Gláuber o Filme, Labirinto do Brasil
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Brasil, 2004.
Documentário com depoimentos de JOÃO UBALDO RIBEIRO,
ZUENIR VENTURA, GUSTAVO DAHL, MÁRIO CARNEIRO, CARLOS DIEGUES, DARCY RIBEIRO, SÉRGIO RICARDO,
ARNALDO JABOR, ZELITO VIANA, RUBENS GERSHMAN, JARDS MACALÉ, MANDUKAI, NEVILLE D’ALMEIDA,
LUÍS CARLOS BARRETO, NELSON PEREIRA DOS SANTOS, LUIZ CARLOS MACIEL, ORLANDO SENNA,
PAULO GIL SOARES, HELENA IGNEZ, OTHON BASTOS, HUGO CARVANA, PAULO AUTRAN, ARNALDO CARNEIRO,
FABIANO CANOSA, NORMA BENGELL, PAULO CÉSAR SARACENI.
Música: EDUARDO CAMENIETZKI.
Fotografia: FERNANDO DUARTE e WALTER CARVALHO.
Montagem, roteiro, produção, direção: SÍLVIO TENDLER.
Estréia no RJ: 05.03.2004
Sinopse e comentário.
Documentário homenageando o cineasta Gláuber Rocha, figura
reverenciada por toda uma geração de artistas e intelectuais, no ano em que completaria 65 anos.
Partindo do dia de seu enterro, em 23 de agosto de 1981 no Rio de Janeiro, o filme acompanhará a
atribulada trajetória de Gláuber desde a estréia, com o curta O Pátio, em 1959, até o
último longa-metragem, A Idade da Terra, de 1971. Com depoimentos de pessoas ilustres
ligadas ao cinema e às letras, vê-se o caráter anárquico e messiânico do diretor; a influência
sobre os colegas; o modo incomum de dirigir os atores; a bagagem cultural; as raízes baianas; a
aversão ao cinema industrial e comercial; as brigas; o exílio; a volta ao Brasil e o elogio aos
militares, provocando a reação da esquerda brasileira; e mesmo particularidades como o uso de
drogas e os costumes dentro de casa.
Visionário, louco, gênio, generoso, pioneiro, original, indignado,
obcecado, paranóico, incompreendido, explosivo, aventureiro, contraditório, utópico, heróico.
Não faltam elogios para o mais controvertido dos cineastas brasileiros. Também não devem faltar
críticas, mas estas o diretor Sílvio Tendler (realizador de documentários clássicos como
Jango) preferiu deixar de fora, da mesma forma que preferiu realizar um filme-homenagem
em detrimento de um documentário. Gláuber o Filme é uma ode emocionada àquele que, mais
do que ninguém, levantou a voz contra um estado de coisas que até hoje perduram, com a
virulência e a indignação que seus contemporâneos compartilhavam mas não sabiam como expressar.
Não deixa de ser impressionante ver o quanto sua figura conquista uma admiração que beira a
idolatria, arrancando elogios entusiasmados de personalidades tão diversas quanto o antropólogo
Darcy Ribeiro, o autor Paulo Autran, o pintor Rubens Gershman ou o músico Jards Macalé, entre os
muitos nomes que aparecem durante o filme.
E não é para menos. Bebendo nas fontes do neo-realismo italiano e da
"novelle vague" francesa (que dariam origem ao Cinema Novo brasileiro), Gláuber promoveria uma
revolução na linguagem cinematográfica de seu país, misturando com ferocidade a poesia e o
discurso político de inspiração marxista, a indignação e a exaltação de uma terra rica e
vilipendiada. Filmava como vivia, e vivia intensamente, o que levou à criação de filmes onde a
crítica mais lúcida podia se fundir às mais delirantes alegorias. Ponto máximo de sua obra,
Terra em Transe é o melhor exemplo dessa fusão: onírico, carnavalesco, trágico, consegue ser ao mesmo tempo profético quanto aos donos das mãos para quem passaria o poder, depois de perdido pelos militares.
Como diretor, Gláuber adotava uma rotina caótica, escrevendo cenas na
hora em que as filmava, e levando à loucura seus atores, de quem procurava sempre extrair o
máximo. São saborosos nesse aspecto os depoimentos de Othon Bastos, Paulo Autran e Hugo Carvana,
este último não hesitando em classificar o diretor como "uma explosão". O que se percebe, no
entanto, é que Gláuber habitava um universo muito particular, que o uso de drogas (maconha, LSD
e sabe-se lá o que mais) só fez estender. Do discurso febril onde não faltavam alertas contra as
ameaças à "cultura nacional", o cineasta passaria a uma defesa do cinema como arte audiovisual,
sem compromisso com estruturas narrativas. Daí a defender que os rolos de seu último longa,
A Idade da Terra, não fossem numerados, a fim de que pudessem ser exibidos em qualquer
ordem, não havendo um princípio, um meio ou um fim formais.
Em seu depoimento, o ex-cineasta Arnaldo Jabor conclui que, no mundo
globalizado e neoliberal de hoje, "um mundo sem grandeza heróica, sem revolução", não haveria
espaço para Gláuber Rocha, caso ele estivesse vivo. Realmente, mas não pelas razões que imagina
Jabor. Vivo, Gláuber estaria hoje voltado a um tipo qualquer de espiritualidade vazia,
conseqüência de uma mente insaciável e danificada pelas drogas, talvez até criando, mas sem o
mesmo brilho. Teria final semelhante ao do saudoso dramaturgo Plínio Marcos, que em seus últimos
dias vivia jogando Tarô e agarrado a um crucifixo. Mas Gláuber o Filme certamente não
partilha dessa visão. Para Sílvio Tendler, o cineasta baiano foi uma espécie de mártir, de santo
guerreiro vitimado por conspirações capitalistas e "sabotagens" à "cultura nacional".
E é esse olhar de torcida organizada que muito prejudica o filme,
tirando-lhe objetividade e tornando-o por vezes melodramático. É Rubens Gershman quem diz, logo
no início, que "o teto do pensamento diminuiu muito". Tomado pela adoração ao ídolo, Tendler
não parece interessado no pensar Gláuber. Seus letreiros com palavras em destaque, suas imagens
digitalizadas (que, embora associem-se forçosamente à idéia de labirinto, provavelmente seriam
ridicularizadas pelo homenageado) e as longas cenas do velório buscam apenas cultuar o falecido.
E, não raro, o culto exclui o raciocínio. Felizmente, são escorregões que não derrubam o filme.
Há momentos emocionantes, como o discurso de Darcy Ribeiro diante do caixão e as lágrimas de
gente como José Celso Martinez Corrêa; hilariantes, como os casos contados por João Ubaldo
Ribeiro e a confusão armada no Festival de Veneza em 1970 (quando A Idade da Terra perdeu
o primeiro prêmio para Atlantic City, e Gláuber, após fazer uma passeata esculhambando o
festival, foi até o diretor Louis Malle acusá-lo de agente do imperialismo); e deliciosos como
as seqüências de bastidores de filmagens e os trechos de entrevistas do diretor. Poderia ter
mais.
(M.L.)
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