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Cinema, exclusão e utopia
Luiz Carlos Lucena
O que existe de comum em filmes como Cidade de Deus, Cronicamente Inviável, O
Invasor e Amarelo Manga, sucessos da chamada "retomada" do cinema brasileiro? A
primeira resposta é imediata: são filmes que tomam como motivo a questão da exclusão social,
tendo a favela e a periferia como cenários. Um olhar mais atento vai perceber, no entanto, que
esses filmes escondem muito mais que o processo globalizado da exclusão. Na verdade eles
questionam, e colocam de forma até mesmo utópica - aqui, não o sonho utópico, mas a utopia vista
como uma hermenêutica negativa, a possibilidade de negar o que existe para encontrar o que 'está'
- um problema muito mais grave e que é o inverso da exclusão, ou melhor, como incluir esse mundo
que cresce nas bordas do sistema?
A questão da exclusão social tem despertado os debates mais calorosos nos meios políticos,
econômicos e acadêmicos. Mas falta nessa discussão a visão histórica que alimenta esse processo.
E aí voltamos aos anos 60, germe dessa sociedade pós-moderna e do próprio processo de
globalização que conhecemos nos dias de hoje. Porque ali está o cancro que cresce sem controle e
coloca todos, o centro e a periferia, nesse jogo perverso da tomada do espaço social.
Os anos 60 foram uma das décadas mais importantes neste século, com seus movimentos
libertários no comportamento, na música, nas artes em geral. Deixaram suas marcas até hoje. Mas
o pensador de questões contemporâneas e marxista norte-americano Fredric Jameson tem uma tese
fantástica para explicar como surgiram e quais os reflexos do movimento que aflorou nos anos 60.
Os anos sessenta nasceram no Terceiro Mundo, é sua premissa inicial, com os movimentos de
descolonização da África inglesa e francesa e seus reflexos na esquerda estudantil, nos
movimentos antibelicistas e na contracultura. A independência de Gana e a revolução argelina,
em 57, a agonia do Congo, com o assassinato de Lumumba em 1961, a independência das colônias
francesas sinalizam o que passará a ser conhecido como anos sessenta e foram responsáveis pelo
movimento migratório que encheu a Europa dos excluídos da periferia.
Segundo Sartre, "o mundo tinha dois bilhões de habitantes, quinhentos milhões de homens e um
bilhão e quinhentos milhões de nativos. Os primeiros tinham a Palavra; os outros simplesmente a
usavam...". E de repente esses nativos tornaram-se seres humanos, ganharam o mundo, só que agora
com voz própria, novos sujeitos na história, detonando um processo de questionamento universal:
eu existo!
Uma voz coletiva nunca ouvida nos palcos do mundo. O movimento hyppie nascia na África,
capiche!
Por outro lado, ao lado do processo de descolonização, ainda segundo Jameson, também nos 60,
caminha historicamente de mãos dadas uma nova forma de neocolonialismo, com a chamada Revolução
Verde e seu processo de mecanização e uso intensivo de defensivos - dando início ao processo de
globalização contemporâneo.
Contudo, o colonizador imperialista do século XIX deixou os espaços colonizados como
encontrou, não provocou necessariamente a mudança capitalista dos modos tradicionais de
produção local, exercendo uma colonização mais política e militar e trazendo as riquezas locais
e os escravos. A Revolução Verde leva essa penetração e expansão da "lógica do capital" a um
novo estágio, transforma a pequena propriedade das sociedades de aldeias e as formas
pré-capitalistas de agricultura no plantation multinacional, modifica os meios de
produção, coloca de repente uma imensa legião de trabalhadores agrícolas à margem, um
proletariado sem terra, favorecendo mais ainda a migração para os centros urbanos. A voz desses
excluídos vai ganhar as ruas de Paris, Londres, Washington e é rapidamente assimilada pela
juventude estudantil. O mundo quase pega fogo em 68. Mas os anos 60 acabam e uma horda de
bárbaros - o termo é mais retórico que real - continua procurando um espaço que não existe.
Tudo fica novo e difícil! A queda do muro de Berlim mata a perspectiva de uma alternativa.
O neoliberalismo tatcheriano, que já vem dos anos 70, destrói a perspectiva da luta de classes,
não dá espaço para as reinvindicações sociais. O neoliberalismo é apenas para as empresas e o
Estado, não para o proletário. O capitalismo tardio, tecnológico, exclui a política da vida
sindical, com o fantasma do desemprego. Segundo Arnaldo Jabor, o que restou foram "movimentos
alienados e incendiários". No Brasil, o MST, lá fora os vários fundamentalismos e a guerra do
terrorismo.
E mesmo a falência do neoliberalismo (infelizmente ainda vivemos os estertores dessa praga
que se alastrou) não evitou que o mundo - e não apenas o Brasil - se tornasse um imenso gueto de
excluídos. É essa a questão que a filmografia recente do cinema brasileiro está tocando pela
superfície. No âmago, lá no fundo, a questão é muito mais grave: o que fazer com esse grupo de
excluídos, quando não existe mais um espaço que ele possa ocupar?
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