Odir Ramos da Costa
Os dois inseparáveis amigos combinaram pescaria na Pedra de Guaratiba. Iriam no último bonde,
passariam a noite tarrafeando da Ponta Grossa à Praia da Capela. Tudo combinado, um iria para a
casa do outro - aliás o um não saía da casa do outro -, levariam farnel que a mulher do casado
prepararia.
O outro amigo, o que visitava com freqüência, era solteiro.
Chegaram à beira da praia, mudaram os planos.
- Vamos alugar uma canoa? Lá no meio está pulando muita tainha - sugeriu um deles.
Concordaram. Concordavam sempre, eram unha e carne, amicíssimos, do peito.
Estavam no meio da baía, a noite escura como breu, bateu o sudoeste. O mar agitou-se,
tentaram remar para a margem, o vento não deixava, a chuva começou a desabar, grossa, perderam
de vista a praia, desorientaram-se. Veio uma onda maior, aconteceu a desgraça: a canoa virou de
borco, lançando-os na água. A morte era quase inevitável. Com muito esforço o que era casado
agarrou-se ao casco da embarcação, procurou o amigo - encontrou-o já perdendo as forças,
engolindo água. Ficaram os dois agarrados no casco, mas sabiam que apenas adiavam a hora da
morte, pois não se agüentariam muito tempo.
- Vamos morrer, disse o solteiro.
- Vamos, concordou o casado.
- Você se esforçou pra me salvar, foi amigo até o último instante, tenho que lhe dizer uma
coisa. Quero morrer em paz.
- Diga.
- Você me perdoa?
- Perdoar de quê? Diga. Vou morrer mesmo, que me importa? Perdôo tudo.
- Eu e sua mulher estamos transando. Faz tempo.
Fez-se pesadíssimo silêncio. Até o mar deu uma trégua em respeito ao sofrimento. Ouviu-se um
ronco, outro ronco. Um baque, outro baque. A lancha da Capitania dos Portos acabara de encostar
e jogava duas bóias salva-vidas para os dois ex-amigos.
Ilustração: Rice Araújo
ricearaujo@bol.com.br
http://sites.uol.com.br/ricearaujo/
Saiba mais sobre o autor
Volta a O Cisco de Olho