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05.09.2004

Kill Bill Vol. 1: Para Ver e Ouvir
Jorge Saldanha




    Agora que a Imagem está lançando Kill Bill Vol. 1 em DVD no Brasil, e que sua continuação Kill Bill Vol. 2 finalmente está chegando aos cinemas nacionais (em ambos os casos, com um considerável e injustificável atraso), vale a pena revisitarmos a primeira parte desta pérola de Quentin Tarantino.

   O maior cineasta norte-americano surgido nos anos 90, depois de seis anos em jejum voltou no segundo semestre de 2003 com uma obra até certo ponto inesperada, mas que possui sua marca registrada: KILL BILL, que por ter ficado bem longo foi dividido em dois "volumes". A gênese de KILL BILL remonta à época da filmagem do antológico PULP FICTION, quando "Q" (Quentin) e sua estrela "U" (Uma Thurman) esboçaram a história de "A Noiva", uma assassina profissional de um grupo que é uma versão sombria das PANTERAS, o Deadly Viper Assassinations Squad - D.I.V.A.S, chefiado pelo misterioso Bill. No dia do seu casamento, grávida, ela sofre um atentado de seus ex-colegas, a mando de Bill. Ela sobrevive mas perde o bebê, e depois de passar quatro anos em coma inicia sua vingança, eliminando seus antigos companheiros um a um, até finalmente confrontar e, como o título já entrega, matar Bill (isso é visto no VOL. 2).

   Nessa trama de vingança Tarantino usa e abusa de uma série de referências pop retiradas do cinema e da TV dos anos 60 e 70, o que a crítica esnobe chamaria de "lixo cultural", as recicla e o resultado é um filme violento, com menos diálogos e mais ação do que os anteriores do diretor. Então, se você já é um quarentão, reconhecerá facilmente as homenagens aos filmes asiáticos de samurai e kung fu, e séries de TV: de cara, o filme começa com o logo dos "Shaw Bros.", que por anos produziram em Hong Kong centenas de filmes de baixo orçamento; o traje amarelo de Uma Thurman é uma réplica do usado por Bruce Lee, o maior astro das artes marciais, em BRUCE LEE NO JOGO DA MORTE (o tênis, inclusive, é do mesmo modelo); as máscaras dos membros da gangue Crazy 88 são iguais à que Lee utilizava no seriado de TV O BESOURO VERDE; a participação do ator Sonny Chiba, muito popular no Japão; David Carradine, que encarna o Bill, era o astro da famosa série de TV KUNG FU; O-Ren Ishii (cuja origem é contada num violento animê) é interpretada por Lucy Liu, uma das PANTERAS do cinema; e as homenagens ao diretor japonês Kinji Fukasaku (a atriz Chiaki Kuriyama repete aqui praticamente o mesmo papel de assassina que viveu no último filme de Fukasaku, BATTLE ROYALE, de 2000).

   Há referências a outros gêneros, até mesmo JORNADA NAS ESTRELAS é homenageada: o provérbio "klingon" que abre o filme ("A vingança é um prato que se come frio") foi retirado do melhor filme da série, JORNADA NAS ESTRELAS II: A IRA DE KHAN (1982). Tudo isso é complementado por uma violência inédita em filmes do diretor - há uma profusão de mortes, cabeças e membros decepados, combates corporais e sangue espirrando em uma escala tão grande que provoca risos, ao invés de chocar. Também não faltam os cenários fake e aqueles deliciosos diálogos tolos típicos de seus filmes.

   Complementando todo o arsenal de referências visuais, Tarantino (como de hábito) acentua as homenagens e referências a gêneros como os westerns spaghetti e os filmes blaxploitation através da música. De um modo geral, seus filmes são aqueles raros exemplos de produções em que a seleção musical tem uma importância fundamental, funcionando tão bem quanto uma trilha incidental original. Segundo o próprio cineasta, quando ele está filmando, o faz já pensando na música que será utilizada acompanhando a imagem. Na verdade, KILL BILL VOL. 1 é o primeiro filme de Tarantino que conta com músicas especialmente compostas para ele, mas chamar as duas curtas criações de The RZA (Robert Diggs, do grupo de rap Wu-Tang Clan) de trilha sonora original é um exagero. Assim, nesta primeira parte de KILL BILL, Tarantino na maior parte do tempo construiu uma trilha pinçando, de sua discoteca particular, canções antigas e temas de outros filmes.

   E não estamos frente a uma simples coletânea de canções: as seleções musicais funcionam efetivamente como um score acompanhando a ação que transcorre na tela, ainda que, em disco, fique ressaltada a falta de unidade típica da utilização de elementos das mais diversas origens. Emoldurando sua história de vingança, Tarantino buscou as correspondências musicais aos gêneros nos quais ela se inspirou. As referências mais óbvias a seriados na TV são encontradas em IRONSIDE (a introdução do tema da série estrelada por Raymond Burr, composto por Quincy Jones), e no tema de THE GREEN HORNET, composto por Billy May (e interpretado pelo trompetista Al Hirt) para a série dos anos 60 que revelou Bruce Lee. Já as referências musicais cinematográficas são mais variadas. Do cinema japonês Tarantino resgata o poderoso tema do filme de yakuzas (as máfias japonesas) de Kinji Fukasaku, BATTLE WITHOUT HONOR AND HUMANITY (1998), composto por Tomayasu Hotei e ouvida antes do inacreditável combate da Noiva com os Crazy 88. A canção "The Flower of Carnage", interpretada por Meiko Kaji, foi extraída do filme LADY SNOWBLOOD (1973). Representando o spaghetti-western, foi incluído o belo tema composto pelo argentino Luis Bacalov, no melhor estilo de Ennio Morricone (presente no filme com o tema de A MORTE ANDA A CAVALO, que infelizmente foi omitido do CD da trilha sonora), para THE GRAND DUEL, produção dirigida por Giancarlo Santi em 1972. Apesar de não ter sido composta para nenhum western, a música do flautista Georges Zamfir, "The Lonely Shepherd", é uma referência indireta, já que ela faz parte da trilha sonora de ONCE UPON A TIME IN AMERICA, de Sergio Leone, o maior diretor do gênero e do qual Tarantino é um grande fã.

   Até mesmo o blaxploitation, gênero já homenageado pelo diretor em JACKIE BROWN, está presente na composição "Run Fay Run", da trilha do grande Isaac Hayes para o filme estrelado por ele mesmo TOUGH GUYS, de 1973 (no filme há outra música de Hayes, do filme TRUCK TURNER, também não incluída no CD). A salada musical continua com canções pop de épocas variadas - a soturna balada "Bang Bang (My Baby Shot Me Down)", com Nancy Sinatra no vocal, "Woo Hoo" do grupo de garotas japonesas The 5.6.7.8’s, e até mesmo a famosa versão "flamenco brega" de "Don’t Let Me Misunderstood", por Santa Esmeralda, ouvida no duelo entre "A Noiva" (Uma) e O-ren Ishii (Lucy Liu). No entanto, a pérola do álbum é o resgate que Tarantino fez de uma composição esquecida de um dos maiores compositores do cinema de todos os tempos, Bernard Herrmann. Para acompanhar a aparição da assassina interpretada por Daryl Hannah, Tarantino selecionou a música de TWISTED NERVE, filme de suspense inglês de 1968 para o qual Herrmann compôs a partitura original. Do mesmo modo que o vilão daquele filme, Hannah assobia o tema de Herrmann, uma composição que, mesmo sendo curta (pouco menos de 1:30 de duração), é admirável, apresentando algumas das características de harmonia e orquestração que fizeram de Herrmann um dos gênios da música de cinema.

   Enfim, para quem conhece as inúmeras referências jogadas na tela e nos alto-falantes, KILL BILL: VOL. 1 é uma delícia de se ver e ouvir, e um divertido filme de ação para os mais novos ou desavisados. Aposto que Tarantino sentiu um prazer especial com os elogios a KILL BILL, vindos dos mesmos críticos que consideram a matéria prima de seu filme como mero "lixo cultural". Ao final, por vias transversas, Q & U - o diretor e sua musa - fazem justiça aos nossos ídolos. A vingança é mesmo um prato que se come frio... e até o VOL. 2.








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