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18.07.2004
Cumprindo as promessas
Haroldo P. Barboza
Da mesma forma que outros partidos em datas anteriores e cargos diversos, o PT se deslumbrou ao
chegar ao poder central pelo qual tanto lutou em cima de palanques de caminhões e às portas de
fazendas invadidas. Chegou com impetuosidade e acreditado pela veemência das promessas de
combate realizadas durante os 20 anos que perseguiu o poder máximo pela defesa de nossa
dignidade. Chegamos a ter esperanças de que desta vez um grupo bem intencionado e composto por
pessoas que conheceram de perto o sofrimento popular iria demonstrar uma vontade real de
enfrentar os abutres que nos sugam há dezenas de anos apoiados por nossos legisladores e juízes
corruptos.
Mas o tempo passou, o encanto se desfez, a máscara caiu e começamos a perceber que o
teatro político continua bem encenado, com a troca dos artistas principais (políticos), que a
cada período entre duas eleições fazem o papel de situação, centro e oposição. Para nós sobra o
papel de fingir que acreditamos nas promessas, compreender as desculpas, aceitar os aumentos
impostos (dos impostos também) e aplaudir os celerados que desviam verbas e permanecem livres em
função das rigorosas leis editadas pelos que chefiam os esquemas de sangria das verbas públicas
e do sucateamento de nossa qualidade de vida.
Claro que alguns otimistas ainda acreditam que o tempo decorrido não foi suficiente para
percebermos algumas atitudes sensatas em direção à nossa libertação. Até chegam a anunciar com
ênfase que algo já foi iniciado. Bem, não podemos ser tão derrotistas. Afinal, algo realmente já
começou a ser feito. Não importa onde nem com que amplitude. Vamos ilustrar algumas.
Área de transporte - No momento em que nossas ferrovias estão propositalmente
abandonadas, as estradas do país estão esburacadas (triplicando o tempo das viagens dos
caminhões e estragando alimentos), o trânsito urbano chega a 100 km de engarrafamento e os
idosos com direito ao passe livre no Rio são humilhados para terem de atravessar agachados as
roletas de ônibus, nosso idolatrado Presidente planeja adquirir um "modesto" avião para
"eventuais" (passaram a ser rotina semanal em 2003) viagens por um valor modesto, coisa de 250
milhões de Reais. Ainda não temos meios de computar os gastos posteriores com a manutenção (isto
deve gerar alguma "licitação" com carta marcada) nem com as despesas para as viagens onde mais
de 50 "assessores" passeiam às nossas custas.
Área de trabalho - dentro do plano de se criar 10 milhões de empregos em 4 anos, pelo
menos 3 já foram concretizados, conforme podemos conferir (segundo dados de minha colega
Simone Maia). Os nomes de peso da primeira esfera já estão empenhados de corpo, alma e família
no programa.
José Dirceu, Ministro-chefe da Casa Civil
Mulher: Maria Rita Garcia
Profissão: socióloga
Cargo: Assessora da Presidência da Escola Nacional de Administração Pública.
Nomeação: março de 2003
Salário: R$17.000,0
Antonio Palocci, Ministro da Fazenda
Mulher: Margareth Rose Silva Palocci
Profissão: Médica Sanitarista
Cargo: Assessora da Presidência da Fundação Nacional de Saúde
Nomeação: fevereiro de 2003
Salário: R$14.850,00
Ricardo Berzoini, Ministro da Previdência
Mulher: Sonia Lourdes Rodrigues Berzoini
Profissão: bancária aposentada.
Cargo: Assessora no Gabinete do Deputado Federal Paulo Bernardo (PT-PR)
Nomeação: maio de 2003
Salário: R$ 19.500,00
É isso aí companheiros. Agora só faltam 9.999.997 postos de trabalho.
Combate à corrupção - Se este item conseguisse ser conduzido com seriedade,
começariam sobrar verbas para aplicar nas áreas sociais carentes e com necessidade urgente de
tratamento que permita uma plena recuperação. Na noite de 04/06/2004 o Ministro da Justiça,
Márcio Thomas Bastos, em cadeia de televisão, falou à nação sobre o rigor e o empenho do governo
Lula no combate à corrupção. Citou como exemplos a Operações Anaconda, Vampiro e Gafanhoto, a
prisão do mega contrabandista chinês Law, informando que é prioridade do governo federal o
combate à corrupção em todos os níveis. Ótimo! Até que enfim um governo se preocupa em combater
a corrupção. Só que... bem, o "esperto" ministro "esqueceu" de citar os casos Celso Daniel,
Waldomiro Diniz e Ágora, dentre outros. Fica claro, portanto, que a prioridade é combater a
corrupção no terreiro alheio. Quanto à corrupção no próprio terreiro... deixa que o José Dirceu,
mestre em abafar escândalos, cuida disso. Enquanto isso, no jornal A Tarde saiu a seguinte
matéria: Amigo de Lula implanta as farmácias populares - Dono da Ágora recebe R$ 221 mil para
auxiliar na viabilização do programa Brasília - A Novadata, empresa de Mauro Faria Dutra, um dos
maiores amigos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de dirigentes petistas, vai receber
R$ 221.380,00 para auxiliar na implantação do programa de farmácias populares, que o presidente
da República inaugura nesta segunda-feira, em Salvador. Dutra é também dono da organização não
governamental Ágora, acusada de desviar cerca de R$ 900 mil do Fundo de Amparo ao Trabalhador
(FAT) e justificar o rombo com notas frias.
Política salarial - enquanto os governantes acenam com reajustes de 4% aos
funcionários que ficaram 8 anos sem reajustes contra 30% (só?) de inflação acumulada, os 583
legisladores federais consomem mais de meio BILHÃO de Reais por ano com seus salários e
mordomias em troca de 800 horas anuais de presença nas câmaras, onde passam a maior parte do
tempo estudando a troca de partido político (conforme o nome em auge no momento) ou aprendendo a
manipular o painel eletrônico, para ficarem familiarizados com o sistema eleitoral virtual
patrocinado pelo TSE, que insiste em não fornecer o voto impresso que nos permita conferência
posterior em caso de suspeitas de ilegalidade na contabilização por parte do programa
eletrônico.
Fontes de energia - no momento em que os EUA inventam existência de armas químicas no
Iraque para invadir o país e firmar acordos que lhe possibilitem garantir combustível por mais
uns 25 anos, nós não nos preocupamos em efetuar nenhuma economia no sentido de garantir nossos
estoques. Ou as planilhas apresentadas possuem incorreções (como tantos outros documentos
forjados) absurdas que não convencem nem a um mero pipoqueiro. A Folha de São Paulo de
28/06/2004 publicou matéria exibindo os gastos de gasolina por parte dos deputados federais nos
primeiros 5 meses de 2004: mais de R$ 10 milhões de Reais. O campeão foi Ronivon Santiago
(PP-AC) que gastou mais de R$ 24.780,00. Considerando o custo do litro a R$ 2,00 e que o carro
do "palerma-elementar" esteja bem regulado, fazendo 10km/l, ele teria de trafegar mais de
1000 km por dia, inclusive finais de semana. Nem caminhoneiro em tempo integral desenvolve esta
marca. E além do mais, em que momento ele comparece à câmara se passa mais da metade do dia
dentro do carro? Ou será que seu generoso coração o impele a ceder seu carro para transportar
idosos aos hospitais e criancinhas às escolas da região pobre do Acre? Agora imagine quanto
gastam com passagens de avião, estadias em hotéis, selos, festas para recepcionar personalidades
estrangeiras, vestimentas e outros itens de "primeira" necessidade para exercerem condignamente
o árduo papel de representantes do povo!
Fome zero - esta é a bandeira mais comovente do planalto. Basta que os estômagos dos
flagelados pela seca que disputam alimentação com o gado raquítico ou catam restos nos depósitos
urbanos suportem mais umas 24.000 horas (3 anos) de vontade de comer enquanto a turma do palácio
central se sacrifica heroicamente por eles e servem de cobaia na árdua tarefa de experimentar os
alimentos (incluindo bebidas finas e doces) que entopem os armários e geladeiras, adquiridos em
quantidade suficiente para abastecer 100 pessoas por mais de seis meses de hibernação, caso a
convulsão social prevista ocorra antes que os causadores consigam deixar o país. Em caso de
emergência, para distrair a turba esfomeada, talvez abram os silos onde toneladas de alimentos
são armazenadas para justificar alugueis descabidos e efetuar o desumano controle de preço de
mercado de grãos, para favorecer aos atravessadores que triplicam os preços da alimentação que
chega (chega?) às nossas mesas.
Mantendo este rumo que nenhum dirigente tem coragem (ou interesse) de contestar,
continuaremos como um bando de bois marchando lentamente para o matadouro. Com os
engarrafamentos constantes e o receio de irmos às ruas violentas, ficaremos mais parecidos com
as imóveis galinhas de cativeiro em seus cubículos aguardando a degola. Tal fato é mais doloroso
para os idosos que já tiveram a oportunidade de desfrutar de uma convivência mais humana. Os
jovens atuais, alienados pelas drogas, já não conseguem distinguir entre obediência e
subserviência, entre agradecimento e pagamento, entre liberdade e libertinagem.
Claro que Lula não é O culpado da angústia pela qual passamos. No entanto não faz um
mínimo esforço para mover uma palha no sentido de alterar o curso que o FMI determina no sentido
de nos estrangular e impedir que oxigenemos nossas esperanças na busca de uma autonomia de voz
na mesa mundial de negociações. É o inocente útil que agrada aos famigerados e vai empurrando
com a barriga (literalmente) os problemas fundamentais que nos asfixia. Libera paliativos do
tipo: "vale-grão" ou "vale-pingo" para miseráveis abaixo da linha da pobreza. Deixa as decisões
por conta dos que aparentam maior intimidade e experiência com os subterrâneos do poder. Dentro
de 2 anos seu grupo poderá alegar que ainda não possuía uma experiência adequada para governar e
que o primeiro mandato serviu para lhe dar a visão necessária para definir as ações corretas a
serem utilizadas num segundo período de administração. Se prometer aos poderosos que continuará
mantendo a barca no rumo planejado por eles, os patrocinadores do circo das eleições certamente
explorarão sua imagem ainda popular para lhe assegurar mais alguns passeios ao redor do mundo
cercado das pompas que o cargo lhe concede.
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