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No Tempo dos Faroestes
Nélio Silva
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| Herbert J. Yates |
Na época de ouro de Hollywood, quando pontificavam grandes estúdios como Paramount, Metro,
Warner, havia também os estúdios menores, os primos pobres da indústria cinematográfica
norte-americana, como a Republic Pictures, muito pouco badalada por serem suas produções
supermodestas, mas que nem por isso passavam despercebidas. Seu presidente, Herbert J. Yates,
espertamente (ou sovinamente), era especialista em produzir filmes de orçamento baratíssimo, mas
de consumo certo em mercados de cidades de países subdesenvolvidos (se pensou no Brasil,
acertou) e de subúrbios de cidades maiores. Esses filmes passavam, geralmente, em programas
duplos e até triplos, puxando outros filmes mais importantes, faturando por tabela. Com
orçamentos mais pobres do que os da Columbia, da RKO e da Universal, que produziam seus filmes,
na maioria, de classe B, a Republic fazia suas fitas de classe C, ou mais para baixo um
pouquinho. Mas, não se pode dizer que os filmes da Republic eram ruins. Apenas baratos,
pobrezinhos, mas tinham lá seus encantos. Como aqueles seriados inesquecíveis, que hoje são
considerados clássicos, e muitos faroestes com abundância de tiros, socos e canções. Muitos
desses seriados e faroestes fizeram a alegria de gente hoje mais crescidinha.
Quase todos os filmes da Republic eram de muita ação, com muito paiol explodindo, herói
pulando a cavalo numa ribanceira, carros se incendiando ou despencando no abismo. Eram cenas
muito difíceis, que requeriam muita destreza e muito sacrifício. Mas, o esperto (ou sovina)
Yates não se apertava: ele rodava uma dessas cenas para um determinado filme e a aproveitava em
vários outros. Outro de seus recursos era comprar de outros estúdios cenas perigosas como
vulcões em erupção, perseguições de automóveis ou aviões se chocando no ar e aproveitá-las em
seus filmes. Por isso, a gente às vezes tinha a sensação de já ter visto antes aquela
determinada cena.
Os seriados da Republic eram, geralmente, de 12 a 15 episódios, com muita ação e pouca
fala. Por isso mesmo, os preferidos da garotada. Na verdade, eles não eram um primor, mas com
tão pouco orçamento utilizado já seria pedir demais. Em compensação, o que tinham de emoção,
sustos e suspense não estava no gibi. Os baixinhos ficavam de cabelos em pé, com o mocinho na
iminência de morrer ao fim de cada episódio, para se salvar espetacularmente no episódio
seguinte, para delírio da meninada. E, por mais que brigassem e corressem risco de morte, os
heróis jamais deixavam cair o chapéu. Aliás, como curiosidade, o chapéu de Indiana Jones teria
sido inspirado no de Rod Cameron, no seriado "A Adaga de Salomão", de 1943. Por sinal, os filmes
de Indiana Jones têm muito daqueles saudosos seriados da Republic. O mesmo clima. Só para matar
as saudades dos já grandinhos, aí vão alguns desses espetaculares seriados: "Perigos de Nyoka",
"O Chicote do Zorro", "A Mulher-Tigre", "Dick Tracy Contra o Império do Crime", "Os Tambores de
Fu Manchu", "O Maravilhoso Mascarado", "Capitão Marvel", "Marte Invade a Terra" e "Comando
Cody". Em pouco menos de vinte anos, entre 1935 e 1955, nada menos de 66 seriados. Todos
empolgantes.
Tom Mix, Buck Jones, Durango Kid
O primeiro faroeste, ou filme de mocinho, como dizia a garotada, data de 1903, com "O
Grande Assalto de Trem" (The Great Train Robbery), de Edwin S. Potter. Entre os participantes
estava Gilbert Anderson, o Bronco Billy, um ator obscuro que fazia cinco papéis diferentes. Só
que foi proibido de montar a cavalo quando o diretor o flagrou tentando montar do lado errado.
Embora tenha começado com o pé trocado, Bronco Billy pode ser considerado o primeiro caubói do
cinema. Depois vieram outros filmes mais elaborados e com melhores heróis, como William S. Hart,
Tom Mix, Will Rogers e Tex Ritter, que abriram caminho para outros mais célebres. Os grandes
caubóis da Republic eram os cantantes Roy Rogers e Gene Autry, tão famosos quanto seus
inteligentes cavalos, Trigger e Campeão, respectivamente. Mas, o preferido da garotada era mesmo
Allan Rocky Lane, mais machão, não perdia tempo com cantorias e não usava aquelas camisas
coloridas e com franjinhas (sem insinuações maldosas, por favor!). Havia, ainda, outros heróis,
como Buck Jones, Bob Steele, Ken Maynard, Bill Elliot, Charles Starrett (Durango Kid), William
Boyd (Hopalong Cassidy), Tom Tyler e Rex Allen, também com imenso fã-clube. Interessante é que
todo mocinho tinha um ajudante, sempre com pinta de retardado mental, mas que quase sempre
tirava o herói de uma enrascada. O mais famoso desses coadjuvantes foi, sem dúvida, Gabby Hayes.
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| John Wayne (1939) |
Mas a Republic Pictures (que fechou seus estúdios em 1953, passando a produzir apenas
para a TV ou atuando como distribuidora) pode se gabar de ter lançado o maior de todos os
caubóis do cinema: ele mesmo, o machão John Wayne. O Duke (para os íntimos), andou fazendo uns
filmecos na Republic até 1939, quando John Ford o convidou para fazer "No Tempo das
Diligências", na United Artists. De volta à Republic, já importante, fez outros faroestezinhos
sem importância, para cumprir contrato, e foi cantar (ou melhor, brigar) em outra freguesia.
John Wayne, no entanto, chegou a fazer um filme importante na Republic: "Os Tigres Voadores"
(1942), dirigido por David Miller. Um drama de aviação onde o herói mandava para o espaço,
literalmente, aviões japoneses. Isso foi antes do ataque dos nipônicos à base militar
norte-americana em Pearl Harbor, quando eles mostraram que não eram tão bobos assim.
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