Brasil / França, 2003.
Com JOSÉ DUMONT, NELSON XAVIER, MATHEUS NACHTERGAELE,
RUI REZENDE, GERO CAMILO, LUCI PEREIRA, SILVIA LEBLON, NELSON DANTAS, ORLANDO VIEIRA,
ROGER AVANZI, ALESSANDRO AZEVEDO, MÁRIO CÉSAR CAMARGO, BENÊ SILVA, MAURÍCIO TIZUMBA,
HENRIQUE LISBOA, MARIA DALVA LADEIA, ALTAIR LIMA.
Música: DJ DOLORES.
Fotografia: HUGO KOVENSKY.
Direção de arte: CARLA CAFFÉ.
Montagem: DANIEL REZENDE.
Produção executiva: CAIO GULLANE, FABIANO GULLANE,
VÂNIA CATANI.
Produção: VÂNIA CATANI.
Roteiro: LUIZ ALBERTO DE ABREU, ELIANE CAFFÉ.
Direção: ELIANE CAFFÉ.
Estréia no RJ: 23.01.2004.
Sinopse e comentário.
Drama. Interior da Bahia. Ao receber do governo a notícia da
construção de uma usina hidrelétrica nas proximidades, e da necessidade de retirar a população
da área a ser inundada, a pequena cidade de Vale do Javé decide se unir para evitar a tragédia.
Liderados por Zaqueu, os moradores vão atrás de Antônio Biá, o único alfabetizado da região,
para que este vá de casa em casa registrando num livro a história da cidade segundo a lembrança
de seus moradores, já que só a comprovação de tratar-se de um patrimônio histórico impediria
Javé de ir literalmente por água abaixo. Assim, munido de lápis e papel, Biá irá ouvir dos
habitantes histórias e casos que remontam à fundação da cidade por Indalécio, após uma derrota
em combate frente à Coroa portuguesa. As diversas e conflitantes versões dos fatos, e a euforia
dos habitantes em acompanhar o trabalho "científico" de Biá, não lhe dando sossego seja dia ou
noite, acabarão pondo em risco a realização do livro.
A história como relato da ação do homem no tempo depende do registro. Por
mais que a memória extrapole os limites de uma ou mais gerações, mantendo o conhecimento através
de sua transmissão oral pelos mais velhos, cada novo item acrescido à narrativa implica em
distanciamento entre o evento original e o narrado, e aquilo que foi pode deixar de ter sido ao
se tornar outra coisa. Cabe, assim, ao historiador garimpar todas as versões, compará-las,
inseri-las no contexto histórico em que podem ter ocorrido, e selecionar os elementos que
formarão aquilo que chegará mais perto de uma versão definitiva. Embora não seja historiador,
Antônio Biá acaba descobrindo isso ao perceber que existem várias "histórias" de Javé (inclusive
uma contada por descendentes de escravos) e que, dependendo do narrador, personagens podem ou
não existir, receber um ou mais nomes, e ainda ter maior ou menor importância na formação da
cidade. Será de Biá a tarefa, por mais caótica que seja a sua metodologia, de resgatar e
preservar essa história, salvando Javé de uma literal extinção.
Narradores de Javé é um grande filme não só porque reconhece e
valoriza a memória e a tradição oral, mas porque consegue transmitir esse valor de maneira
interessante a qualquer tipo de público. O roteiro de Luiz Alberto de Abreu e da diretora Eliane
Caffé (que realizou o pretensioso Kenoma, também com José Dumont) tem a felicidade de
partir de uma premissa acadêmica e, com olhar descompromissado, descer do pedestal da academia,
resultando em obra que estimula a reflexão provocando o riso. Naquilo que chama de busca por um
"outro" Brasil, a diretora soube aproveitar o rico material humano encontrado no subdistrito de
Gameleira da Lapa, no sertão baiano, misturá-lo de maneira surpreendentemente harmoniosa aos
profissionais do elenco e transformá-lo em personagem de emocionante história sobre a
importância de se contar histórias.
O filme inicia com o eficiente recurso (que aqui cai como uma luva) de um
grupo de pessoas contando uma história. Um desconhecido que perdeu a condução se acomoda num
botequim no cais enquanto espera o próximo barco, a sair possivelmente na manhã seguinte. Para
passar o tempo, junta-se a outros que ali estão para ouvir a história dos habitantes de Javé,
contada por Zaqueu, um de seus moradores. Uma história dentro da outra. A partir daí a
fotografia até então excessivamente granulada torna-se limpa, indicando que aquilo que se conta
é mais bonito do que realmente é. E que se tornará mais bonito ainda quando o primeiro morador
der início à história do povoado, e a tela for invadida pelas imagens do fundador Indalécio
montado num cavalo branco guiando seu povo para a nova terra. Tem-se então uma terceira
história, cada uma representando um momento da trajetória de um povo. Da fundação à recordação,
o espectador acompanha a construção dos mitos e sua permanência no imaginário de cada habitante,
o detalhe que aparece numa narrativa mas não se vê na outra, mostrando as diferentes visões que
cada narrador tem do mesmo fato. É fascinante o momento em que o grupo confronta as versões da
morte de Indalécio e da importância de Maria Dina, que teria sido sua companheira. Nessa hora o
espectador junta-se ao protagonista Biá, que entre curioso e debochado exerce o papel do
moderador a decidir o que existe de verídico, de "científico", em cada versão, e do quanto
faz-se necessário ouvir novas fontes.
Como Biá, José Dumont realiza sozinho um espetáculo, criando um
personagem que já pode entrar pela porta da frente em qualquer antologia do cinema brasileiro.
Dotado de um arsenal de expressões, ditados, trejeitos e improvisos, sua composição se
sobressai tanto que é sem exagero que a diretora a ele se refere como "co-autor" do filme. Nele
se vislumbra tanto a malandragem quanto a inocência, a malícia e uma feroz capacidade de
absorção de conhecimento, ainda que processado de maneira alucinada. Dos golpes de caratê ao
"Pokemon de Jesus", Biá é espécie de líder verborrágico e oportunista que, quando se rende à
emoção (durante a embriaguez, ao ver a própria casa tomada pelas águas, e no final), termina
carregando o espectador.
Mas Dumont não brilha sozinho, e o formidável elenco traz surpresas como
Orlando Vieira e Roger Avanzi, os dois senhores que interpretam o "Gêmeo" e o "Outro" e não se
entendem quanto às suas origens e o direito à herança dos pais. Ambos septuagenários que, como
o protagonista de Narradores de Javé, não têm o reconhecimento que merecem. Vieira é
sergipano com formação teatral que traz no currículo uma penca de filmes e programas de TV; já
o paulista Avanzi nasceu no circo, onde fez de tudo: foi músico, trapezista, palhaço, ator. No
teatro contracenou recentemente com Tônia Carrero em O Jardim das Cerejeiras, de Anton
Tcheckov. Quando contracenam, Vieira e Avanzi, apesar das carreiras distintas, atuam como se já
viessem trabalhando juntos desde a adolescência, de tão entrosados. Vê-los em cena é confirmar
que interpretação vai muito além de caras, bocas e um texto decorado, e que crendices como dom,
alma, luminosidade própria podem ter algum fundamento.
Há no filme quebras de ritmo, que a diretora provavelmente justificaria
como resultado da opção por mostrar todas as diferentes faces da vida interiorana encontradas
em suas viagens. Há o deboche, a solidariedade, a paixão, a miséria. Há os vícios sociais como
a intriga, a fofoca, a disputa, a vingança. O que não há é a mesma intimidade da câmera com
todos esses elementos. A narrativa semi-documental adotada não extrai dos momentos dramáticos
(principalmente nas cenas com o personagem Daniel, traumatizado pela morte do pai) o mesmo
realismo e fluência, e nessas horas a ação dos "narradores" se torna artificial. Por sorte essas
horas são minoria no decorrer do filme, e o que prevalece é o prazer de estar diante de algo
divertido e enriquecedor.
(M.L.)
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