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Oswald de Andrade:
Tupy or not tupy, this is the question
Paula Valéria Andrade




Oswald de Andrade


   Falar de José Oswald de Sousa Andrade pode parecer redundante ou cair na mesmice ululante de ser prolixo e ate piegas. Afinal esse foi um homem de poucas, mas de tão profundas e polêmicas boas obras, que deixou muito o que falar. Vamos começar pelo básico que é sua biografia. Para os que sabem e os que não sabem, faz parte do processo conhecer sua origem para entendê-lo. Ele nasceu em São Paulo, em família rica. Foi estudante de Direito, como ocorria aos meninos abastados daquela época. Mas com um diferencial que muda a perspectiva de sua vida: ele viaja para a Europa em 1912. Em Paris entra em contato com o futurismo e com a boêmia estudantil. Retornou diversas vezes, no período de 1922 a 1929. Essas idas e vindas lhe possibilitaram entrar em contato com o futurismo ítalo-francês e conhecer, mais profundamente, as vanguardas surrealistas francesas. Mas antes disso, em 1911, fundou o semanário humorístico O Pirralho, publicando ensaios; em l920, criou outro jornal: Papel e Tinta. Efervescente - pois nesse momento Paris está no auge de suas criações afamadas -, ele volta a São Paulo e faz jornalismo literário. Grande ganho para o Brasil. Aqui neste ponto, vemos o início da atividade jornalística de Oswald de Andrade na Gazeta e no Diário Popular, cobrindo os acontecimentos culturais, particularmente a vida teatral de São Paulo do início do século.

   Foi em 1917 que defendeu a pintora Anita Malfatti de uma crítica devastadora de Monteiro Lobato. Na época famoso, porém conservador. Iniciou-se então a atração ao discurso libertário e o contato maior com outros artistas e intelectuais. Depois, também ao lado dela, do escritor Mário de Andrade e de outros intelectuais, organizou a antológica Semana de Arte Moderna de 1922. Publica ainda o livro Memórias Sentimentais de João Miramar em 1924, um ano antes de apresentar seu Manifesto Antropofágico. Com Pau-Brasil, em 1925, juntou o nacionalismo às idéias estéticas da Semana de 1922. Um manifesto de vanguarda, que mudou o rumo da arte brasileira e que muitos hoje chamam de xenofobia. Mas, com certeza, vemos que realizou-se o início da colagem e da paródia utilizadas para profanarem os mitos da cultura oficial. Opiniões à parte, eles souberam o que era ser moderno e provaram isso pra história. Oswald deixou muitas controvérsias, porem firmes evoluções na maneira de se pensar e fazer arte, na grande potência da "Latino America" .A Antropofagia radicaliza atitudes estéticas e ideológicas esboçadas pelo movimento de 22, ou melhor, realiza um balanço crítico contundente dos saldos deixados pela rebeldia literária da Semana.

   Em 1926, casou-se com a pintora Tarsila do Amaral. Grande figura feminina dessa nova forma de manifestação artística. Porém durou pouco. Dois anos depois, radicalizando o movimento nativista, seu Manifesto Antropofágico propõe que o Brasil devore a cultura estrangeira e crie uma cultura revolucionária própria. Nessa mesma época rompe com Mário de Andrade, separa-se de Tarsila do Amaral e casa-se com a escritora e militante política Patrícia Galvão, a Pagu. Outra figura forte e importantíssima no cenário nacional. De 1931 a 1945, milita no Partido Comunista Brasileiro (PCB) e durante esse período, em 1933, lança o romance Serafim Ponte Grande.

   Como dramaturgo deixa as peças O Homem e o Cavalo (1943) e A Morta e O Rei da Vela (1937). Essas últimas, ambas escritas durante o período inflamado de seu ativismo comunista. Como disse antes, poucas e boas. Absolutamente anárquicas e profundas. Sua obra foi marcada pela atitude anarquista e demolidora, pela ironia e pela paródia, por um nacionalismo em busca das origens. Como fruto de sua ênfase nos elementos nacionais, valorizou a expressão lingüística cotidiana, na procura do que seria o real falar brasileiro. Morre em 1954 em São Paulo. E fica para sempre o poeta, o romancista, o artista revolucionário e o dramaturgo paulista.


O Rei da Vela

O Rei da Vela, 1967.


   Escrito originalmente em 1933 e publicado somente em 1937, O Rei da Vela (com três atos) constitui-se no texto teatral mais importante de Oswald. A Peça demorou trinta anos para ser apresentada em São Paulo, e foi desbravada pelo Grupo Oficina, sob a direção de José Celso Martinez Correa; a encenação marcou época na história do teatro brasileiro. Seus protagonistas são bizarros. Abelardo I é um representante da burguesia ascendente da época. Seu oportunismo, aliado à crise da Bolsa de Valores de Nova Iorque, de 1929, permite-lhe todo tipo de especulação. Do café à industria de velas. Também é costume popular colocar uma vela na mão de cada defunto, assim ele "herda um tostão de cada morto nacional". Abelardo torna-se então o símbolo da exploração, à custa da pobreza e das superstições populares. Heloísa, por sua vez, representa a ruína da classe fazendeira. Seu pai, coronel latifundiário, vai à falência, num retrato em que predomina a perversão e o vício, símbolos de uma classe social em decadência. A aliança de Abelardo e Heloísa poderia, assim, representar a fusão de duas classes sociais corruptas pelo sistema capitalista. Um terceiro personagem completa o quadro social do Brasil da época: Mr. Jones, que simboliza o capital americano; sua presença revela um país endividado: "Os ingleses e americanos temem por nós. Estamos ligados ao destino deles. Devemos tudo o que temos e o que não temos" .


Criticando a burguesia

   A visão crítica da realidade do nosso país e a caricatura feroz da sociedade burguesa capitalista tornaram-se relevantes na produção literária de Oswald de Andrade dos anos 30. Não precisamos dizer que seu ativismo comunista colaborou muito para isso. Escreveu O Rei da Vela, sua peça de teatro mais famosa, nessa época e até hoje, uma obra contextualizada com alguns padrões elitizantes/caducos brasileiros. Inspirando-se na história de Abelardo e Heloísa, o par trágico mais famoso do século XII, Oswald criou a parodia de Abelardo I e Heloísa de Lesbos. Ele, um cara agiota e fabricante de velas. Ela, a filha da aristocracia decadente e sem limites, que se junta à burguesia para não perder suas privilegiadas regalias. Os tais dos privilégios. A relação dos dois não passa de um acerto, de um negócio. Nada muito romântico. A situação do país depois da crise de 1929 e da Revolução Constitucionalista levou Abelardo I a transformar-se no industrial das velas. De acordo com suas proprias palavras: "[...] as empresas elétricas fecharam com a crise... Ninguém mais pode pagar o preço da luz... A vela voltou ao mercado pela minha mão previdente". O personagem e suas velas são uma metáfora do país decadente, sem iluminação, como também é metáfora a figura do agiota que domina seus devedores com um chicote. Algo ainda atualizadíssimo se lembrarmos do recente e absurdo episódio nacional, o regime de racionalização em função do apagão. A peça também fala dos intelectuais que (na verdade) servem ao regime; da subordinação do capital aos monopólios internacionais, representados, na obra, por um americano anônimo. O texto publicado em pleno poder do Estado Novo, momento de um pesado regime de censura, teve suas amargas rejeições. Focalizando os anos 30 de modo totalmente anti-convencional, a visão desmistificadora dele e a anárquica utilização de palavras proibidas pela censura fizeram ate mesmo o famoso diretor Procópio Ferreira, muito conceituado na época, recusar-se a encená-la. O Rei da Vela só foi apresentado 34 anos mais tarde pelo irreverente diretor José Celso Martinez Correia e o grupo Oficina, tornando-se o maior sucesso deles e um dos mais importantes acontecimentos na história do teatro brasileiro. Veja a seguir um trecho da fala de Zé Celso sobre o texto montado:

"E O rei da vela (viva o mau gosto da imagem) iluminou um escuro enorme do que chamamos realidade brasileira numa síntese quase inimaginável. E ficamos bestificados quando percebemos que o teto desse edifício nos cobria também, era a nossa mesma realidade brasileira que ele ainda iluminava. Sob ele encontramos o Oswald grosso, antropófago cruel, implacável, negro, apresentando tudo a partir de um cogito muito especial: Esculhambo, logo existo." Zé Celso Martinez Corrêa, 1967




PRINCIPAIS OBRAS:

Romances

Os Condenados (1922); Memórias Sentimentais de João Miramar (1924); Estrela de Absinto (1927); Serafim Ponte Grande (1933); A Escada Vermelha (1934); Os Condenados (l941) - reunindo os livros de 1922,1927 e 1934, constituindo a Trilogia do Exílio; Marco Zero I - Revolução Melancólica (1943); Marco Zero II - Chão (1946).

Poesia

Pau-Brasil (1925); Primeiro Caderno de Poesia do Aluno Oswald de Andrade (1927); Poesias Reunidas (1945).

Teatro

O Homem e o Cavalo (1943); Teatro (com os textos A Morta e O Rei da Vela), (1937).

Ensaio

Ponta de Lança (1945?); A Arcádia e a Inconfidência (1945); A Crise da Filosofia Messiânica (1950); A Marcha das Utopias (1966).

Memórias

Um Homem sem Profissão (1954).




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