Marcos André Tavares
O que mais impressiona na literatura dramática brasileira é quando nos deparamos com aqueles
autores singulares, praticamente desconhecidos e que ficam com parte significativa da obra
teatral inédita, e que, por vezes, por mais que os estudiosos ou 'testemunhas dramatúrgicas'
lhes propaguem as qualidades literárias e teatrais, os textos não saem das gavetas e
prateleiras, ou seja lá onde se amontoem a literatura dramática do Brasil.
Assim também se dá com Roberto Gomes, nome tão simples mas de dramaturgia tão complexa e que
não pode ser dividida. Autor que se deixou viver muito pouco, se suicidou aos 40 anos, e de
obra não tão grande, porém não menos expressiva, queda-se no esquecimento, considerando ainda
que à época de vida do autor o teatro brasileiro passava uma daquelas suas fases de crise, ou
seja, tudo se fazia no palco menos teatro. Estamos entre 1897 a 1922, período ativo de
dramaturgia para Roberto Gomes.
Autor de um refinamento de cultura e expressão muito agudos, adquirido nos estudos ora no Brasil
ora na França, podemos dizer que é o autor certo para a hora errada. A consistência dos diálogos
e de temas fez de Roberto Gomes um exemplar único da sua época e de sua geração, talvez único na
dramaturgia brasileira.
A semana de arte moderna ficou manca de teatro e talvez isso tenha afetado o autor
profundamente, pois que já esquecido em vida e com sérios problema de depressão, pôs fim a sua
vida às 22:30 do dia 31 de dezembro de 1922. Não seria o único injustiçado das artes brasileiras
e, especificamente, injustiçado pela semana de arte moderna. Considerando os temas de suas peças
em comparativo com o teatro brasileiro de então e a busca pela qualidade dramatúrgica, há que se
ter um desconto pelo seu excesso romântico e poético nos textos, mas que com elencos de
primeira linha seriam não só obstáculos vencidos como seriam um laurel para as montagens.
O estilo de Roberto Gomes não é de vanguarda, dando um valor superior à palavra, mas sem
esquecer a 'vida' do palco. Trata o autor de colocar pequenos discursos com idéias e ideais nas
personagens, mas é de se ressaltar que estes pequenos discursos não afetam o andamento das
peças, nem seus ritmos. Ainda que o ritmo da dramaturgia de Roberto Gomes seja mais lento do que
a vida, digamos assim. O autor coloca uma série de convenções próprias, que vão se revelando
minuciosamente e com uma inteligência de palco incrível ao longo do próprio enredo de suas
peças.
O tema fundamental do autor é o tempo e a impossibilidade, do amor, da felicidade... ou seja,
seus temas estão muito ligados a dramaturgia francesa de sua época, da qual era um confesso
admirador, como de Henri Bataille, por exemplo, e nas letras em geral como Marcel Proust.
Há que ser entendido que Roberto Gomes era filho de um banqueiro com uma dama da sociedade
parisiense, foi educado nas primeiras letras escolares em Paris, e lá uma vez mais foi onde
começou a se impregnar de teatro, seja atuando ou tentando começar a escrever suas peças, ou
ainda tocando sua música. Roberto era um exímio pianista, havendo estudado em Paris, onde se
bebia os compositores simbolistas, modernos e de toda a sorte de pianos deprimidos, o que
certamente teve profunda influência em sua dramaturgia.
O autor, embora nascido no Rio de Janeiro em 12 de janeiro de 1882, começa a escrever suas
peças em francês, e depois as traduz quando retorna definitivamente ao Brasil em 1897. Porém, é
de registrar que isto não prejudica a dramaturgia de Roberto Gomes, nem mesmo os temas abordados
pelo autor. Temos que fazer duas considerações nesse assunto, para que não seja mal interpretado
nosso autor em tela. Roberto Gomes escreveu em francês quando residia na França, peças estas que
tinham um elevamento de tema, sem colocações sociais precisas (até porque ainda não existia
propriamente o teatro social, este se conforma como uma existência em si a partir de 1920 com
Erwin Piscator, na Alemanha), restringindo as dores dos personagens ao ambiente burguês, que
predominava em Paris, e no Rio de Janeiro também, e em qualquer lugar de cultura ocidental onde
houvesse burguesia europeizada. Assim as peças poderiam até estar em servo-croata e não
perderiam sua validade intrínseca. A outra consideração, é que o Rio de Janeiro da época do
autor era de tal forma parisiense que em nada se perdem os textos. O Rio era uma cidade então
capital do país, mas que propriamente não fazia parte deste país. Havia um banqueiro que mandava
suas camisas serem lavadas na França por causa das águas do Rio Sena, para se ver a que ponto
chegava a burguesia carioca de então, na tentativa de reproduzir a vida de Paris!
Os textos de Roberto Gomes que seguem a sua moradia no Brasil, já com ambientações em salões de
Petrópolis e outros elitismos, fixam exatamente este exagero de tentativa da reprodução de Paris
nos trópicos, sem entretanto serem críticos em relação a isso. Eles ambientam os salões da
burguesia carioca e fluminense com busca de identificação, inclusive, do próprio autor que
freqüentava estes salões.
Roberto Gomes escreve em prosa, mas com ritmo de poesia. Seus textos contam sempre com
acabamentos literários perfeitos, e ainda teatralmente bem compostos. Única no gênero da
literatura teatral brasileira, a obra de Roberto Gomes ainda está por ser verdadeiramente
descoberta pelos homens de palco do Brasil.
Vale conferir a publicação de suas obras completas pela FUNARTE/IBAC, ou seja lá que nome tiver
atualmente o órgão cultural do governo; atentos, sobretudo, às peças A Casa Fechada e Ao cair
da tarde.
Outros textos do autor
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Volta a Teatro