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Experiência Kamiquase
Lau Siqueira





   Dia desses, andei lançando alguns poemas na net e recebi uma contrapartida interessante de amigos poetas e críticos. "Dicas" para explorar ao máximo a "potencialidade dos poemas". Todas, logicamente, muito bem vindas. Mesmo as de efeito "eucarístico".

   Normal o meu riso interior. É sempre gratificante esse tipo de diálogo com outros seres criadores e pensantes. Relendo Umberto Eco, entretanto, respirei com alívio. "Nenhuma obra de arte é realmente fechada, pois cada uma delas congloba em sua definitude exterior uma infinidade de leituras possíveis". Foram tantas e tão contraditórias as leituras que não me contive diante do ímpeto de expressar também algum pensamento a respeito. Meus parceiros de idéias e mundo estiveram apenas reafirmando as razões da carpintaria poética. Ninguém ainda encontrou a chave que permite a entrada e a saída dessa caverna. E se encontrou, acabou jogando fora porque nunca mais precisaria abrir e fechar portas.

   O conhecimento é um novelo cujo fio inicial é tão desconhecido quanto o final. Tudo que é exato esbarra no muro das hipóteses. Provavelmente até a vida. Estamos sempre abreviando um mergulho que jamais acontece na sua plenitude porque o poço do conhecimento é de infinitas águas e de profundidade não sabida.

   Concluo, pois, que os meus amigos estão cobertos de razão. O próprio Eco - meu ídolo desde que escreveu Obra Aberta - também afirma que "se se pretende prosseguir um discurso sobre o tipo de 'abertura' proposto pelos poéticos contemporâneos, e sobre sua característica de novidade em relação ao desenvolvimento histórico das idéias estéticas, será preciso com maior profundidade a diferença entre a abertura programática das hodiernas correntes artísticas e aquela abertura que já definimos como característica típica de toda obra de arte".

   Que esteja eu lá buscando um consolo para os meus tropeços estéticos vá lá. Mas obrigá-los, caros amigos, a consumir elucubrações sobre a confusão em que se mete um sujeito sem muitos predicados, mas, disposto a não acreditar em nada que não esteja em constante ebulição, é demais.

   No fundo no fundo, nos dividimos sempre entre conservadores e subversivos. Os conservadores são os que sempre encontraram o baú das coisas belas. Mesmo quando feias. Os outros somos nós, os guerrilheiros do descampado.

   Toda ousadia tem gosto de pecado. Por isso ousar, algumas vezes, muito mais que arranhar portas é saber o momento de fechá-las.

   Perdoem, pois, esta reflexão que nada mais é que uma breve insurgência contra as velhas coações do enrijecimento. Ao poema, por pior que seja, vale o desejo de seu criminoso criador encontrar o Parnaso nessa Etiópia de valores aos quais estamos submetidos. Há matemática na arte. Mas, a lógica de todo processo criativo nos ensina que nunquinha da silva "a soma dos quadrados dos catetos é igual à soma dos quadrados da hipotenusa".






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