Gangs of New York,
EUA/Alemanha/Itália/Reino Unido/Suécia, 2002.
Com LEONARDO DI CAPRIO, DANIEL DAY-LEWIS, CAMERON DIAZ,
JIM BROADBENT, JOHN C. REILLY, HENRY THOMAS, LIAM NEESON, BRENDAN GLEESON, GARY LEWIS,
STEPHEN GRAHAM, EDDIE MARSAN, ALEC McCOWEN, DAVID HEMMINGS, LARRY GILLIARD JR., CARA SEYMOUR.
Música: HOWARD SHORE.
Canção The Hands That Built America, interpretada por U2.
Fotografia: MICHAEL BALLHAUS.
Montagem: THELMA SCHOONMAKER.
Desenho de produção: DANTE FERRETTI.
Co-produção: LAURA FATTORI, JOSEPH P. REIDY.
Produção executiva: MAURIZIO GRIMALDI, MICHAEL HAUSMAN,
MICHAEL ORVITZ, BOB WEINSTEIN, RICK YORN.
Produção: ALBERTO GRIMALDI, HARVEY WEINSTEIN.
Roteiro: JAY COCKS, STEVEN ZAILIAN, KENNETH LONNERGAN.
História: JAY COCKS.
Direção: MARTIN SCORSESE.
Estréia no RJ: 07.02.2003.
Sinopse e comentário.
Épico. 1846. A região novaiorquina de Cinco Pontas, espécie de
vilarejo situado junto ao cais, é território dominado pela violência e pela corrupção. Gangues
se enfrentam disputando o controle do local, e é num desses confrontos que o pequeno Amsterdam
Vallon vê seu pai, irlandês líder da gangue dos Coelhos Mortos, ser assassinado por Bill
Cutting, "o Açougueiro", cruel líder dos Nativistas, que assume o poder sobre Cinco Pontas.
Passam-se 16 anos até que Amsterdam, agora um rapaz recém saído do reformatório, retorne a
Cinco Pontas trazendo apenas a sede de vingança na bagagem. Nesse período a violência e a
corrupção só fizeram aumentar, e em Cinco Pontas a principal autoridade política é o
"Açougueiro" Bill, que controla até a polícia e a quem o candidato democrata William Tweed vem
associar-se em busca de votos. Enquanto se aproxima da ladra Jenny Everdeane, Amsterdam passa a
trabalhar para Bill, realizando saques e furtos, e, sem revelar sua identidade, vai conquistando
a confiança e a amizade do Açougueiro. Paralelamente, aumentam os conflitos sociais e a
campanha contra o Presidente Abraham Lincoln (devido ao rigoroso alistamento obrigatório, que
atinge principalmente aos pobres), razão de violentos levantes populares que fariam o governo
bombardear a cidade, enquanto eclode a guerra civil nos EUA.
Assim que retorna após o período no reformatório, o narrador Amsterdam
observa que Nova York "não era uma cidade, mas uma caldeira". De fato, tudo era motivo para o
caos, e para tudo, até para apagar incêndios, existiam gangues rivais, que a polícia não
controlava porque dividida entre duas facções, metropolitana e municipal, que também brigavam
entre si. Com a associação entre Tweed e o crime, representado por Bill, alguma ordem foi sendo
imposta em Cinco Pontas, ainda que através da violência (não faltando para isso enforcamentos
públicos) e da intimidação. O universo de extrema pobreza, os privilégios que faziam com que os
ricos escapassem do alistamento obrigatório, e a chegada de quinze mil imigrantes por dia era o
estopim que faltava para fazer do embrião da sociedade americana um inferno.
É desse ponto que parte o cineasta Martin Scorsese, para apresentar a
sua visão de que "a América nasceu das ruas". Neste que é o mais ambicioso filme de sua
carreira, projeto de trinta anos cuja problemática realização (estouros de orçamento, brigas
com o produtor Harvey Weinstein) certamente renderia um segundo filme e seria causa da
irregularidade desse aqui, Scorsese quis mostrar que foram desses confrontos e levantes
populares, comandados por imigrantes relegados à pobreza e à marginalidade, que surgiriam tanto
as organizações criminosas, as máfias controladoras de boa parte do bolo social, quanto a
tensão racial que até hoje pode ser explosivamente encontrada no país. Como já foi bem
observado (por Pedro Butcher, no sítio www.criticos.com.br), Gangues de Nova York
representa, assim, não apenas a origem de uma parte da sociedade americana, mas também a
origem do próprio cinema de Martin Scorsese. Com esse recuo histórico, Scorsese permite ao
espectador vislumbrar de onde vieram os universos corrompidos e criminosos, e os personagens
desajustados e marginais de filmes como Taxi Driver e Os Bons Companheiros, e a
diversidade cultural (em Cinco Pontas viviam de irlandeses a chineses, passando pelos negros,
em lojas que tanto poderiam ser bares quanto bordéis ou teatros, simultaneamente) de Depois
de Horas. Está tudo aqui, a violência e a loucura de grupos quase que forçados à
convivência mútua, onde a luta por espaço terminaria por transformar a concorrência em ódio.
Para apresentar essa perspectiva histórica ao grande público, o filme
tratou de colocá-la como pano de fundo de uma trama de vingança, misturando personagens
fictícios como o protagonista Amsterdam a outros que realmente existiram, como Bill, o
Açougueiro, e o político William Tweed. E é aí que Gangues de Nova York começa a dar
problema. Nas duas histórias que se cruzam, a de Amsterdam e a dos próprios Estados Unidos,
houve uma clara opção pela segunda. Vê-se que não é com o mesmo entusiasmo que a câmera de
Scorsese segue os passos de seu protagonista, tendo de recorrer a clichês e não oferecendo
nenhum momento de maior intensidade dramática aos personagens de Leonardo Di Caprio e Cameron
Diaz (por mais que o casal se esforce na defesa de seus papéis). Amsterdam chega mesmo a ser
desinteressante, embora o roteiro pudesse explorar mais os seus momentos de solidão e fraqueza.
O mesmo vale para Diaz, cuja Jenny pouco faz além de ser bonitinha.
O filme, entretanto, brilha ao entrar nos armazéns, no teatro (onde é
encenada A Cabana do Pai Tomás), nos becos. Ilustra os acontecimentos com desenhos e
imagens de época, e impressiona o espectador com uma reconstituição impecável do período e com
o vigor das cenas dos combates entre as gangues. Natural, assim, que o personagem mais
representativo da época (e do filme) seja Bill. O líder dos Nativistas vê-se como um verdadeiro
americano, seu pai morrera lutando contra os ingleses na guerra pela independência, e Bill
espera para si um destino semelhante, o de morrer lutando pelo país. Violento, abomina os
imigrantes que chegam em levas diárias, considera-os a escória que vem emporcalhar a América.
Vê Abraham Lincoln como um inimigo a ponto de fazer de seu retrato alvo para arremesso de
facas. É, sem dúvida, o personagem mais provocador de Gangues de Nova York, aquele em
que ficamos atentos quando surge em cena porque o sujeito é tão intenso que se torna
imprevisível.
Quando tomou conhecimento do livro homônimo escrito por Herbert Asbury
em 1928, Scorsese vivia a década de 1970 e, inspirado pelo Laranja Mecânica de Stanley
Kubrick, imaginou fazer de seu filme uma violenta peça futurista interpretada por Malcolm
McDowell. Pensaria depois no parceiro freqüente Robert De Niro, até chegar em Daniel Day-Lewis,
a quem já havia dirigido em A Época da Inocência. E é difícil imaginar uma escolha
melhor. Day-Lewis, que estava há cinco anos sem filmar, é desses atores que se transformam ao
compor um personagem. Seu caminhar, sua voz e expressões faciais formam um trabalho espantoso
de interpretação que dá gosto de ver, por mais que Bill seja repugnante e assustador (ou talvez
por isso mesmo). Depois de Gangues de Nova York, cabe torcer para que Martin Scorsese
(que faz uma ponta, como o dono da mansão assaltada por Jenny) faça de Day-Lewis seu novo
"alter-ego", como fez com De Niro em tantos filmes. A destacar ainda as belas imagens mostrando
a passagem do tempo, ao final, a fraquíssima trilha sonora e a despropositada canção do U2 nos
créditos finais.
(M.L.)