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A Paixão de Cristo


The Passion of the Christ,
EUA, 2004.


Com JIM CAVIEZEL, MONICA BELLUCCI, MAIA MORGENSTERN, ROSALINDA CELENTANO, MATTIA SBRAGIA, HRISTO NAUMOV SHOPOV, CLAUDIA GERINI, FRANCESCO DE VITO, ABEL JAFRY, LUCA LIONELLO, HRISTO JIVKOV, JARRETH MERZ, FABIO SARTOR, GIACINTO FERRO, LUCA DE DOMINICIS, DARIO D’AMBROSI, ANDREA COPPOLA, SERGIO RUBINI, TONI BERTORELLI, ROBERTO BESTAZZONI, FRANCESCO CABRAS.

Música: JOHN DEBNEY. Fotografia: CALEB DESCHANEL. Montagem: JOHN WRIGHT. Desenho de produção: FRANCESCO FRIGERI. Produção executiva: ENZO SISTI. Produção: BRUCE DAVEY, MEL GIBSON, STEPHEN McEVEETY. Roteiro: BENEDICT FITZGERALD e MEL GIBSON. Direção: MEL GIBSON.

Estréia no RJ: 19.03.2004.






Sinopse e comentário.



    Drama bíblico narrando as últimas doze horas de vida de Jesus Cristo. Após ser traído por Judas, Cristo é entregue ao sumo-sacerdote fariseu Caifás sob a acusação de blasfêmia, já que se proclama o filho de Deus e rei dos judeus. Julgado e condenado, o réu sofre diversas agressões físicas até ser levado a Pôncio Pilatos, governador da Judéia nomeado pelo imperador romano. Homem cansado, que não nutre qualquer simpatia por aqueles que governa, e buscando apenas impedir que uma rebelião dos fariseus chegue aos ouvidos do imperador, Pilatos envia Cristo para ser julgado pelo Rei Herodes, com quem divide o comando da região. Mas Herodes, para quem o acusado não passa de um louco, devolve-o a Pilatos. E este, diante da sanguinária insistência da multidão influenciada por Caifás, que exige a crucificação, lava suas mãos. Cristo passa então a ser torturado das mais violentas formas, até o momento em que é arrastado para a cruz, sob os olhos da multidão dividida entre a euforia e o desespero; de Maria, sua mãe; e, principalmente, do Diabo, que a tudo observa em silêncio.


    Antes que se critique A Paixão de Cristo pela extrema (às vezes, desnecessária) violência, deve-se criticar o próprio cristianismo, que vende até hoje a idéia de que a redenção se dá através do sofrimento. Ator de filmes de ação que pela segunda vez ocupa os cargos de produtor e diretor (a primeira foi com Coração Valente, em 1995), Mel Gibson seguiu à risca a base da doutrina da qual é adepto fervoroso, ocupando 80% da tela com cenas das mais cruéis já mostradas pelo cinema recente. O resultado não deixa de ser uma visão cinematograficamente original do calvário do filho de Deus na Terra, que certamente influenciará versões futuras e fará com que vejamos com outros olhos as versões passadas. Num mundo que dá cada vez menos valor ao pensamento, A Paixão de Cristo é um filme de ação constante, imagens densas fotografadas primorosamente, com um protagonista que, mais do que santo, é herói. O Cristo de Mel Gibson não só faz cara feia para o diabo que vem tentá-lo, mas esmaga com um pisão a serpente que o outro lhe envia. Leva a platéia de jovens no cinema ao mesmo delírio experimentado durante um gol de seu time favorito, manifesto em gritos e aplausos. No dia em que foi ver A Paixão de Cristo, antes de começar a sessão, esse missivista ouviu de um rapaz de uns vinte anos sentado à sua frente: "Estou vendo pela terceira vez. É o melhor. Já superou O Senhor dos Anéis".


    O filme é mesmo um fenômeno de popularidade, do qual a imprensa vem se alimentando em doses fartas. À polêmica gerada pela acusação de que transmite mensagem anti-semita (o que mais parece jogada publicitária, de tão estapafúrdia), juntam-se as matérias de pessoas que morreram ou passaram mal durante a exibição, não resistindo ao impacto das cenas mais fortes, que não são poucas. A direção esmera-se em mostrar cada hematoma, cada rasgão na pele do Cristo banhado em sangue, inclusive no momento em que sua carne é arrancada deixando a costela aparente. São cenas que o espectador normal tem dificuldade em suportar, e nessas horas as lágrimas podem vir abaixo, junto com a esperança de que o festival de tortura e sadismo termine. Porque ele continua, e vai até o final, intercalado por breves momentos em "flash back" para mostrar um pouco dos ensinamentos do messias. Nessas horas é possível perceber que não é interesse de Mel Gibson perder tempo com o pensamento de Jesus. Seus diálogos (o filme todo é falado em hebraico, latim e aramaico) são rápidos, as cenas são frias e sem o mesmo zelo das demais. Como Cristo, Jim Caviezel segue igual orientação: embora nos angustie com suas expressões de dor e suas mãos que não param de tremer, é incapaz de exibir qualquer divindade, ou liderança, ou mesmo amor, nos encontros com seus apóstolos. Houve quem comparasse o Cristo de Gibson / Caviezel ao Rocky Balboa de Sylvester Stallone, tamanha mão pesada e falta de sutileza. Exageros à parte (poder-se-ia comparar também ao japonês John Woo, pelo uso excessivo da câmera lenta, demonstração clara de falta de criatividade para produzir dramaticidade), a crítica até procede.


    Do elenco, Maia Morgenstern demonstra sensibilidade como Maria, embora o roteiro não lhe dê muito espaço além da bela cena em dois tempos, onde a mãe parte para acudir o filho caído da mesma maneira como fazia quando este ainda era uma criança. Como Pilatos, Hristo Naumov Shopov transmite descrença e cansaço, e, por mais que historiadores tenham criticado a forma positiva como o personagem é apresentado no filme, é impecável a sua reação aos gritos do povo exigindo crucificação. Com apenas uma mudança de expressão e sem nada dizer, Shopov sugere não só surpresa, mas decepção, piedade, horror. Mas é Rosalinda Celentano que, com um olhar gélido e uma presença sombria, rouba a cena como o Diabo. O filme é, a propósito, muito feliz nas intervenções do sobrenatural: não apenas as aparições do capeta, mas os tormentos vividos pelo Judas arrependido dão interessantes sugestões de descida aos infernos. Criaturas monstruosas vistas de relance, crianças deformadas, vermes, chega a ser uma pena que o mesmo talento narrativo não tenha sido utilizado para ilustrar o Bem. A Paixão de Cristo, com seu início cheio de neblina, sua lua cheia provocando uma noite de sombras na floresta onde Jesus se esconde, promete ser um filme bem mais rico... até a hora em pegam o nazareno e o fazem de saco de pancada. (M.L.)





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