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05.12.2004
Elizeu Moreira Paranaguá O Pássaro de Pedra
José Inácio Vieira de Melo
Ele se atrasou mais de uma hora. Aliás, chegar atrasado é uma das principais características
do poeta Elizeu Moreira Paranaguá, criador e apresentador do projeto Imagem do Verso, que
na última primavera agitou o cenário da poesia baiana. Em 14 apresentações, não começou sequer
uma no horário marcado. Ele diz que esse negócio de hora é coisa do capitalismo, e que se chega
em algum lugar quando tem que chegar ou se tiver de chegar, portanto não adianta ter pressa.
Andar despreocupadamente a catar pedras pelas ruas da cidade é uma das coisas que mais gosta
de fazer. "Tenho mais de 2800 pedras em casa", vangloria-se Moreira Paranaguá, que mora sozinho,
em Nazaré, em um quarto. "As pedras não estão mortas, elas têm uma energia muito especial,
consigo entender a filosofia que elas contêm". Para onde quer que vá, sempre carrega em seus
bolsos algumas pedrinhas como amuleto ou para presentear os amigos.
Para este poeta autodidata, da cidade de Castro Alves, o trabalho é a literatura. Vive
mergulhado em livros, seja de filosofia, poesia, metafísica, prosa, qualquer coisa - sendo que
os dois primeiros itens lhe despertam mais o interesse. Ao ser indagado de como consegue se
manter, pois não exerce nenhuma atividade que lhe proporcione uma renda - a não ser quando
consegue vender algum livro antigo a um acadêmico ou a um padre - responde com os olhos
esbugalhados, o que passa uma certa sensação de espanto mesclada a um inexplicável deslumbre:
"como consigo sobreviver nem eu mesmo sei, mas vai se dando um jeito. A poesia também é
alimento".
Ao falar de sua infância, conta que foi a mais divertida possível, cheia de traquinagens
pelas ruas e ladeiras da cidade de Castro Alves, brincando de bola de gude com outros meninos
e roubando manga no sítio de Jorge, que os perseguia com uma espingarda cartucheira, arma de
fogo mais conhecida, naquela região, como soca tempero.
Um fato de sua vida o deixa entristecido, não saber quem é seu pai - e neste momento puxa
da carteira a identidade, onde consta apenas o nome da mãe. "Confesso que a ausência da figura
paterna é algo que me perturba bastante", diz em tom reflexivo e, logo em seguida, conclui
animadamente: "bom, o que importa é que estou aqui, bem criado por três mulheres maravilhosas:
avó, mãe e tia; as duas primeiras já falecidas".
Poema Terra Castro Alves é o único livro publicado pelo bardo. Editado, na década de
noventa, pelo Círculo de Estudo Pensamento e Ação (CEPA), grupo do qual Moreira Paranaguá fez
parte durante mais de 12 anos. Neste período organizou, ao lado de Germano Machado, vários
concursos literários. Suas últimas atividades no CEPA foram nos anos de 1999 e 2000, quando
coordenou com José Inácio Vieira de Melo, quatro números da revista CEPA/Poesia.
No livro Poema Terra Castro Alves são cantados as ruas e becos de sua cidade, num
nostálgico processo mnemônico, fruto de 12 anos de ausência do seu rincão. As peripécias de sua
infância ficam subentendidas em cada verso que constrói, e, mais uma vez, fica evidenciado o
gosto do poeta pelo caminhar, por botar o pé na estrada em busca da pedra filosofal e esquecer
os passos, de andar como quem voa, pois para ele o andar está para o homem como o voar está para
o pássaro.
Ao lhe oferecerem um emprego fixo - das 08 às 17h - respondeu: "você está louco, quer me
matar. Além do mais estou trabalhando no meu novo livro e na programação da segunda etapa do
projeto Imagem do Verso, em março tem de estar tudo pronto!". Acende um charuto Cavalo
de Ouro, solta a fumaça tranqüilamente, analisa se a brasa ficou boa e conclui: "Temos que
ascender. Para isso precisamos de pouca coisa, melhor dizendo, precisamos de nos livrar de
muitas coisas". Segue pela noite afora a esquadrinhar - com os olhos - as calçadas, em busca do
preciosismo das pedras.
Poemas de Elizeu Moreira Paranaguá
Exercício do Ser
1
A Pedra não elimina
o SER.
A Pedra ilumina
o SER.
2
Exercerexercício
do raio de Sol
- entre justiça
e esperança.
3
SER
exer-
cer :
Trans/Form/Ação.
4
Eis o Homem,
com seu direito
com seu destino
de vitória ou derrota.
O Amor
É o amor que subverte o mundo.
É o espírito que vive a metamorfose
que subverte o nosso tempo
em meio a uma manhã de chuva.
Poema do Coração
Eu sempre fico
nu para Deus,
mas ele nunca
ficou nu para
o sentido terrível
do meu ser.
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