos e criou uma consciência coletiva através da visão. A sociedade passou a tender para a padronização. E a publicidade gerou impulsos incessantes, muitas vezes, inevitáveis.

   A era digital vem para solidificar ainda mais o ser humano enquanto indivíduo que vê. Suas conseqüências ainda são especulativas, muito embora, irrevogavelmente, a visão será o sentido mais privilegiado num universo propagador de imagens e virtualidades.

   Com essas condições, ver o mundo pela metade é extremamente excludente, ainda que por um dia. Os outros sentidos, em nome da virtude da nossa essência, não deveriam ser legados à irrelevância.

   E com as vistas latejantes, cansado pelo esforço de enxergar, Antônio chegou em casa. Para não ver com dor, colocou um música para tocar, deitou-se no sofá da sala, fechou os olhos, e escutou, como jamais havia escutado, a voz da Ella Fitzgerald sobrepondo as viradas de Chick Webb.




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