Marcos Roberto Magalhães de Sá
Nascido em Nova York, num bairro de periferia onde "a violência era, ela própria, uma forma de
expressão" em suas próprias palavras,
Martin Scorsese fez parte de uma geração de cineastas que
deram novos rumos ao cinema americano. Junto com nomes como Francis Ford Copolla, Wood Allen,
Steven Spielberg, George Lucas, entre outros, fez com que a voz dos diretores fosse mais ouvida
e respeitada tanto para o público quanto para os grandes estúdios nos Estados Unidos. Não que
diretores como Billy Wilder, Arthur Penn, Charles Chaplin e ainda uma penca de outros cineastas
não menos importantes não tenham sido ouvidos em épocas anteriores, mas, com a intensidade e
quantidade com que na década de 70 esse grupo se fez representar, nunca antes a história do
cinema americano havia presenciado.
Era uma geração que buscava novas temáticas, novas formas
narrativas para a arte cinematográfica, aliando profundos conhecimentos tanto da história do
cinema (não só nos Estados Unidos como também em outras parte do mundo) como das técnicas de
filmagem. Para o bem ou para o mal, eles deram novas direções ao cinema. Steven Speilberg foi
um dos que, por exemplo, trouxe para a platéia um público até então meio que desconhecido, os
adolescentes. Com filmes que mesclavam boas doses de ação e aventura e uma enorme gama de
efeitos especiais cada vez mais apurados como a série "Indiana Jones" ou "E.T.", talvez tenha
sido o principal responsável por fazer com que a produção de filmes, pelo menos nos Estados
Unidos, seja cada vez mais voltada para o mercado infanto juvenil. Os jovens já vinham
revolucionando a cultura, moral e ética desde os anos 60, e na década seguinte já eram voz
ativa na sociedade. Já possuíam grande parte da produção cultural voltada para eles e eram já o
seu principal mercado consumidor. Porém, tratava-se geralmente de movimentos contestatórios,
produzidos por jovens relativamente bem informados e atuantes politicamente. Se negociantes
espertos captaram o movimento rebelde e conseguiram transformá-lo em mercadoria e lucrar com
isso é outra história. Mas o fato é que o cinema de cineastas como Spielberg era feito para um
público com menos idade, recém saído da infância, e que conseguiam agradar também a seus pais.
Eram filmes leves, com mil aventuras e personagens cativantes.
Com Steven Spielberg, Brian De Palma, George Lucas e Francis
Ford Coppola
Martin Scorsese, porém, optou por uma via diferente. Como ele mesmo diz, seus filmes não são
para espectadores infantis ou juvenis, e nem ele quer que sejam. Ex-seminarista antes de se
decidir de vez pelo cinema e um típico "jovem" contestador dos valores vigentes da sociedade,
sua carreira foi alicerçada por uma sólida formação acadêmica que lhe proporcionou uma erudição
e conhecimento da história do cinema que poucos cineastas possuem. Capaz de discorrer com rara
facilidade tanto a respeito do cinema novo brasileiro como da história do cinema italiano (uma
das suas principais referências), por exemplo, Scorsese possui também um talento raro com a
câmera e com os elementos técnicos que compõem um filme. A mistura desses fatores é que faz com
que cada novo filme seu seja dado a um certo grau de experimentação. O total domínio da
narrativa cinematográfica lhe possibilita criar novos matizes para os seus filmes.
No entanto, pode-se observar que alguns elementos perpassam quase toda a sua obra. A violência
talvez seja o mais óbvio (para os mais afoitos, o mais importante). Mas, indo mais além, como
uma pessoa tateando no escuro e depois de algum tempo, já habituada à escuridão, conseguindo
discernir melhor as coisas, percebe-se outros aspectos bem mais interessantes e esclarecedores
do seu universo cinematográfico. A sua tentativa de expor e analisar o "homem comum", ou seja,
aquele elemento vulgar, medíocre, melhor ainda, aqueles que não correspondem ao estereótipo dos
vencedores nas sociedades do mundo ocidental, é que traz toda a força e contundência de seu
cinema. É desse sujeito, ora limitado, fraco ou decadente, ora forte, talentoso, sensível e
romântico, quase sempre isolado, que Scorsese tira o sentido de sua obra. Ele traça um estudo
sobre as sociedades modernas com seus costumes, práticas e códigos de conduta, onde o
isolamento daqueles que não correspondem ao perfil delineado por uma determinada forma
ideologizada de conduta os coloca à margem, como verdadeiros párias, e quase que os obriga a
agirem como sociopatas em alguns casos.
A ponta em Taxi Driver
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Em
Taxi Driver, Travis Bickle, o motorista de
táxi que dirige a noite por não conseguir dormir, deve seu descontrole a um enorme sentimento
de exclusão e de impotência frente ao seu meio social. Ele não se em quadra em nenhum dos dois
lados mais característicos da sociedade. Se ele não consegue se adequar e muito menos se sentir
à vontade na parte que determina seus rumos, ele também não possui qualquer afinidade com a
parte que representa os "dejetos" desses rumos, ou seja, aqueles excluídos que, para tentar
usufruir o pouco que podem almejar, buscam desesperadamente algum meio por entre as brechas e
buracos do "sistema", para usar um termo bastante batido. Esse submundo distorcido por onde
transitam seres que se digladiam em meios tortuosos em busca daquilo que está muito acima das
suas reais possibilidades também não é o seu. Ao final, esse completo isolamento vai fazê-lo
tentar eliminar, numa explosão de violência, esses dois mundos.
Pode-se observar essas características em quase todos os seus filmes. Mesmo naqueles com
temáticas absolutamente distintas como
Touro Indomável e
Depois de Horas, a
figura do homem vulgar, aquele elemento "médio" que não possui determinadas qualidades que são
tão caras às figuras tidas como vencedoras nas atuais comunidades, hoje cada vez mais
globalizadas, se faz permanentemente presente. Às vezes eles aparecem um pouco mais adequados
as práticas sociais como em
A Época da Inocência, às vezes quase que completamente
desajustados como em
Caminhos Perigosos, em outras ocasiões ainda são extremamente
competentes, qualificados e talentosos naquilo que fazem como em
New York, New York e
Touro Indomável, porém sempre isolados em seus próprios mundos, nunca completamente
assimilados pela sociedade.
Trata-se de uma abordagem basicamente psico-social. Pode-se
observar ainda alguns elementos políticos e/ou econômicos, mas o seu cinema não é o de denúncia
política e social de um Costa Gravas por exemplo, e nem o de delação das desigualdades
econômicas provocadas pelas relações de poder. A boa e velha luta de classes no sentido
clássico marxista (muito bem explorada, por exemplo, com sutileza e humor, pelo
brasileiro Ugo Giorgetti) não é o seu foco principal. Ele está mais interessado nas reações do
indivíduo que, por um motivo ou outro, não consegue achar o seu lugar na sociedade, porque suas
práticas e costumes não se coadunam, seu perfil não se refere ao estereótipo dos "vencedores"
mesmo quando possui dons naturais para se tornar um deles. Como ele próprio afirmou numa
entrevista de divulgação para o filme
Gangues de Nova York, a América também foi
construída por ladrões, corruptos e assassinos. Homens comuns que se questionam o tempo todo,
que erram, e não somente heróis. As sociedades se constroem a cada dia, por pessoas medíocres
(no sentido de medianos, ou melhor, que foge ao conceito dos "grandes vencedores", sempre
firmes em suas atitudes práticas e morais) nas ruas.
Kundun
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Para expor suas idéias na tela da forma mais intensa e profunda possível, e para que cada filme
seu pudesse causar o maior impacto possível na platéia, Scorsese nunca abriu mão do dinheiro
dos grandes estúdios. A briga entre a sua visão do que o filme deva ser e a dos produtores é
outro aspecto que também esteve sempre presente em sua trajetória. Procurando sempre ter à sua
disposição os melhores recursos possíveis, os mais competentes profissionais em cada área para
os seus filmes e sempre buscando ter amplo domínio autoral de sua obra (e por isso não se
limitando a ser um mero burocrata do cinema) teve que por diversas vezes driblar a gana
controladora dos produtores para poder realizar seus filmes. Num documentário seu sobre a
história do cinema americano, defende a tese de que foi justamente desse confronto entre o
olhar puramente artístico do diretor e a visão mercantil do produtor que o cinema dos Estados
Unidos se formou e se consolidou, criando uma marca. Mas, a despeito de alguns revezes, sempre
levou em frente a sua concepção do filme que queria fazer. Apesar de algumas concessões,
conseguiu sempre dar um cunho autoral em sua obra. Seus filmes possuem uma assinatura.
Com Beto e Ênio
Filmografia de Martin Scorsese
1959 -
Vesuvius VI
1963 -
What's a Nice Girl Like You Doing in a Place Like This?
1964 -
It's Not Just You, Murray
1967 -
The Big Shave
1968 -
Who’s Knocking at My Door?
1970 -
Street Scenes
1972 -
Sexy e Marginal
1973 -
Caminhos Perigosos
1974 -
Alice Não Mora Mais Aqui
1976 -
Taxi Driver - Motorista de Táxi
1977 -
New York, New York
1978 -
O Último Concerto de Rock
1978 -
American Boy: A Profile of Steven Prince
1980 -
Touro Indomável
1983 -
O Rei da Comédia
1985 -
Depois de Horas
1986 -
A Cor do Dinheiro
1988 -
A Última Tentação de Cristo
1989 -
Contos de Nova York (filme em 3 episódios, Scorsese dirigiu o primeiro)
1990 -
Made in Milan
1990 -
Os Bons Companheiros
1991 -
Cabo do Medo
1993 -
A Época da Inocência
1995 -
Cassino
1997 -
Kundun
1999 -
Vivendo no Limite
2001 -
Gangues de Nova York
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