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Catando cascas de jiló
Haroldo P. Barboza




    Para uma convivência pacífica entre os membros de uma sociedade, é preciso que sejam definidas normas que atendam a uma maioria expressiva. Não basta obter 51% de aprovação e decretar a conduta apresentada como "novidade" sem mais delongas com um sorriso amarelo, pois este número está perigosamente perto do limite que determina a balbúrdia, que conduz à ruptura e posterior dispersão. Ou pior: à revolução.

    Sabemos que tais normas são de difícil redação, entendimento e muito mais de aplicação. Não basta editar: "cada habitante do povoado tem direito apenas a um quilo de alimento por dia". Sempre haverá alguém produzindo acima, outro disposto a pagar mais para ter uma cota maior e um terceiro pronto para furtar e comercializar o produto subtraído. Pode surgir um esperto que "prove" matematicamente que seu dia tem 12 horas!

    A necessidade de se estabelecer regras surge a partir do momento em que uma determinada oferta ou incômodo entra em desequilíbrio. Se a Natureza oferece 10000 frutas por dia a uma comunidade sortuda de 100 pessoas, todas se alimentam fartamente sem atritos, sobram diversas frutas e aparentemente não é preciso definir normas pois a oferta está acima da demanda.

    Enganou-se quem assim imaginou. Há necessidade de estabelecer formas de se livrar das cascas e dos caroços. Não se pode simplesmente jogar as sobras para o lado podendo acertar o vizinho ou acumular detritos e odores dolorosos perto do quintal alheio.

    Isto vale desde o primeiro escalão do governo do país, até a uma cooperativa de catadores de cascas de jiló. As normas precisam ser propostas, analisadas individualmente, debatidas coletivamente, emendadas e aplicadas, infelizmente sem esquecer de prever as punições para os renitentes. Desta forma existem maiores chances para atender a mais de 90% dos envolvidos. Quem não se sentir confortável e feliz com o que ficar decidido neste contexto, deve aguardar nova oportunidade para demonstrar as vantagens de sua tese e angariar adeptos que lhe forneçam apoio na cruzada abraçada. Quem não tiver poder de adaptação para suportar o elenco de medidas por algum tempo, deve procurar outras cascas para catar.

    Pessoas que são momentaneamente levadas a cargos de dirigentes por escolha livre de eleitores em dia com suas obrigações tributárias (impostos, taxas, mensalidades) não podem aproveitar-se do poder para implantar medidas que atendem à sua vaidade ou a interesses específicos de uma minoria de "amigos" que amanhã mudam de posição atraídos por proposta mais "compensatória" oferecida por uma raposa de gabinete. As funções de um gerente basicamente são: estar em permanente contato com entidades paralelas e possíveis concorrentes, perceber tendências e manobras, alertar seus pares e correligionários, ouvir propostas internas para futuros debates programados e fazer cumprir o que está em vigor no momento. Se não tiver este perfil, deve procurar emprego de ditador. Há quem pague bem por esta função para ter um bom motivo para invadir terras alheias posteriormente.

    E quando as normas envolvem a comunidade global, aumenta a responsabilidade destes dirigentes em seus respectivos países, pois as convenções em vigor afetam a um número muito maior de elementos que rumam sob estes prismas. É preciso um cuidado redobrado nas ações praticadas. Mesmo calcadas nas antigas escrituras. Imaginem nas novas! A precipitação é uma armadilha mortal que pode deitar por terra em minutos, a credibilidade que foi erguida em anos de luta incansável e honesta.

    Claro que as mudanças não estão proibidas. Aliás, elas fazem parte da transformação natural da humanidade, de cada nova geração, que tende a contestar e duvidar de tudo que já está sacramentado, pelo simples fato de não ter passado pelos momentos difíceis que seus antepassados enfrentaram e que os levaram a adotar as medidas ora em uso. Em dado momento podemos ter a impressão de que está havendo involução mental. Mas temos de ter em mente que nem sempre o vizinho está errado por não nos copiar. Ele apenas faz a mesma coisa de forma diferente. Por curiosidade, teimosia ou ignorância.

    Nem mesmo a partir do momento em que a humanidade "combinou" andar apenas com os pés e mantendo a cabeça erguida, chegou a ocorrer uma unanimidade inquestionável. Todos caminham para frente sobre uma estrada sem retorno rumo a um ponto ainda desconhecido neste plano. Alguns povos se deslocam mais rápido mesmo tendo pernas curtas. Outros dão passos longos com menor freqüência. Alguns se locomovem tropeçando a todo instante. Vários até se movem de costas com receio de encarar o desconhecido. Certamente não há espaço para todos ficarem empatados em primeiro lugar. Mas a distância entre os primeiros e os últimos não pode ser maior do que o pavio que conduz à insatisfação que germina a revolta e alimenta a tenebrosa violência que incendeia espíritos que armazenam rancores acumulados.

    Andemos de mãos dadas, puxando e sendo puxados. A alternância de posições não é humilhante pois é um movimento ondulado natural em todos os ramos da Natureza. Observem como as formigas se deslocam , as folhas flutuantes nos rios e as aves em formação "V". Revezam-se a todo instante, se reciclam. Libertemos nossos espíritos e nos afastemos do poço da ignorância brutal que nos aprisiona como eterna colônia com seus joelhos sempre dobrados. Podemos caminhar devagar, com responsabilidade e sem perder a singela emoção.

    Jamais no sentido contrário ao rumo da razão.







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