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26.12.2004

Cenas de uma Separação
Paula Valéria Andrade






   Recem chegada da Australia, neste mes resolvi escrever sobre a cena teatral de Sidney, mas especificamente do espetaculo Cenas de uma Separacao em cartaz ate 18 de dezembro, na monumental Opera House.Teatro contemporaneo, texto escrito a quatro maos, por autores locais de excelente qualidade artistica.Deve ser bom apostei.E acertei no alvo, para a felicidade geral de todos os envolvidos nessa proposta, incluindo a minha e de Mauricio Limeira, editor do Cisco Tonitruante.

   Para comecar, o predio em si em mesmo, eh suntoso e modernissimo.Algo turisticamente comparado em impacto visual, as Muralhas da China, o Cristo Redentor, as Piramides de Gyza no Egito e o Coliseumm em Roma.Nao estou exagerando nao.Assim esta descrito em muitos livros de turismo, em varias linguas.Pode conferir.Para quem conhece o L'Opera de Paris, o Lincon Center em Nova Iorque e mesmo o famoso Kodak Theatre de Los Angeles - onde se realiza a entrega do Oscar - e tb aprecia o gosto pelas linhas minimalistas da arte moderna, a Opera de Sidney eh um palacio contemporaneo do teatro a se deleitar a cada centimetro, nao se comparando a nada existente.Isso para nao citar que nem os teatros de Londres ou de Berlim tenham de longe algo parecido em arquitetura. E por falar em arquitetura, ela tem a assinatura de Jørn Utzon que ganhou a concorrencia internacional para desenhar e realizar o projeto.Idealizado originalmente com a intencao da visao de uma concha do mar aberta em movimento de espiral (de dentro pra fora), como a flor se abre em petalas.Alem da beleza do predio em si, sua localizacao se encontra a beira-mar com uma vista noturna da cidade, suas pontes e predios iluminados, simplesmente estonteante e que voce pode ter o privilegio de degustar no intervalo,ao abrirem o terraco para o publico bebericar um drink ou um cafe.Entre os bares e restaurantes presentes no predio,encontramos o Opera Bar, Guillaume at Bennelong, Bistro Mozart e o Sidewalk Cafe & Bar, este ultimo,famoso bar da mocada local.Geralmente sao frequentados como programa complementar, antes e depois das sessoes teatrais. Ja as salas de exibicao, sao distribuidas em varios tamanhos para intencoes performaticas diferentes.Sao elas:Concert Hall and Opera Theatre, Playhouse Theatre, Drama Theatre e por ultimo, o mais intimista,The Studio. Se voce quiser visitar a mesma vista, basta ir la de noite no barzinho do primeiro andar, porem o acesso ao terraco do mezanino eh so para a audiencia pagante dos espetaculos.

   E outra vantagem aventuresca disso, eh que voce pode tomar um aqua-taxi (ou barca/ferry) para chegar la.Ou seja, o espetaculo ja comeca na ida para o teatro.Uma opera a beira-mar.E no clima tropical do Sul do mundo.Mas embora fascinante, o visual nao seria estritamente necessario para impressionar, ja que a qualidade teatral de Sidney - e consequentemente australiana - nao deixa nada a desejar aos melhores palcos do mundo.E sabemos que eles - infelizmente - sao poucos. Embora aqui entre nos,podemos ficar tranquilos, porque o Brasil com sua audacia, inventividade e perseveranca se encontra muito bem posicionado nesta rota e "lista" das melhores cenas.

   Voltando ao ponto incial, o espetaculo eh moderno e muito bem realizado.Nao so pelo conteudo - datado originalmente de dez anos atras em sua primeira versao - escrito por quatro maos, mas com o conceito usado de espelhamento, onde cada autor, um homem e uma mulher, respectivamente, tratam da mesma historia relatada com seus pontos de vista, percepcoes e perspectivas diferentes dentro da visao feminino/masculino.O tema central, como o titulo obviamente indica, trata da separacao de um casal heterosexual e o(s) motivo(s), entre fatos e angustias , que os levaram a este desfeixo.Nada novo na face da Terra sobre esse assunto, principalmente em tempos modernos onde ser casado desde jovem - e bem casado - virou artigo para a minoria.A maioria acaba acertando no segundo ou terceiro casamento, isso, quando acerta.A probabilidade de vida conjugal feliz virou um numero de estatistica tao imprevisivel, quanto o de ganhar sozinho na loteria.Mas como dizia, nada seria novo na tematica, se nao fosse o fato de que ambos os personagens ganharam a legitima defesa e cumplicidade de seus autores, em relacao ao ponto de vista particular de cada parte do casal, para contar a mesma historia.No primeiro ato, vemos este homem, bem-sucedido como editor em uma renomada empresa australiana a se deparar com o fracasso de seu casamento.Que para ele, ocorreu assim, tao de repente, como que sem um motivo ou forca maior.Nessa parte, quem conta a historia eh o autor.Ja no segundo ato, a autora retoma a mesma historia, parte a parte, cena a cena , sob a perspectiva e emocao feminina.A visao da esposa e mae que ficou sem carreira para se dedicar a sanidade e bem-estar da familia de bom padrao da classe-media alta.Neste ato vemos, a percepcao dela daquela frase dele dita que doeu - e ele nao percebeu - os fatos que ela comentou e ele nao prestou atencao; e coisa por ai afora, que nos, como audiencia so vemos a historia em si, como um todo, quando totalmente revelada no segundo ato.Cada um tem sua defesa para o mesmo caso.Depende do angulo que se conta. E nos, na plateia ficamos com a posicao de juizes prestes a dar a sentenca final, entre o bem e o mal e nos deperamos com a enormidade do sentido de humanidade e justica, ao escutar os fatos , as emocoes e as dores do outro.De cada um.E ate de nos mesmos, se tb ja passamos por uma separacao.Nao tem jeito, todos saem perdendo ao final, assim como tambem todos tem seus motivos mais do que justificaveis para chegarem no ponto em que estao.Ganhar a liberdade seria sair ganhando ? E onde fica o amor ? O que fez a relacao murchar, apodrecer ? Drama moderno universal, o tema usando o sentido de espelhamento, foi muito bem elaborado.Tanto no texto como na sua montagem.Para legitima-la a designer Fiona Crombie (cenario e figurino) soube dar o tom correto no suporte.O uso do palco com as multiplas trocas de cena e a necessidade do texto de se expressar em multi-propositos, foi dividido por portas venezianas que se abrem e fecham dando a alusao de interior e exterior no mundo fisico e psicologico, reafirmando a duplicidade das vozes - que um dia foram unidas - na busca de suas verdades pessoais,seus conflitos e questoes encontrados em reflexao,em ultra exposicao ali no texto.O cenario, alem de ser neutro e com um tom minimalista, apresenta os mesmos moveis posicionados em geometria diagonal, dando a impressao de ser o mesmo espaco vazado em diferentes perspectivas no tempo e espaco de memoria da mesma trajetoria na trama.As cenas se passam em um escritorio, a varanda de uma casa de praia, almoco de familia na casa da sogra, ante-sala do mesmo escritorio e - com brilhante efeito de luz - na direcao de um carro em auto-estrada.E tudo isso com a agilidade que um pensamento tem de ir para frente e para tras, sem necessariamente ter linearidade.Um primor de trabalho bem executado, apesar do desafio de trazer para a estetica, o fator psicologico de um texto com uma abordagem como essa.

   O autor Andrew Bovell eh celebrado localmente tanto em teatro como em cinema.Entre seus filmes, se enconta "Lantana", que ganhou mais de dez dos maiores premios australianos pela competencia de sua dramaturgia, direcao e atuacao.Um filme cult para muitos e principalmente para os locais.Tanto que recentemente ganhou o premio "Best Screenplay" (Melhor Roteiro) no 2003 London Critics, o circulo de critica e premios para filmes (Circle Film Awards).Ele tambem escreveu em parceria o filme "Stricly Ballroom" , que ficou conhecido por revelar o ambiente e os personagens caricaturadissimos, das competicoes bregas de danca de salao na Australia.Engracadissimo vale a pena conferir, ja que a peca fica mais complicada de assistir.

   Ja a autora, Hannie Rayson, natural de Melbourne, esta mais relacionada ao trabalho dos palcos e de algumas series da TV local.Seu trabalho teatral eh aclamado e ela venceu com seu texto "Life after George" (A vida depois de George) em 2001, nao so a categoria "Best Australian Play and Best New Australian Work" (Melhor peca Australiana e Melhor Trabalho Inovador Australiano) do premio Helpmann; como tambem foi a primeira peca a ser indicada para o prestigioso premio Miles Franklin Award, em 44 anos de historia.Este seu trabalho esteve em cartaz em Londres em 2002 e em 2003 fez temporada no Centaur Theatre Company no Canada.

   Como voces podem perceber, ambos nao estao de brincadeira, embora o tom da peca seja mais para bem-humorado do que dramatico, senao fugiria a regra de ser tipicamente australiano, onde sexo e amor sao mais frequentes nas cenas do que violencia,tiros e guerras.

   Para saber mais sobre a cena teatral de Sidney, visite www.sydneytheatre.com.au e confira nao somente este, como os outros espetaculos presentes nas diferentes salas de apresentacao da cidade e da Opera House.

   Para visitar especificamente, o site da Opera click www.sydneyoperahouse.com


Ficha Tecnica de Cenas de uma Separacao / Scenes from a Separation:

De Andrew Bovell and Hannie Rayson. Direcao: Robyn Nevin - Elenco: Max Cullen, Nicholas Eadie, Sandy Gore, Sophie Gregg, Sean O'Shea, Georgie Parker and Emily Russell - Design (cenario & figurino): Fiora Crombie - Design de Luz: David Walters - Trilha Original: Paul Charlier







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