Brasil, 2000.
Com MURILO BENÍCIO, CLÁUDIA ABREU, NATÁLIA LAGE, JORGE DÓRIA,
JOSÉ WILKER, AGILDO RIBEIRO, MARIANA XIMENES, CARLO MOSSY, ANDRÉ GONÇALVES, MOSKA,
PAULO CÉSAR PEREIO, AMIE HADDAD, PERFEITO FORTUNA, LÁZARO RAMOS, ANDRÉ BARROS, VIC MILITELLO,
MARILU BUENO, WAGNER MOURA, JOSÉ HENRIQUE FONSECA.
Música: DADO VILLA LOBOS.
Produtor executivo: BETO BRUNO.
Fotografia: BRENO SILVEIRA.
Montagem:SÉRGIO MEKLER.
Roteiro: RUBEM FONSECA.
Baseado no romance O Matador, de PATRÍCIA MELO.
Produção: FLÁVIO R. TAMBELLINI, LEONARDO MONTEIRO DE BARROS,
JOSÉ HENRIQUE FONSECA.
Direção: JOSÉ HENRIQUE FONSECA.
Estréia no RJ:
Sinopse e comentário.
Máiquel é um jovem de periferia sem muitas perspectivas. Sua vida
começa a mudar a partir do momento em que, devido a uma aposta perdida, é obrigado a pintar o
cabelo. A partir daí ele passa a ver-se como um novo homem. No próprio salão aonde vai para
mudar seu visual acaba conhecendo sua futura esposa. Mais tarde, discute com um conhecido,
pequeno ladrão e marginal das redondezas, que debochara do seu novo cabelo e acaba por jurá-lo
de morte, no que é desafiado a cumprir. Sem nunca ter pego numa arma antes e nem muito menos
matado ninguém, Máiquel ainda assim acaba por cumprir o que havia prometido. e acaba ganhando
respeito, notoriedade e muitas regalias na região onde mora, sendo tratado como uma espécie de
justiceiro do lugar. Constantemente assediado pela elite econômica para limpar a região dos
bandidos e marginais, aos poucos vai cedendo e se transformando numa espécie de matador de
aluguel a mando da pequena burguesia local.
Com uma produção caprichada (o que já é tradição em filmes da produtora
carioca Conspiração Filmes) e elenco de primeira linha, O Homem do Ano é um filme que
promete ser muito mais do que realmente é, ainda mais quando se sabe que por trás da assinatura
do roteiro está o escritor Rubem Fonseca. Contudo, a análise desse filme deve ser feita dentro
dos limites a que ele se propõe. Cabe enumerar aqui, portanto, o que o filme não deseja ser:
uma contundente crítica social, um "grito dos excluídos" ou ainda um "filme denúncia". O
Homem do Ano não pretende ser nada disso. Almeja simplesmente contar uma história a partir
de personagens que habitam a periferia. Seus hábitos, costumes e idiossincrasias estão no filme
muito mais como ambientação da história do que como elementos políticos denunciados e/ou
debatidos. Talvez seja por isso que, apesar da violência extrema inerente a trama , não nos
sentimos sensibilizados. Ela nos atravessa do início ao fim da projeção e nós, praticamente,
não a sentimos. Isso não quer dizer, no entanto, que não possamos depreender nenhum sentido
político do filme. O que está em pauta aqui é que este não é o seu principal objetivo. Ademais,
para qualquer um que foi nascido e criado nas periferias dos grandes centros urbanos a
violência não tem nada de muito "dramático". Ela é cotidiana e por isso mesmo "natural", e é
justamente aí que se encontra o grande drama: a banalização de situações com alto grau de
violência e que não gera mais nenhum sentimento de estranheza nas pessoas. Se for preciso
captar algum sentido político no filme em questão, esse talvez seja o mais importante: o de
transpor para a tela um determinado tipo de ambiente onde a violência, por maior que seja, já
não é mais sentida pelas pessoas que a ela já se acostumaram e se adequaram.
Esse efeito anestésico com relação às situações extremas mostradas na
tela não está vinculado a uma certa "higienização" da violência supostamente gerada pelo apuro
técnico e cuidados de produção, como querem fazer crer alguns especialistas em cinema. Um filme
bem produzido deveria ser uma meta a ser incessantemente perseguida e não motivo de críticas
descabidas e vítima de termos obscuros e mal definidos como por exemplo "Estética da Fome".
Uma produção bem cuidada não anula de forma alguma a dramaticidade de um filme que, por exemplo,
se proponha a tratar a violência de uma forma mais contundente e visceral, buscando através
dela denunciar ou colocar em discussão as razões mais profundas de suas causas. O que há na
verdade é uma enorme confusão na interpretação e no sentido que alguns críticos especializados
estão dando aos filmes. Vêem (ou querem ver) considerações que os filmes absolutamente não
pretendem, e então partem para generalizações e abstrações as mais infundadas. Portanto esse
não é o principal defeito do filme que, apesar do bom roteiro, com diálogos espertos e uma
história atraente e divertida, peca pela falta de situações com maior apelo dramático. É
justamente aí que as coisas começam a não dar certo. A direção, apenas correta, não consegue
imprimir o impacto necessário a algumas cenas chaves da trama. Assim sendo, em nenhum momento
o filme chega a empolgar o espectador, a despeito de conseguir atrair sua atenção. A atuação
de Murilo Benício no papel de Máiquel, o protagonista da trama, carece de maior intensidade em
alguns momentos importantes do filme, provocando assim um certo distanciamento entre o seu
personagem e a história contada na tela. Para além disso, alguns elementos inerentes à própria
trama simplesmente não funcionam ou são perfeitamente despropositados, ou as duas coisas
juntas. O aspecto religioso que surge a partir da metade do filme é um bom exemplo disso. Nada
acrescenta a ele.
A destacar as ótimas atuações de José Wilker, Agildo Ribeiro e Jorge
Dória nas peles dos pequenos burgueses conservadores que resolvem "limpar" a região contratando
os serviços de um matador. Não por acaso esse é o nicho do filme que melhor funciona.
(Marcos Roberto Magalhães de Sá)
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