Maria José Limeira
Corria o ano de 1984 (não me lembro a data
exata).
O Governador do Estado havia sido eleito em 1982,
depois de mais de vinte anos sem eleições
diretas, no País.
A campanha fora acirrada.
De um lado, o candidato oficial do entulho
autoritário, engajado no partido chamado PDS,
apoiado pelas verbas do Tesouro Nacional.
De outro, o candidato da Oposição, apoiado por
uma frente ampla, com os intelectuais na
liderança, com bandeiras de luta de todas as
cores, o vermelho predominando, e nenhum poder
econômico.
Como era de se esperar, o candidato da Oposição
ganhou na Capital, com os votos de todos os
eleitores esclarecidos.
Mas, perdeu nos municípios do interior, onde a
pobreza grassava e o semi-analfabetismo trocava
votos pela comida que faltava.
Ganhou as eleições gerais o candidato do PDS.
Após o embate, o Governador eleito não tinha por
que morrer de simpatias pelos Poetas e Trovadores
que, na campanha, haviam apoiado o candidato
derrotado.
Tanto que, na hora de escolher um nome para a
Secretaria de Cultura, assumiu a Pasta um
político safado, analfabeto de pai e mãe, sem
nenhum vínculo com as Letras e as Artes.
Mas, o tempo passa.
Ofensas de campanha eleitoral esquecidas, o
Governador achou que era a hora de se reconciliar
com os intelectuais que haviam lhe dado muito
desgosto.
Mandou seus assessores procurar os Poetas da
cidade para ocuparem espaço numa revista que o
Governo publicaria com as verbas oficiais.
Fui contatada, por telefone, e, nessa hora, quis
saber quanto em dinheiro o Governo me pagaria
para ter um texto meu publicado em sua revista.
"- Nós publicaremos seu texto, e você não
precisará nos pagar nada pelo favor que estamos
lhe fazendo", disse-me o funcionário zeloso, em
tom de gozação.
Eu agradeci muito a gentileza de terem se
lembrado de mim, mas informei que não havia texto
meu algum disponível.
Desliguei o telefone, e esqueci o assunto.
A revista foi publicada, em riquíssima edição
colorida, impressa em bom papel, e tudo bem.
A edição já havia sido distribuída, e mais da
metade dos exemplares circulava livremente na
Paraíba, em outros Estados, e até no Exterior,
quando chegaram aqui, em visita de cortesia, uns
Oficiais do Estado Maior das Forças Armadas
(Emfa) e pediram audiência ao Senhor Governador.
Na Sala Vip do Palácio da Redenção, onde ficaram,
aguardando a audiência, funcionários solícitos
lhes serviram cafezinho e distribuíram entre os
visitantes a tal revista "Presença", para que se
distraíssem, um pouco, vendo o que a Paraíba tem.
Final surpreendente desta história.
Na audiência com o Governador, o Chefe dos
Oficiais visitantes informou ao Chefe do
Executivo que estavam - ele e seus companheiros
de farda - devolvendo os exemplares da revista
que lhes tinham sido entregues para ler, pois
continham matéria considerada ofensiva às Forças
Armadas.
Os exemplares devolvidos ficaram entulhados em
cima do birô do Gabinete, e os ofendidos se
retiraram zangados, não sem antes de sugerir ao
Senhor Governador que mandasse apreender os
restantes, ainda em circulação, onde estivessem
expostos.
A matéria a que se referiam era o texto do Poeta
Paulo Vieira, que dizia mais ou menos assim,
entre outras coisas:
"Quando estourou o Golpe Militar de 1964, eu
estava no banheiro, me masturbando..."
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