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23.08.2004
Gianfrancesco Guarnieri, um autor, ator de seus personagens
Paula Valéria Andrade
Para falar de Gianfrancesco Guarnieri, precisamos lembrar, antes de mais nada, que ele foi
um ator e dramaturgo totalmente engajado com as questões políticas e sociais de sua geração aqui
no Brasil. Gianfrancesco Sigfrido Benedetto Marinenghi de Guarnieri, nasceu em Milão, Itália, em
1934, tornou-se um dos mais importantes autores teatrais brasileiros dos anos 60, apesar de ser
italiano. Filho de imigrantes, chegou ao Brasil aos dois anos de idade e viveu no Rio de
Janeiro. Mudou-se para São Paulo em 1954 e como ator integrou, em 1955, o Teatro Paulista do
Estudante, grupo amador que mais tarde se fundiu com o Teatro de Arena, em 1956. Foi ali, nos
elencos de Escola de Maridos e Dias Felizes, em 1956, e em Ratos e Homens,
em 1957 que o ator se projetou como bom intérprete e ganhou espaço intelectual no grupo.
Suas peças transmitem genuína emoção e uma lúcida critica à realidade nacional e foram
participativas do processo de renovação do teatro brasileiro promovido pelo Teatro de Arena de
São Paulo. Até este momento,o rigor formal era a dominante tendência no teatro,uma tradicao
quase solene. O entao conhecido e que se tinha acesso, era uma dramaturgia apenas voltada para a
forma dramática, com base no modelo artistico francês.Politica tambem nao era assunto para os
palcos nacionais. Mas foi através de Glauber Rocha, Guarnieri e Augusto Boal, entre tantos
outros nomes que faziam teatro com o vigor e a visao de quem busca (e pode) transformar o (seu)
mundo, que esse círculo elitista e hermetico imposto anteriormente foi deliberadamente quebrado
e superado.A partir desses autores, foram implementadas novas perspectivas de personagens e
temas, revelados pela arte agora atenta aos sentimentos populares. Guarnieri era filho de
artistas de esquerda e sempre estava envolvido em movimentos estudantis. Esse, entre outros
motivos, o levou a pensar no teatro à discussão da realidade da política nacional.Tudo isso,
muito antes da queda e ruina do comunismo, hoje ja comprovado como um - tambem - regime
manipulativo das massas.
A partir da leitura e influencia de Brecht e seu ponto de vista sobre a relação entre
política e cultura, arte e revolução, e entre música e teatro, essa geracao de autores
dramaturgos, acreditando nesse conceito, simplesmente mudou a forma brasileira de se fazer
teatro sem os academicismos ou imperialismos de uma dramaturgia convencional. Porem, na época em
que escreveu Black-tie, Guarnieri não conhecia o teatro épico de Bertold Brecht.
Como algo novissimo na ocasiao, o dramaturgo alemão era quase desconhecido entre nós, salvo
alguns críticos mais antenados e duas apresentações de grupos amadores. Entre os anos 60 e 70,
tambem emergiram para a vida política e cultural novas gerações de estudantes e de
trabalhadores, gente jovem, gente simples, gente que reformatou o pensamento vigente e fez com
que o teatro desempenha-se um papel tão importante quanto a música e o cinema nacional. Dessa
forma, o público era convidado a compreender, interagir e ate mesmo a protagonizar a nossa
história brasileira. Esse momento criativo e libertario só foi interrompido à força de armas,
pela ditadura militar, como ja vimos no artigo anterior.
Seu trabalho em particular,introduziu nova perspectiva temática com a peça Eles não usam
black-tie (1958), levando aos palco conflitos modernos e urbanos em seus problemas
sociais originados pela era industrial, a luta pela sobrevivencia no emprego e por melhores
salários.O famoso texto, retratou o conflito de gerações entre duas pessoas de uma mesma
família do ABC paulista (zona industrial): um jovem operário e seu pai, líder sindical. Embora,
na convencional teoria de dramaturgia teatral nao se enquadre essa abordagem, pois segundo
Peter Szondi - que é categórico em afirmar - vemos que : "o drama social é de natureza épica e
por isso mesmo uma contradição em si mesma." Aqui, novamente Guarnieri quebrou também outra
regra essencial, presente nos manuais do "bom drama": ao inves de trazer personagens
"superiores" como protagonistas, ele se utilize de gente humilde, trabalhadores comuns, para
conduzir sua história. Mesmo as mais simples metaforas, foram pincadas nos mais basicos valores
de nossa cultura popular, como por exemplo, na metáfora do amor, o feijão - prato massivo na
America do Sul - teria um "coração de mãe". Aqui no caso, faz sentido na cena final de Eles
Não Usam Black-Tie, que o casal interpretado por Gianfrancesco Guarnieri e Fernanda
Montenegro celebrem seu amor - e cumplicidade - de anos de vida em comum, reconfortando-se de
suas dores e frustacoes, no ato de catar feijão juntos na cozinha.Tipica leitura/imagem do
cotidiano de um casal brasileiro de baixa ou media classe que batalha pela sobrevivencia, e como
diz o poeta Chico Buarque, "poe mais agua no feijao" pra mais um comer.
Sua segunda peça, logo a seguir, Gimba,Presidente dos Valentes (1959), trata
da historia de um bandido de morro, na epoca tema irreverente e pouco abordado. Hoje vemos em
filmes como Cidade de Deus e Carandiru as mesmas abordagens ainda sendo
consideradas inovadoras.Infelizmente podemos perceber que os problemas sociais eh que sao os
mesmos - velhos - de sempre. Ainda mais agravados. Vemos aqui,o que Delmiro Gonçalves, escreveu
como crítica na Folha da Manhã da época: "Eles não usam black-tie, ficará, por certo, na
história de nosso teatro, como a primeira peça séria escrita sobre as favelas cariocas, pondo de
lado seu aspecto exótico e pitoresco. Não é uma favela para turistas que o autor nos mostra, mas
um conglomerado humano que luta, que sofre, que vive e que tem uma consciência clara de sua
função social."
Sua terceira peça, A semente (1961), retoma a problemática do proletariado,
suas lutas políticas,seus sonhos e seu lado humano em personagens de incrivel densidade
psicológica.Enfoca a organização do Partido Comunista e a atuação de uma de suas células num
portrait do momento da greve operária. O Filho do Cão,seu proximo texto(1963), é
ambientado no nordeste na busca de fundir os mitos regionais com a ultra exposição realista da
miséria em que vive essa população; texto que sofre danos e reparos por parte da aguda crítica.
Em seguida, o autor desenvolveu em parceria com Augusto Boal o texto Arena conta
Zumbi (1965),onde aplicou o famoso método brechtiano do distanciamento. Guarnieri,
Augusto Boal e Edu Lobo optaram pelo modelo dramatico de um "seminário histórico", que
possibilitou a inclusão do narrador contemporâneo que interliga e comenta os episódios
representados, estabelecendo outro patamar - ate entao inovador - de comunicação com a platéia.
Essas técnicas,de cunho brechtiano, dão forma ao chamado sistema coringa. Dois anos depois,
renovando o mesmo texto, surge Arena Conta Tiradentes, um aperfeicoamento dessa
mesma proposta e sistema que revela o protomártir da Independência como herói. Esses dois
sucessos na epoca, promovem o Teatro de Arena à condição de liderança junto ao teatro de
resistência.
Mas nada dura pra sempre e após se desligar do grupo do Arena, Guarnieri aceita a encomenda
de sua amiga e atriz, Fernanda Montenegro e escreve Marta Saré, uma saga musicada
sobre a vida de uma prostituta nordestina que faz fama e fortuna no Rio de Janeiro,(1969).
Em 1971,ele escreve um novo musical, Castro Alves Pede Passagem, ambientado
inusitadamente num programa de televisão,com passagens interessantes da vida do famoso poeta
romântico, em um bem realizado jogo metalinguístico. Sob sua direção, essa montagem marcou o
início da sua colaboração com a Companhia Othon Bastos que consequentemente encenou muitos
outros textos dele, incluindo Ponto de partida (1976), escrito vinte anos depois
de seu mais famoso e aclamado texto teatral que iniciou sua carreira: Black Tie.Todos
estes textos revelam pela temática e suas proposições estéticas, vínculos estreitos com o
realismo socialista.
Em 1981, Eles não usam black-tie foi cinematografado por Leon Hirszman, com o
proprio Guarnieri atuando num dos papéis principais - Otavio - , ao lado da estrela Lelia
Abramo (atriz falecida em Abril de 2004). O filme saiu premiado do Festival de Veneza, levando o
Leão de Ouro em 1981.
Como ator teatral, Guarnieri alcancou muito sucesso e bons prêmios, brilhando, no Teatro de
Arena, na composição de alguns personagens expressivos, como em Ratos e Homens, de John
Steinbeck, em 1957; ou como o jovem Tião, de seu próprio texto Eles Não usam Black Tie,
1958; O Filho do Cão, em 1961; A Mandrágora, de Maquiavel; Tartufo, de
Molière; o Coringa de Arena Conta Tiradentes, 1967; o protagonista de Arturo Ui,
de Brecht, em 1971. Também atuando como ator de cinema e televisão, obteve a oportunidade de
grandes interpretações, em papeis aplaudidos e reconhecidos pelo grande publico. Por sua
sensível interpretacao dramática como Otávio, o pai de Eles Não Usam Black Tie, na versão
cinematográfica de Leon Hirzman, em 1982, ele tambem recebeu inúmeros prêmios nacionais.
Vemos aqui uma analise sobre o autor, nas palavras do crítico Décio de Almeida Prado:
"Guarnieri escreveu com facilidade e fecundidade tanto na década de 60 quanto na de 70, antes e
depois de 1964, porque tinha durante esse tempo todo um claro projeto político em vista. Sabia a
favor do que ou contra o que manifestar-se. (...) Se na qualidade de escritor engajado Guarnieri
nunca se recusou a tomar partido, na de poeta dramático equilibrou sempre a sua obra entre dois
pólos: a sedutora simplicidade das grandes explicações históricas - no caso, o marxismo - e a
extrema complexidade do mundo real e dos homens. Daí o paradoxo (comum a toda boa literatura)
desse teatro: não é preciso partir de suas premissas ideológicas para admirá-lo enquanto lição
humana e realização estética."
Em homenagem a Lelia Abramo, sua amiga e co-star do espetaculo mais aclamado de sua
carreira, ele escreveu na ocasiao de sua morte:
Lélia Abramo foi minha estrela
Artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo em 12/4/04 por Gianfrancesco
Guarnieri
Pela manhã, recebi a notícia. Vanya, minha mulher, contou-me da forma mais simples,
procurando abrandar o choque: Lélia Abramo morreu. Nós sempre a admiramos e respeitamos muito.
Naquele instante percebi com toda a clareza o quanto Lélia representou, representa e sempre
representará para mim. O ponto de referência sólido, absolutamente confiável, apontando o rumo
exato de uma vida elaborada sobre princípios inegociáveis. Considero meu encontro com Lélia
Abramo um desses momentos decisivos de uma vida.
Ao retornar de uma excursão com os companheiros do Teatro de Arena, fomos assistir ao
espetáculo que ficara em cartaz em São Paulo, aguardando a nossa volta. "A Mulher do Outro" era
o título da peça. Embora tenha gostado do espetáculo, o que me impressionou mesmo foi a
interpretação de uma atriz, em um pequeno papel, que roubava a cena.
Mais tarde, quando o diretor José Renato escolheu minha peça "Eles Não Usam Black-Tie" como
a próxima encenação do Arena, fiquei contentíssimo e curioso com a sugestão dele de dar dois dos
principais papéis a um grande ator - Eugênio Kusnet - e a uma atriz ainda desconhecida do grande
público - Lélia Abramo.
Qualquer dúvida que pudéssemos ter sobre o acerto na distribuição dos papéis foi reparada
logo nos primeiros ensaios, tal a adequação de ambos aos personagens. Lélia foi uma Romana
magistral e um dos motivos que fizeram com que a peça alcançasse o êxito que alcançou.
Sou grato a Lélia não só pela Romana que interpretou com um enorme conhecimento de vida,
profundidade e amor, mas por sua postura diante da realidade, pelo seu espírito de luta, sua
sede de justiça.
Juntos enfrentamos momentos críticos de nossas vidas, sem esmorecer. Lélia, batalhadora até
os últimos instantes. Cheia de afeto até nos momentos de raiva e aparente ceticismo. Lélia, que
sofreu perseguições por sua postura à frente do Sindicato de Atores. Lélia, que lutou junto ao
movimento operário. Que presidiu assembléias da classe teatral nos momentos mais duros da
repressão. Lélia, uma grande, enorme atriz que amava o teatro, a arte e as coisas mais sublimes.
Às vezes carrancuda, soturna, mas esplêndida em toda sua pujança. Lélia, exemplo para as
mulheres lutadoras que descobrem seu papel na sociedade. Lélia, minha estrela!
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Um pouco sobre o Teatro de Arena: fundado em 1953,o grupo foi o pioneiro na América do Sul a
usar a cena circular envolvida pelo público. Sem a necessidade ou o uso de cenários, atuando em
locais improvisados, podiam eliminar muitas despesas, trabalhavam sem a necessidade de grandes
patrocinadores, o que lhes dava bastante independencia politica. O Arena, sob o comando de
Augusto Boal, empenhou-se na procura de um estilo brasileiro proprio de encenação. Em 1958, o
primeiro grande sucesso veio com a montagem de Eles não Usam Black Tie, de Gianfrancesco
Guarnieri. A partir daí, buscou sempre trabalhar textos ligados a aspectos da realidade do
país.
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