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26.09.2004
Oduvaldo Vianna Filho, o mito-existencialista dos anos 70
Paula Valéria Andrade
Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha - assim chamado por seus amigos e colegas para se
diferenciar do pai - nasceu em 1936, filho do tambem escritor e dramaturgo Oduvaldo Vianna.Ele
foi ator;dramaturgo de teatro, cinema e televisao;compositor-letrista e militante ativista de
esquerda,filiado ao PCB. Ao lado de Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal foi um dos principais
nomes do Teatro de Arena, em São Paulo, no final da década de 1950.Foi autor de pecas politicas
de critica a sociedade de consumo em si e`a realidade brasileira.Faleceu precocemente aos 38
anos em 16 de julho de 1974.Uma grande perda para todos nos.Quatro anos apos Jimmy Hendrix e
Jannis Joplin, icones da expressao da liberdade individual dessa geracao.Embora jovem, deixou
uma obra de grande significancia para os nossos palcos.E trabalhou ate o ultimo minuto,no seu
leito de morte.Considerado um teatrologo de grande teor politico e artistico na ocasiao de sua
morte, seu trabalho de dramaturgia eh visto hoje em dia, como um dos mais solidos da sua geracao
dentro da cena brasileira. Seu pai, era dentista de formacao, mas dedicou-se ao teatro e ao
cinema toda a sua vida:via "a dramaturgia em si" como um todo.Mais tarde, envolveu-se com uma
tal nova tecnologia:o radio.Dirigiu tres filmes,de 1936 a 1949 e antes disso estudou cinema nos
Estados Unidos.E foi a partir dai que ele buscou inserir recursos cinematográficos tanto na
encenação como no texto. Uma das figuras principais de sua epoca,situava-se entre os
comediógrafos do pós-guerra, foi um dos fundadores da SBAT - Sociedade Brasileira de Autores
Teatrais - e organizou com Viriato Correa, Nicola Vigiani e Abigail Maia a companhia que
realizou o movimento Trianon (no espaco de mesmo nome) em Sao Paulo, na qual só autores
brasileiros eram representados.Foi ele tambem que como diretor realizou a primeira excursão de
uma companhia brasileira de comédia para o Exterior, visitando a região do Prata e fazendo
temporada de sucesso em Buenos Aires. Ou seja, desde cedo,Vianinha teve aonde se inspirar - e
muito bem - dentro de casa.E para ele, ser pioneiro em algo, era um valor a se atingir sem
grandes cerimonias.
Sua estréia como autor encenado ocorreu em 1959, no entao fervilhante Teatro de Arena (ver
artigo sobre Guarniere) em Sao Paulo, com Chapetuba Futebol Clube. Ali foi reconhecido
com louvor perante seus colegas militantes de esquerda.Entre seus méritos, se destacaram a sua
sensibilidade e a delicadeza na abordagem,sua envergadura e a tessitura psicológica de seus
personagens,alem do diálogo de bom nível literário e ideológico na análise dos problemas sociais
vigentes da epoca.Jovem e esfuziante brilhou rapido.Vianinha havia mudado para Sao Paulo anos
antes, para estudar arquitetura, mas abandonou a faculdade para dedicar-se definitivamente ao
teatro.Em 1956 organizou um curso de teatro com Guarniere e no ano seguinte fez um seminario de
dramaturgia com Augusto Boal.Algo lhe pulsava mais forte.E foi a partir dai que escrevou sua
primeira peca, originando sua estreia no Arena.Vianinha, virou figura impar e colega teatral,
parceiro de texto e composicao, de varios artistas que ainda se encontram em plena atividade no
pais ate hoje. Entre eles podemos citar Edu Lobo, Ferreira Gullar, Ze Ketti,Carlos Lyra,Armando
Costa,Gianfrancisco Guarniere e muitos outros nomes que o acompanharam entre os vinte e tres
textos que deixou e as experiencias que obteve ao escrever para os palcos e televisao nacional.
Ja no Rio de Janeiro, O grupo Opinião entra em plena atividade adaptando shows musicais - MPB -
para um trabalho teatral de caráter essencialmente político. Escreveu com Paulo Pontes e Armando
Costa o roteiro para o show "Opinião", que estreou em fins de 1964, no Rio de Janeiro, com Nara
Leão, Zé Kéti e João do Vale. O Espetáculo iria tornar-se um marco da resistência cultural à
ditadura militar e foi o responsável pelo lançamento da cantora Maria Bethânia, vinda da Bahia
para substituir Nara Leão, e que se consagraria nesse trabalho, interpretando "Carcará", de João
do Vale. Em 1965, Vianinha participaria como ator naquele teatro, ao lado de Paulo Autran,
Odete Lara e Nara Leão, de "Liberdade, Liberdade", escrito por Millor Fernandes e Flávio
Rangel e dirigido por este último.Sua peça Se Correr o Bicho Pega, Se Ficar o Bicho
Come, em parceria com Ferreira Gullar em 1966, conquistou o Premio Moliere. Ativista de
carteirinha, desenvolve uma densidade historica e circunstancial em seu trabalho artistico com
um fio politico condutor permanentemente presente na subjetividade de suas abordagens.Seu
enfretamento contra a ditadura militar foi frontal, na raca e no peito angariando obviamente
muitos dramas reais com a censura por conta de sua trajetoria intelectual ter sido
deliberadamente de esquerda.Percebemos que atraves da figura do anti-herói, ele desenrola
conflitos existenciais, sua marca ao longo dos anos 70 de forma sucessiva e afirmativa, onde
filosofa em tom quase profetico que a "impiedosa engrenagem acaba por sufocar o
indivíduo". Se estivesse vivo hoje, talvez com isso pudesse justificar os atos de insanidade
do governo do PT no qual nos deparamos e infelizmente nos decepcionamos.Podemos dizer que vemos
presente o mesmo "fenômeno" em quatro de seus outros trabalhos: A Longa Noite de Cristal;
Moço em Estado de Sítio (escrita em 1965 e encenada em 1981 por Aderbal Freire Filho);
Corpo a Corpo que depois virou o texto Mão na Luva (de 1966, somente encenada em
1986, também sob a direção de Aderbal Freire Filho,com Marco Naninni no elenco); todas encenadas
ao público apos sua morte, por questoes de censura. Papa Highirte escrita em 1968, relata
ocaso de um ditador latino-americano,no exílio, amargando suas obsessões e seus fantasmas do
passado. Por mais que ele se veja como um bom homem, sua ação ou omissão causou um injusto
aglomerado de vítimas. O texto se tece e constrói em torno desse ajuste de contas fatal,quando o
personagem cogita o regresso ao seu País.Esse texto, assim como Rasga Coração, foram duas
obras-primas de Vianinha, ambas premiadas em concursos promovidos na epoca, pelo Serviço
Nacional de Teatro.
Vale lembrar, que Vianinha também escreveu para cinema e televisao, nesse ultimo caso a TV
Tupi e a Rede Globo.Foi dele o roteiro do filme O Casal, dirigido por Daniel Filho,
baseado no script que escreveu para TV, Enquanto a cegonha não vem, em 1974. Ele tambem
participou dos seguintes filmes: Amor para três, em 1960 ; dirigido por Carlos H.
Christensen e Os Mendigos, em 1963 dirigido por Flávio Migliaccio. No início dos anos 60,
foi ator no episódio Escola de Samba Alegria de Viver, dirigido por Carlos Diegues e
integrou em 1962, um dos clássicos do CPC da UNE, o filme Cinco Vezes Favela. Ele buscou
se identificar a fundo com as temáticas abordadas, desde o perfil das personagens que construia
ate as particularidades das locações, de modo a desenvolver uma linguagem que procurou revelar
os lugares-comuns e impasses vivenciados pela classe média, propondo dessa forma, a politização
do cotidiano.Na segunda metade da década de sessenta e no inicio da década seguinte, a tônica de
seu trabalho televisivo, foi a de refletir as questões mais urgentes da nossa sociedade e de
problematizar as vivências das pessoas comuns através dessa mesma dramaturgia.Sob esse aspecto,
a teledramaturgia seria uma alternativa para driblar a censura que cerceava suas atividades
teatrais e assim conseguir abrir novas possibilidades de popularização para sua arte da palavra
e retratacao da existencia moderna e humana.Sua postura assumida de trabalhar para a TV, causou
reservas e preconceitos por parte de seus colegas do PCB, partido o qual manteve-se filiado
desde os tempos de estudante. Mas por coincidencia ou nao,um dos seus maiores (e mais
duradouros) exitos para teledramaturgia foi a comédia "A Grande Família",perfazendo uma
critica a vida da classe media brasileira e seu cotidiano surrealista e comico,sendo um dos
programas de televisão que Vianinha escreveu ao lado de Paulo Pontes e Armando Costa, na década
de 1970, e que voltou a ser apresentada pela TV Globo,com muito sucesso de publico em sua nova
versão,em 2001.
Em 1972, ele escreveu a adaptação da tragédia grega "Medéia", de Eurípedes, interpretada por
Fernanda Montenegro. A idéia serviria de base para que depois Chico Buarque e Paulo Pontes
escrevessem, em 1975, "Gota d’Água", que foi grande sucesso de publico e critica, encenada
magistralmente por Bibi Ferreira.Tambem em 1972, Antunes Filho realizou a montagem de seu texto:
Em Família; com Paulo Autran, Carmen Silva, Mauro Mendonça, entre outros no elenco, em
Sao Paulo, no Teatro Itália.Tratando o que vemos ainda hoje nos telejornais exibido como
matérias chocantes, sobre pessoas idosas abandonadas por seus parentes, largadas em asilos com
péssimas condições de acomodação, higiene, alimentação, enfim de digno tratamento. O assunto, já
tratado há décadas,neste texto por Vianinha - revela o drama de um casal de velhos amorosos
colocados pelos filhos em asilos diferentes - para que assim dessem menos despesas e tambem
gerassem menos responsabilidades.
Cena de Em Familia - 1972
Finalmente em 1979, nossa acirrada censura deixa de ser prévia e passa a ter um caráter
apenas classificatório.Com isso, liberaram o seu texto apos cinco anos de sua morte e assim foi
possivel encenar no Rio de Janeiro a peça Rasga Coração,premiada anteriormente no SNT e,
em seguida, proibida. Ela foi seu ultimo trabalho,cujo o final o dramaturgo ditou do seu leito
de morte, como em sussurro de uma confissao politica e espiritual.Esta, realiza um panorama
social do Brasil nas quatro décadas anteriores, sob a visao e perspectiva de um militante de
esquerda anônimo.A esperança de construção de um país justo, ideal , promissor, porem sempre
frustrado apos sucessivos golpes das manobras de direita. No mesmo ano, o Prêmio Moliere,foi
entregue para os melhores do teatro e concedeu pela primeira vez postumamente a um autor, em
homenagem especial ao sr. Oduvaldo Vianna Filho, os respectivos premios pelas peças " Rasga
Coração" e " Papa Higuirte".Em 1981, "Moço em Estado de Sítio" encenada por Aderbal
Freire Filho, deu a Vianinha o segundo Moliere póstumo. O autor nunca assistiu esses seus textos
em cena.E muito menos pode ter a honra de receber os premios.Seu trabalho consistiu em mais do
que uma simples escrita, uma arquitetura da palavra.Sem a esperanca de glorias.Mas na busca da
gloria de fazer seu pais acordar para se ver e se fazer melhor e mais justo.Irreverente e
letrado.Apaixonado e produtivo.Nao perdoou as mazelas de um sistema social injusto e pos a boca
no trombone.Influenciou varios artistas e sua atitude continua como um icone na mente de muitos
ate hoje.
Vianinha,viabilizou o drama nos lares,nos palcos, nas musicas e nas avenidas.Foi resistente
e flexivel.Foi autor e foi gente.
* * *
Veja o texto sobre ele publicado no O Estado de São Paulo
Um artista solidário e imutável em sua essência
Entre seus companheiros foi o que tornou mais explícitas as correções de percurso.
Mariangela Alves de Lima Especial para O Estado de São Paulo
Os franceses usam a expressão "homem de teatro" para designar os artistas que, além de uma
atividade específica, enveredam pela teoria e para o território da produção da arte cênica.
Tivemos muitos com esse perfil, a começar pela impávida figura do nosso primeiro grande ator,
João Caetano dos Santos, que ainda na primeira metade do século dezenove se ocupava em cavar
alicerces para um teatro nacional. Mas não foi só do nacional que se ocupou Oduvaldo Vianna
Filho. No período em que viveu (1936-1974) a perspectiva do "homem de teatro" alargou-se
consideravelmente. Além de ocupar a cena, os homens da sua geração desenharam uma proposta
político-estética, pensaram a cultura e a transformação concreta da existência como uma unidade
indissociável e acreditaram que o que estava no palco tinha força para atuar sobre o que estava
fora dele.
Para essa geração a arte significou um instrumento no percurso até a felicidade coletiva e
pode-se dizer que a esperança dessa redenção social não está inteiramente ausente das obras mais
críticas e mais amargas do período. Vianninha, apelido carinhoso que o distinguia do pai
dramaturgo, expressou-se com grandiloqüência em um os seus textos militantes: "o homem será
Deus, do seu verdadeiro tamanho, com a cabeça nos céus, com os séculos nos olhos. E os deuses
estarão nas ruas".
Por não ter sido um homem isolado, mas um artista solidário e representativo da sua época,
o percurso intelectual de Vianinha fez dele assunto privilegiado para quem quer reconstituir a
história recente do país, sobretudo o período de enfrentamento direto entre a ditadura militar e
a esquerda. De mais a mais a análise de sua dramaturgia teatral e televisiva proporciona ao
ensaísmo - nesse sentido é um autor único -a oportunidade de distinguir estratégias para atuar
em diferentes situações conjunturais e para diferentes públicos. Entre seus companheiros é o
dramaturgo que tornou mais explícitas as correções de percurso, no domínio da linguagem,
necessárias para atingir um objeto que, na essência, se manteve imutável ao longo de sua vida
artística.
Entre as vinte e três peças que escreveu (algumas em colaboração) há textos de
circunstância, destinados a um público idealmente constituído por estudantes e operários e cujo
tema é de oportunidade histórica. Nas outras peças o protagonismo é reservado à hesitante classe
média que, ontem como hoje, pode ser cooptada por qualquer uma das frentes mais radicalizadas do
conflito social. Nas peças militantes há uma riquíssima variação tática que vai da ironia à
tragédia, do documento à farsa. Quando elege como tema a sua própria classe, a dos homens
esclarecidos para quem a aliança com outra classe é uma opção de conseqüências éticas, Vianinha
desenha subjetividades densas no pensamento e nas emoções, figuras que se comunicam de modo
complexo com o universo concreto da história.
Lembramo-nos mais das personagens do que das situações em que o autor as coloca - estas por
vezes apressadas e funcionais - mas nas personagens há um conteúdo perene convidando a uma
constante reapropriação cênica. No entanto o fato de que sua obra tenha permanecido um
desafiante objeto crítico quase um quarto de século após a sua morte sinaliza algo mais do que a
transcendência histórica. Conheço cinco livros publicados sobre Oduvaldo Vianna filho, e vários
ensaios esparsos e em todos eles está presente a admiração pela consonância entre arte e
política. Através dele há quem queira como ele, "conhecer inteiramente o real e modificá-lo".
O Estado de São Paulo
Mariangela Alves de Lima
Caderno 2
Sábado, 24 de junho de 1999.
Página D-3
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