Kundun,
EUA, 1997.
Com TENZIN THUTHOB TSARONG, GYURME TETHONG, TULKU JAMYANG
KUNGA TENZIN, TENZIN YESHI PAICHANG, TENCHO GYALPO, TSEWANG MIGYUR KHANGSAR, GESHI YESHI GYATSO,
SONAM PHUNTSOK, LOBSANG SAMTEN, GYATSO LUKHANG, JIGME TSARONG, TENZIN TRINLEY, ROBERT LIN,
CHAIRMAN MAO, VYAS ANANTHAKRISHNAN, YOON C. JOYCE, KEN LEUNG, BEM WANG, R. GERN TROWBRIDGE.
Co-produção: MELISSA MATHISON.
Produção executiva: LAURA FATTORI.
Música: PHILIP GLASS.
Montagem: THELMA SCHOONMAKER.
Desenho de produção e figurino: DANTE FERRETTI.
Fotografia: ROGER DEAKINS.
Produção: BARBARA DE FINA.
Baseado na vida de Sua Santidae, o DALAI LAMA.
Escrito por MELISSA MATHISON.
Direção: MARTIN SCORSESE.
Estréia no RJ:
Sinopse e comentário.
Biografia do Dalai Lama, líder religioso do Tibet considerado a 14ª
reencarnação do Buda da Compaixão. 1937. Com apenas dois anos e meio, o pequeno filho de uma
pobre família rural é reconhecido como o Kundun, a criança iluminada que seria a reencarnação
de Buda. Transferido para um templo e acompanhado por um tutor, receberá toda a atenção e
educação necessárias, de forma a torná-lo a principal figura religiosa e política de seu país,
respeitado e amado pela população. Em 1950, com a invasão do Tibet pela China comunista de Mao
Tsé Tung, o Dalai Lama, então apenas um adolescente, se verá diante de questões graves
relativas à soberania e ao bem estar de seu povo. Jamais abandonando a doutrina de
não-violência, busca o diálogo com invasor, inclusive com uma visita pessoal ao governante
chinês, mas aos poucos as negociações vão se revelando inúteis, visto que a presença chinesa,
seja militar ou através do deslocamento de colonos para as regiões tibetanas, cresce a cada dia
e se torna cada vez mais ameaçadora e violenta. Mesmo com a própria vida em perigo, o Dalai
Lama recusa-se a fugir do país e buscar exílio na vizinha Índia, até que a invasão se
concretiza e, diante das tropas comunistas que avançam em direção ao templo destruindo o que
encontram pelo caminho (seguindo o princípio de que "a religião é o ópio do povo"), se vê
obrigado a deixar o Tibet.
"Você precisa saber o que fazer". É essa frase, dita por um dos
mestres do jovem Dalai Lama quando a invasão chinesa enfim torna-se um fato, que faz de
Kundun muito mais do que uma "propaganda institucional" (conforme dito por um crítico
gaúcho), e desfaz a estranheza provocada em quem jamais esperaria que um cineasta voltado à
violência urbana nos EUA pudesse filmar a vida de um líder espiritual tibetano que prega a
não-violência. Partindo da história contada pelo próprio Dalai Lama à roterista Melissa
Mathison (conhecida até então como a autora de E.T. - O Extraterrestre), Martin
Scorsese, o tal diretor, quis promover uma transformação radical no cinema que vinha fazendo.
Transformação formal, há que se esclarecer. A temática que lhe é cara continua a mesma e está
resumida na frase que inicia o parágrafo.
Fascinado por personagens que, de uma maneira ou de outra, são levados a
tomarem as rédeas de situações que lhes são adversas, Scorsese encontrou no Dalai Lama
interessante objeto para sua reflexão cinematográfica. No filme, o menino a quem é dada a
incumbência de assumir o controle político e religioso de um país é despreparado e imaturo,
como deve um menino ser. Fica mais animado com a notícia de que ganhou um elefante de presente
do que com os assuntos nacionais. A educação rigorosa, e o caráter sensível, reflexivo e justo
decerto fariam dele um grande líder no futuro. Mas é no presente que invadem o seu país, matam
o seu povo, tiram a sua bandeira, a sua liberdade e "o seu silêncio". Líder de um país
humilhado tanto pela China quanto pelas Nações Unidas (ninguém quis responder o seu pedido de
ajuda), Kundun tenta reagir pela negociação, e só consegue ser humilhado de novo, agora
diretamente, por Mao Tsé Tung, que diz que o Tibet é "fraco e inferior", e que a religião é
"veneno". Quem estava procurando a violência característica dos filmes de Scorsese, pode vê-la
na angustiante cena em que o Dalai Lama recebe a informação das torturas cometidas pelos
chineses aos tibetanos, e reage emocionadamente. O coração dói nessa hora. A outra seqüência
que os críticos sempre elogiam é a do pesadelo, onde o protagonista vê-se de pé no meio de um
mar de cadáveres. Imagens de um preciosismo estético impecável, com utilização de ângulos
ousados que algumas vezes remetem a visões oníricas, e closes de pinturas na areia, tudo
acentuado pela música lindíssima de Philip Glass, e que mostram que beleza de narrador há por
trás de Kundun. Muitas vezes o filme flui como se estivesse sendo escrito numa folha de
papel, ou pintado, tal a graciosidade narrativa que faz a câmera mover-se como os olhos de uma
criança (nas cenas da infância), para aos poucos a poesia da história de Sua Santidade ir se
tornando mais melancólica à medida que o tempo passa, e o protagonista, mais velho, se vê diante
da selvageria que lhe surge inconcebível pela frente.
Mas, apesar da sensibilidade, muito se criticou a reverência com que
Martin Scorsese tratou seu biografado. O respeito e a admiração que o diretor nutre pelo Dalai
Lama teriam turvado um olhar objetivo e aprofundado tanto sobre o personagem quanto pela
situação do Tibet. E, de fato, Scorsese passa longe de mostrar a vida miserável do povo
tibetano sob um sistema ainda feudal, deixando para exibi-lo somente depois da invasão chinesa.
A outra crítica também procede: curiosamente, o diretor que procurou revelar o homem que havia
por trás do mito católico de Jesus (em A Última Tentação de Cristo) não fez o mesmo com
o Dalai Lama. Como já foi dito, seu personagem é "santo, nobre e sábio em tempo integral", e as
únicas falhas que a que o roteiro se permite apresentar limitam-se à arrogância quando criança
e às indecisões do adolescente. O filme certamente seria mais interessante do que é, caso
mergulhasse com vontade na personalidade de figura tão importante quanto curiosa, já que sua
beleza e humildade surgem como qualidades completamente avessas às tendências cada vez mais
individualistas e belicosas de nossos tempos.
(M.L.)