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Conhecendo o TBC - Teatro Brasileiro de Comédia
Paula Valéria Andrade
Em 1948, São Paulo vivia o auge do processo de industrialização. Franco Zampari - industrial
que transitava nas altas rodas dos negócios e das tradicionais famílias paulistanas - criou,
junto a Francisco Matarazzo Sobrinho e Paulo Álvaro de Assunção, a Sociedade Brasileira de
Comédia. Assim nascia o TBC, inaugurado no dia 11 de Outubro, contando com uma única
apresentação do monólogo - em francês - A Voz Humana, de Jean Cocteau, a cargo de
Henriette Morineau, e a comédia A Mulher do Próximo, de Abílio Pereira de Almeida. Neste
mesmo ano, ainda foram realizados os primeiros exames públicos da Escola de Arte Dramática,
fundada por Alfredo Mesquita. Zampari transformou o prédio da Rua Major Diogo n° 315 em um bem
equipado teatro de 365 lugares, onde grupos amadores da época se apresentavam em esquema de
rodízio.
Num primeiro momento, nomes como o de Cacilda Becker e de Paulo Autran participavam destes
grupos amadores e experimentais. O teatro herdou do grupo amador Os Comediantes, da década de
40, as diretrizes que o fizeram manter um elenco fixo com mais de 30 atores, sendo inevitável
dominar o cenário da produção teatral da década de 50.
Consagradas peças importadas da Europa e dos EUA trouxeram à classe média ao teatro, pelos
nomes dos atraentes diretores estrangeiros, que pela primeira vez pisavam no Brasil: Adolfo
Celi, Luciano Salce, Flamínio Bollini Cerri, Ruggero Jacobbi. Este processo influenciou
brasileiros como Antunes Filho, José Renato, Flávio Rangel, hoje diretores teatrais
consagrados.
Em 1950, vieram os espetáculos Nick Bar, de Saroyan; Arsênico e Alfazema, de
Kesselring; Luz de Gás, de Patrick Hamilton; O Mentiroso, de Goldoni (marcando a
estréia de Sérgio Cardoso); Entre Quatro Paredes, de Sartre; Os Filhos de Eduardo,
de Sauvajon; Anjo de Pedra, de Tenesse Williaams; e Pega Fogo, duas criações de
Cacilda Becker. Tudo encenado pelos dois diretores fixos da companhia, Adolfo Celi e Ruggero
Jacobbi. O elenco reunia os atores Cacilda Becker, Sérgio Cardoso, Maurício Barroso, Célia Biar,
Ruy Affonso, Waldemar Wey, Renato Consorte, Nydia Lícia, Fredi Kleemann, Elizabeth Henreid.
Zampari, depois de muito insistir, conseguiu convencer o ator e diretor polonês Zbigniew
Ziembinski a aceitar o seu convite e juntar-se à companhia. A partir daí, o horário alternativo
das segundas-feiras passou a ser ocupado por ele (sua estréia marcada com Falou Freud). A
seguir vieram os trabalhos O Homem da Flor na Boca, de Pirandello, Lembranças de
Bertha, de Tennessee Williams e O Banquete, de Lúcia Benedetti.
Daí por diante, o destino artístico de Ziembinski confunde-se com o do TBC.
Em 1956, Gianni Ratto, Alberto d’Aversa e Maurice Vaneau passam a integrar a equipe fixa
da casa e o TBC transforma-se no orgulho cultural da cidade, sendo cada vez mais bem freqentado
pela elite burguesa. Em função de tanto sucesso, Zampari, num impeto de empolgação, leva um
elenco fixo do TBC para o Rio de Janeiro, no Teatro Ginástico.
Mas a drástica tragédia veio em seguida. Com poucos meses de intervalo, a sede paulista do
TBC e o Teatro Ginástico são parcialmente destruídos por incêndios. Os graves prejuízos
antecipam o êxodo dos principais artistas, que conseqüentemente criaram as suas próprias
companhias: Sérgio Cardoso e Bibi Ferreira, Adolfo Celi e Paulo Autran, a de Tõnia Carreiro, de
Walmor Chagas, de Cacilda Becker, a de Ziembinski e de Cleide Yáconis.
No ano de 1958, em seu décimo aniversário, o TBC já se encontrava abalado financeira e
artisticamente. Algumas comemorações foram realizadas, mas um ano depois a crise se precipitava
com o fracasso de vários espetáculos e a saída de Fernanda Montenegro, Fernando Torres, Sérgio
Brito, Ítalo Rossi e Gianni Ratto, para fundar o Teatro dos Sete.
Em 1960 foi suprimido o elenco carioca.
No mesmo ano, a tentativa de uma nova política de repertório foi adotada com a contratação
de Flávio Rangel e com a montagem de O Pagador de Promessas, de Dias Gomes. Neste
período, o Brasil vivia turbulências e com a febre do nacionalismo, o ambiente era propício
para uma nova dramaturgia nacional. Mas apesar do sucesso do espetáculo, não foi possível
reequilibrar a situação econômica já bastante debilitada.
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| Franco Zampari |
Doente e com dívidas, Zampari anunciou o fechamento do TBC. A pedido da classe teatral, o
Governo do Estado de São Paulo procurou garantir a sobrevivência da companhia, declarando-a sob
regime de intervenção, a cargo da Comissão Estadual de Teatro, que nomeou Roberto Freire como
diretor-superintendente. Depois vieram Maurício Segall, Flávio Rangel e Décio de Almeida Prado.
Alguns espetáculos foram montados, mas o regime de intervenção não deu certo e Zampari
reassumiu com menos poderes. Paralelamente, a Companhia Cinematográfica Vera Cruz - também de
sociedade de Zampari - já havia quebrado.
Nas comemorações do seu décimo-quinto aniversário, o TBC apresentou a montagem de maior
sucesso de sua bilheteria, Os Ossos do Barão, de Jorge Andrade. Mas a situação ainda
muito crítica fez com que suas portas cerrassem em 1964 como companhia produtora, permanecendo
apenas como casa de espetáculos, alugada a outras companhias e grupos.
Em sua trajetória, o TBC apresentou 144 peças - além de espetáculos de música e poesia -
totalizando 8.990 representações, assistidas por 1 milhão e 911 mil pessoas, e foi uma das
maiores escolas práticas de profissionalismo que o teatro brasileiro já teve. A partir dele,
passou-se a dar uma maior importância ao encenador e à equipe.
A rotina da valorização somada à exigência do acabamento artesanal, profissional e
impecável, ofereceu know-how e profissionalismo a dezenas de artistas e técnicos.
E como escola de atores, o TBC lançou grandes nomes do palco brasileiro ao longo destes
anos todos, sendo experiência única e inesquecível para todos que vivenciaram este processo
criativo.
Agora, a cada vez que você pisar neste teatro para assistir a mais um de seus espetaculos,
tenha em sua memoria, o que ele respresenta para a classe teatral como ícone e celebracão.
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