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Hulk


Hulk,
EUA, 2003.


Com ERIC BANA, JENNIFFER CONNELLY, NICK NOLTE, SAM ELLIOTT, JOSH LUCAS, PAUL KERSEY, CARA BUONO, TODD TESEN, KEVIN RANKIN, CELIA WESTON.

Baseado nos quadrinhos de STAN LEE e JACK KIRBY. Produtor associado: CHERYL A. TKACH, DAVID WOMARK. Música: DANNY ELFMAN. Fotografia: FRED ELMES. Montagem: TIM SQUVRES. Desenho de produção: RICK HEINRICHS. Produção executiva: KEVIN FEIGE. Produção: AVI ARAD, LARRY J. FRANCO, GALE ANNE HURD, JAMES SCHAMUS. Roteiro: JOHN TURMAN e MICHAEL FRANCE e JAMES SCHAMUS. História: JAMES SCHAMUS. Direção: ANG LEE.

Estréia no RJ: 27.06.2003.






Sinopse e comentário.



    Aventura. 1966, numa base militar em pleno deserto norte-americano. Proibido de prosseguir com suas experiências de regeneração humana, o cientista David Banner decide agir por conta própria e injeta em si mesmo o resultado de seu projeto com tecidos de animais, mesmo pondo em risco a sua própria vida. Nada acontece, mas o nascimento de seu filho Bruce, e a descoberta de que em seu DNA existe uma desconhecida substância herdada geneticamente do pai, terminará por provocar uma tragédia na família. Trinta e quatro anos depois, Bruce Banner é um cientista atormentado pelo trauma da infância: embora não lembre de sua vida quando garoto, sofre um pesadelo recorrente e trabalha também com regeneração genética, ignorando ser este o mesmo projeto que obcecava seu pai, dado como morto. Com uma rotina que consiste no convívio com a colega e ex-namorada Betty Ross, e com as recusas à empresa Atheon (que quer financiar-lhe as pesquisas com fins bélicos), Bruce sofrerá um acidente quando, ao salvar a vida de um colega no laboratório, é exposto a uma dose letal de radiação gama. Nada parece sofrer, até que, numa noite, visitado no hospital por um homem que diz não apenas ser seu pai, mas também saber o que é aquilo que existe aprisionado em seu interior, Bruce sofre uma crise de nervos que o leva a deformar-se até se transformar num imenso ser de pele esverdeada e força assombrosa, deixando um rastro de destruição ao fugir do hospital. Será então perseguido pelas forças armadas, que sob o comando do General Ross (pai de Betty), quer estudá-lo para a criação de um exército invencível.


    Nas entrevistas de divulgação desse filme, o diretor chinês Ang Lee disse um monte de coisas. Entre outras, que queria trabalhar com esse lado primitivo que trazemos lá dentro, em nosso íntimo, e até que seu Hulk seria uma metáfora dos Estados Unidos, um gigante precisando controlar seu poder. Se o espectador ignorar a pretensão, irá se divertir mais com essa adaptação dos quadrinhos da editora Marvel, a nova fonte de inspiração para os filmes de aventura norte-americanos desde que X-Men foi sucesso de bilheteria. Hulk não é tão denso ou inteligente, mas consegue divertir, prender a atenção do espectador e ser razoavelmente fiel ao original de Stan Lee e Jack Kirby. Desde que se observe algumas condições.


    A primeira é ter paciência para aturar toda a primeira metade do filme, dedicada burocraticamente a mostrar as origens do monstro e apresentar os insossos personagens. Eric Bana, o Bruce, só consegue nos fazer sentir saudades de Bill Bixby, que fez o transtornado cientista no seriado televisivo nos anos 80 junto com o fisiculturista Lou Ferrigno, que aparece numa ponta como policial, logo no início do filme (dizem que Stan Lee também aparece, mas esse missivista aqui não viu nenhum velhinho de bigode e meio careca). Além de citar a série, o filme também homenageia a linguagem dos quadrinhos, utilizando nos créditos o mesmo tipo de fonte dos balões e, principalmente, dividindo cenas em quadros como num gibi, recurso que serve apenas para varrer para baixo do tapete o início monótono e dar a impressão de que Hulk é na verdade dirigido por Brian De Palma.


    A segunda condição é se acostumar à animação computadorizada que dá vida ao monstro, mas deixa-o artificial, quase um boneco tipo o ogro de Shrek. A tecnologia de efeitos especiais certamente já permite confeccionar criaturas mais realistas, mas deixar o filme com cara de "game" deve ter sido intencional, para agradar a garotada que é o público alvo. Se o espectador adulto conseguir passar por isso tudo e relaxar na poltrona, é bem capaz de gostar das peripécias deste gigante que um crítico comparou a um Prometeu moderno, o herói grego que, por trazer o fogo (e a liberdade diante dos deuses) aos homens, recebeu como punição o aprisionamento a uma montanha com um abutre a lhe comer eternamente o fígado. O Hulk de Ang Lee, ao contrário do da TV, não é visto como uma maldição por sua outra face. No filme, o próprio Bruce Banner confessa tratar-se de "raiva, liberdade e poder", e que, quando está por aí, raivoso, livre e poderoso, ele gosta.


    E não dá mesmo para discordar dele. A sociedade moderna obriga o homem comum a engolir tantos sapos que ver um sujeito inchando de raiva, quebrando tudo e gritando a plenos pulmões torna-se um alívio. Ao contrário dos pobres mortais, o Hulk bota para fora as coisas que o incomodam, tem poder para reagir a elas e é livre. E ainda conquista a Jenniffer Connelly. Esse Hulk catártico é o grande achado de Ang Lee, cujo ápice é a luta com o próprio pai, exposto também à radiação gama mas com poderes diferentes. Nessa hora o monstro externa tudo o que há de furioso dentro dele, numa espécie de terapia ensandecida, em empolgante seqüência. Essa mistura de ação com psicologismo também é bem aproveitada na seqüência da luta contra as forças armadas, quando Hulk, agarrado a um jato, é levado até grandes alturas e, ficando sem oxigênio, é obrigado a soltar-se. Durante a queda, o sonho do cientista diante do espelho encontrando o monstro no reflexo, além de ser fiel aos quadrinhos, expõe em poucas imagens o conflito do personagem.


    Falando em sonho, o que não falta em Hulk é personagem com sonho recorrente. Além de Banner, também Betty fica sonhando com a mesma coisa repetidas vezes. Recurso fácil para apresentar logo o problema do personagem sem precisar construir cenas e diálogos interessantes, e usado aos montes em filmes dos mais diversos gêneros. Da mesma forma que a visão da fera de seu próprio reflexo nas águas de um lago. E a aporrinhação de Talbot, o antagonista que quer utilizar o monstro para construir soldados indestrutíveis. É tanto lugar comum junto que diante disso só se pode concluir que as cenas de ação, como a da luta com os cães mutantes e o confronto com os tanques de guerra, foram pensadas e realizadas primeiro, ficando todo o resto apenas para amarrar, de qualquer jeito, tais cenas. Já que é entretenimento mesmo, e que a intenção é vender bonecos e jogos, não custava colocar mais humor na trama. (M.L.)





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