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01.08.2004

As notícias manipuladas
Haroldo P. Barboza




    Dentro do cenário de hipocrisia, demagogia e outras magias praticadas pela imprensa manipulada, amordaçada, comprada e mal comportada, através das brechas que inevitavelmente surgem, ainda conseguimos perceber algumas diferenças de comporta mento e tratamento para fatos similares mas acontecidos em locais diferentes da comunidade.

    Quando ocorreram tumultos na favela da Rocinha com brigas entre traficantes que defendiam os pontos de venda contra a invasão de bandoleiros de outras áreas, respingou pólvora nos moradores dos luxuosos condomínios da Barra e adjacências. Mesmos os bem engomados rapazolas (dentre os quais estão os maiores patrocinadores do mercado de drogas disputado à bala pelos meliantes portadores de armas de fogo) não conseguiam trafegar pela área sem o receio de serem atingidos pelos projéteis perdidos que rasgavam a atmosfera. No período de 3 ou 4 dias de tumulto descontrolado, o grupo Globo deu enorme ênfase ao fato e abriu os canais de comunicação (jornal, rádio e tv) para que as vozes dos gabaritados moradores das localidades prejudicadas pudessem exercer a devida pressão sobre o inoperante secretário de segurança que não exibia nenhum plano adequado para controlar o tumulto local com rapidez, tendo em vista que a bandidagem já perdeu o respeito pela frágil autoridade pública há bastante tempo.

    Talvez pela escassez de balas e cansaço dos litigantes, bem como a perda de receita com a venda de drogas para os clientes regulares, a situação acalmou suficientemente para que rotina local aparentasse normalidade. Mas a pólvora continua exposta e a qualquer instante um pavio infeliz pode reacender os ânimos acirrados.

    E depois de algumas semanas, fato similar acontece sem que ONGs do padrão "Viva Ri©o" se manifeste com alguma ênfase e sem que o grupo Globo demonstre a mesma impetuosidade contra as autoridades que não conseguem conceder um mínimo de paz aos habitantes da cidade alvoroçada. E neste acontecimento algo mais grave ocorreu: bandidos expulsaram várias famílias de um prédio próximo à zona de conflito para terem melhor posição de tiro. A única diferença deste evento para o anterior, é que o primeiro aconteceu perto da orla marítima, em frente às varandas suntuosas da zona rica da cidade. E no segundo caso, o fato deu-se na base do morro do Adeus, no bairro abandonado de Bonsucesso.

    E tal estratégia não se aplica apenas à área de segurança. Quando um cano de água potável rompe no Leblon, os jornais dedicam metade da primeira página durante 3 dias para exibir a água desperdiçada e cobrar solução imediata. A televisão deixa um cinegrafista de plantão acompanhando o andamento da reforma. Os repórteres de rádio passam no local a cada duas horas para conferir a execução das tarefas. Enquanto isto, em Olaria (e num raio de 15 km a partir deste bairro) existem diversas ruas sem água disponível diariamente e com vazamento de esgotos há vários meses. Sobre o assunto, apenas uma nota de 3 cm na página 7 do jornal (caso um morador indignado envie uma carta cobrando a aplicação adequada de seus impostos).

    Se nossos amigos peixes morrem na Lagoa Rodrigo de Freitas (isto ocorre a 50 anos e não solucionam a contaminação das águas poluídas que são produzidas nos condomínios de luxo às margens da lagoa) e deixam mau cheiro no local, a imprensa cobra a remoção imediata dos cadáveres do local. Nos subúrbios, em algumas ruas toneladas de lixo permanecem quase 5 dias a céu aberto aguardando recolhimento antes que cães rasguem os sacos e espalhem detritos pelos bueiros já entupidos.

    Enquanto a elite não abrir os olhos para o cinturão de miséria que aumenta na mesma velocidade dos ganhos desenfreados dos gananciosos que corrompem nossas autoridades sem personalidade (mas vaidosas), estes fatos de violência passarão a ter maior freqüência, com maior número de vítimas e maior agressividade como resposta. Depois de alguns anos atuando livremente sem serem molestados de forma correta, os meliantes estarão seguros para começarem a expulsar os nobres que se julgam intocáveis por terem contratado seguranças pessoais. Apenas esquecem que estes, na maioria das vezes, moram nas localidades onde a miséria alimenta seus integrantes.







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