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A Marvada Carne


Brasil, 1985.


Com ADILSON BARROS, FERNANDA TORRES, DIONÍSIO AZEVEDO, GENNY PRADO, REGINA CASÉ, LUCÉLIA MACHIAVELI, PACO SANCHES, HENRIQUE LISBOA, CHIQUINHO BRANDÃO, TONICO E TINOCO.

Roteiro: ANDRÉ KLOTZEL, C. A. SOFREDINI. Fotografia e câmera: PEDRO FARKAS. Direção de arte: ADRIAN COOPER. Montagem: ALAIN FRESNOT. Música: ROGÉRIO DUPRAT. Música tema: PASSOCA. Direção de produção: JACQUES JOVER. Produção executiva: CLAUDIO KAHNS. Direção: ANDRÉ KLOTZEL.

Estréia no RJ:





Sinopse e comentário.



    Comédia caipira. Interior de São Paulo. Cansado da mesmice e da solidão no meio do mato, Nhô Quim abandona seu casebre e, acompanhado do cachorro e do bode, parte em busca das duas coisas que mais deseja na vida: uma esposa e comer carne de boi. Em suas andanças chega a um arraial onde conhece a família de Sá Carula, jovem casadoura que, ao ver o chegante, julga tratar-se do marido enviado por Santo Antônio, embora ele não lhe dê atenção. Mas ela logo trata de descobrir o que ele veio fazer por ali, e, quando consegue, faz chegar aos ouvidos de Nhô Quim que seu pai, o Nhô Totó, irá matar um boi para a festança que realizará no casamento da filha. Animado, Nhô Quim vai até Nhô Totó pedir a mão de Carula, o que lhe é concedida mediante a realização de uma série de provas. Aprovado em umas e reprovado em outras, Nhô Quim começa a achar que os testes não acabarão nunca, resolvendo fugir com Carula e só voltar depois de casados.


    Este filme marcou a feliz estréia do diretor André Klotzel, oriundo de uma turma vinda da Escola de Comunicação da USP, da qual também fazem parte o montador Alain Fresnot (diretor de, entre outros, Ed Mort e Desmundo). Depois de A Marvada Carne, Klotzel realizaria ainda Capitalismo Selvagem e Memórias Póstumas, sem obter o mesmo resultado da estréia. Unanimidade de público e crítica, prazeroso do início ao final, este filme de fato merece tanta paparicação. Klotzel narra sem qualquer pressa, vício ou preconceito a vida do homem do campo, e com sua história simples do herói humilde que enfrenta todos os obstáculos para atingir seu objetivo, expõe tanto os costumes quanto o imaginário dessa gente, abordando inclusive o êxodo rural que a empurra para a periferia das grandes cidades. "Naquele tempo acontecia muita coisa", diz Nhô Quim, referindo-se curiosamente a um tempo que ainda não passou, pois a única mudança deu-se no espaço (do campo para a capital). Radical mudança, diga-se. Enquanto no campo o protagonista oferece fumo para o Curupira, vende uma galinha preta para o diabo e cola de volta o nariz decepado amigo Serafim, na cidade (onde até a edição das imagens se torna nervosa) ele se perde no asfalto, é enganado, mete-se em saques a supermercados.


    Isso tudo narrado de maneira bem humorada, irresistível e aparentemente despretensiosa. Mas Klotzel realizou minucioso trabalho com seus atores para que os sotaques e os costumes fossem reproduzidos sem soar caricatos. Os diálogos, primorosos, encontram os intérpretes ideais no elenco, e não há como não destacar nomes. Adilson Barros, falecido precocemente aos 50 anos, é um Nhô Quim ingênuo, divertido, espécie de Mazzaropi melhorado, que traz um olhar de espanto e admiração pelo mundo mesmo quando descobre ter sido enganado. Fernanda Torres, mal iniciada a carreira, brilha deliciosa com um ar brejeiro cheio de olhares para a câmera, as brigas com o santo e as artimanhas para conquistar Nhô Quim. E Dionísio Azevedo faz um Nhô Totó desconfiado e antológico, que esconde o queijo na gaveta e não dá nenhuma informação a ninguém, justificando-se sempre com o bordão "Ah, é... Me passou", que o espectador fatalmente sairá repetindo ao final do filme, enquanto corre para comer um bife. (M.L.)





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