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Jagoda e o Supermercado


Jagoda u supermarketu,
Sérvia / Alemanha / Itália, 2003.


Com BRANKA KATIC, SRDJAN TODOROVIC, DUBRAVKA MIJATOVIC, GORAN RADAKOVIC, DANILO LAZOVIC, MIRJANA KARANOVIC, NIKOLA SIMIC, ZORKA MANOJLOVIC, DJORDJE BRANKOVIC.

Música: NELLE KARAJLIC, DEJAN SPARAVALO. Fotografia: PETAR POPOVIC. Montagem: SVETOLIK MICA ZAJC. Desenho de produção: MILENKO JEREMIC, RADE MIHAJLOVIC. Produzido por EMIR KUSTURICA. Escrito e dirigido por DUSAN MILIC.

Exibido no Festival do Rio em Setembro/Outubro de 2003.






Sinopse e comentário.



    Um dia de cão. Símbolo dos novos tempos de globalização, a inauguração da filial de uma rede norte-americana de supermercados no centro da Sérvia traz todo tipo de manifestações, tanto favoráveis quanto contrárias. Em seu primeiro dia no novo emprego, Jagoda, uma das caixas do sofisticado lugar, passa por momentos de estresse ao ser humilhada pela gerente e ter de permanecer sorrindo, e ver o homem que a cortejava ser praticamente arrastado por uma colega de trabalho, que ainda por cima saiu mais cedo deixando-lhe depois do horário no trabalho, fechando o caixa. Prestes a terminar e julgando estar sozinha, Jagoda é abordada por uma senhora querendo comprar morangos para o aniversário do neto e, no lugar de atendê-la, grosseiramente a enxota do estabelecimento. Na manhã seguinte, já esquecida do incidente, a atendente e todos os demais, funcionários e clientes, serão surpreendidos com a entrada de um sujeito armado de metralhadora, com trajes militares, clamando por vingança. Pois o sujeito, alucinado veterano de guerra, é o neto da velhinha enxotada na noite anterior, que toma o supermercado e faz a todos de reféns.


    "Deus, que tipo de gente nos tornamos", lamenta a frágil velhinha ao ser expulsa do supermercado. O filme tenta ser um desenvolvimento perplexo e bem humorado desse comentário, ao mostrar as transformações numa sociedade saída de uma ditadura para o chamado mundo "livre" globalizado. O iniciante diretor e roteirista Dusan Milic, vindo de séries de TV e videoclipes, não está interessado em análises sociológicas profundas, e seus breves comentários sobre o tema são inseridos em cenas muitas vezes hilárias como a do velhinho sacudindo um KinderOvo e perguntando se estão frescos. Ou do policial que diz que a ação de Marko (o neto da velhinha) é um "ataque terrorista a um território estrangeiro", como se o supermercado fosse uma embaixada americana. O roteiro também trata sutilmente do conflito entre os democratas e conservadores no relacionamento entre o policial Negojsa e o militar das operações especiais: enquanto o segundo quer invadir de uma vez e matar o "terrorista", não importando os reféns, o primeiro quer negociar pacificamente, embora não tenha ao certo uma solução para o problema. Negojsa parece ser o meio-termo entre a população inteiramente americanizada, como a gerente do supermercado, e os anti-americanos, como Marko, que discursa contra os EUA enquanto atira comida enlatada nos policiais, recebendo os aplausos alucinados da população.


    Há por toda parte semelhanças com o Um Dia de Cão, que Sidney Lumet dirigiu e Al Pacino protagonizou nos anos 1970. Aqui também o povo vaia a polícia, repetindo o que o policial fala ao megafone; da mesma forma que no outro, o seqüestro não se guia por motivações políticas, embora se torne posteriormente; e também aqui ocorre a simpatia entre vítima e criminoso, que aliás chega aos extremos. A diferença é que enquanto no filme de Lumet a ação, ainda que houvesse humor, era tensa e dramática, aqui é tudo festa, principalmente ao final, em que tudo se resolve bem até demais (a ridicularização do oficial mais velho, o Gavião, termina desnecessariamente caricatural). A destacar o carisma da protagonista e de alguns coadjuvantes, a trilha sonora cheia de ginga e certos diálogos, como aquele em que Marko responde a Negojsa, quando este lhe pede para soltar os reféns: "Se eu libertar todo mundo, vim aqui fazer o quê?". (M.L.)





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