Capturing the Friedmans,
EUA, 2003.
Documentário com ARNOLD FRIEDMAN, ELAINE FRIEDMAN,
DAVID FRIEDMAN, JESSE FRIEDMAN, SETH FRIEDMAN, HOWARD FRIEDMAN, JOHN McDERMOTT, FRANCES GALASSO,
JOSEPH ONORATO, ABBEY BOKLAN, RON GEORGALIS, SCOTT BANKS, DEBBIE NATHAN.
Música: ANDREA MORRICONE.
Produtor associado: JENNIFER ROGEN.
Fotografia: ADOLFO DORING.
Montagem: RICHARD HANKIN.
Co-produtor: RICHARD HANKIN.
Produção: ANDREW JARECKI, MARC SMERLING.
Direção: ANDREW JARECKI.
Estréia no RJ:
Sinopse e comentário.
Documentário que narra o esfarelamento de uma família no condado de
Great Neck, Wisconsin, após o patriarca Arnold Friedman, músico e professor de informática, ser
denunciado por crime de pedofilia, tendo como cúmplice o próprio filho Jesse, então com 18 anos
(o caso deu-se na década de 1970). Além de mostrar a investigação da polícia e o desenrolar do
processo na justiça, bem como o drama da descoberta pelos familiares, o filme ainda revelará
vícios que a aparente estabilidade familiar mantém encobertos, tanto entre os Friedmans quanto
na própria sociedade local.
Enquanto não descobrem como funciona exatamente a mente humana, e o que
leva o indivíduo a reproduzir atos que denunciam uma distorcida e danificada visão de convívio
social, resta-nos o espanto e a revolta quando nos deparamos com situações como a apresentada
neste filme. A histeria que tomou conta de Great Neck, comunidade norte-americana pequena,
isolada e rica, não difere das perseguições religiosas durante a Inquisição, e a forma como as
diferentes classes (cidadãos, polícia, juízes) se uniram quase que involuntariamente para criar
um fato, e com ele punir o elemento destoante, levam a perguntar que necessidade é essa que o
ser humano tem de inventar monstros.
Flagrado por acaso ao receber pelo correio material envolvendo
pornografia infantil, o até então respeitado Arnold Friedman arrastou sua própria família para
um inferno que culminaria na perda de toda a juventude de seu filho caçula. A denúncia que pôs a
descoberto as preferências sexuais do chefe da casa seria repelida com rigor pelos filhos,
hostis à própria senhora Friedman e suas tímidas tentativas de repreender o marido. Do
mal-estar interno o caso evoluiria à paranóia generalizada, e logo eles teriam novamente a
polícia à sua porta, agora com denúncias de estupro. Segundo os pais dos alunos do curso de
informática que Arnold ministrava em sua casa, as crianças (na faixa de 8 a 11 anos de idade)
teriam sido molestadas pelo professor e por seu filho.
A notícia foi parar na imprensa, e a essa altura os Friedmans, por mais
que negassem qualquer crime e lutassem para permanecer unidos, sabiam que suas vidas jamais
seriam as mesmas. É a partir daí que, com o decorrer do processo e das investigações, o
espectador de Na Captura dos Friedmans percebe que debaixo do tapete ainda há muito o que
varrer. No meio dos depoimentos de detetives, advogados, juízes, psicólogos, pais, supostas
vítimas e dos próprios acusados, vem à tona toda uma corrente de mentiras, induções e
manipulações, mostrando como a sociedade, sob o pretexto de extirpar um mal, é capaz de criar
outro.
Narrado quase como um drama de tribunal, Na Captura dos Friedmans
vai fornecendo ao público apenas as informações suficientes para que este se dê conta de que não
está só diante do registro de um caso de desintegração familiar. O filme mostra quão frágil é a
estabilidade social, e como por trás da aparente normalidade se esconde gente muito estranha. É
curioso também ao revelar uma obsessão do americano por câmeras, bem antes dos "reality shows"
virarem uma praga. Arnold Friedman parece ter sua vida inteira acompanhada por filmadoras, suas
imagens (e dos parentes próximos) foram gravadas pelo pai, por ele mesmo e agora pelos filhos,
que continuam a tradição. David, o mais velho que trabalha como animador de festas infantis,
chega a manter um "diário em vídeo", e é ele que acompanha todo o processo iniciado com a
denúncia, das brigas com a mão ao último dia do irmão em liberdade. O material obtido é, assim,
de grande valia para o diretor Andrew Jarecki, que, apesar de alguns tropeços melodramáticos e
da desnecessária duração do filme, realizou obra instigante e provocadora, que tanto causa
espanto e revolta quanto comove, como na cena do reencontro entre a mãe e o filho recém saído da
prisão.
(M.L.)
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