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Wilson Simonal
Rafael Lima




    Que tipo de lembrança uma olhada de esguelha nas bancas pode trazer. Você corre o olho pelas chamadas de capa, descobre que Wilson Simoninha foi o entrevistado da última Playboy e constata que a chamada escolhida para a capa é um eco que julgava encerrado: "Meu pai não foi dedo-duro!"

   Wilson Simonal ficou quase 30 anos fora da imprensa e agora parece não querer mais sair de suas páginas, assombrando-as qual cão dos Baskervilles. Eu achava que ele já estava livre de tudo isso, desde aquele show...

Capa de S’Imbora, de 1965


   No primeiro semestre de 2001 aconteceu no Canecão a primeira apresentação de gala dos filhos de Simonal, Max de Castro e Wilson Simoninha, com direito a notícia em jornal anunciando a boa nova e consagração da crítica. Fui conferir, e o que vi superou por completo as expectativas: lá pelas tantas, Simoninha interrompeu a sequência tremendamente animada de músicas, assumiu um ar grave, disse que faria uma homenagem a uma pessoa muito importante, e cantou Tributo a Martin Luther King. As luzes se apagaram, deixando o público apenas na presença das imagens (e do som) em arquivo de Simonal, projetadas nos dois telões. Uma exposição longa e intensa o suficiente para envolver emocionalmente o público, varrendo de sua memória qualquer ruído de informação... Depois de quase três décadas ausente de qualquer retrospectiva musical na televisão, achei que enfim Simonal tinha se livrado do ostracismo artístico e registrei minhas impressões nesta notinha de uma seção chamada Peristálticas, que a gente fazia na época:

   NINGUÉM SABE O DURO QUE EU DEI

   Testemunhei um milagre. Quando Wilson Simoninha interrompeu a introdução de "Tributo a Martin Luther King" para apresentar imagens da TV Record de seu pai, Wilson Simonal, nos telões do Canecão, foi como se o próprio tivesse se materializado ali, voltando à vida depois de 30 anos de morte artística, crime friamente perpetrado pela turma do Pasquim, afinal, vivia-se uma guerra, não é, Ziraldo?, era nós ou eles, não é, Jaguar?, e não se podia deixar um dedo duro fazer seus shows por aí - mesmo que até hoje ainda não se tenha descoberto ninguém que foi delatado por ele. Agora o fantasma de Simonal pode deixar os grilhões que arrastava no castelo do ostracismo musical; sua alma pode descansar, enfim.


   O que mais me agradou, finda a redação, foi o título que escolhi, pinçado de uma estrofe famosa de um sucesso do Simonal, portanto uma referência na linha vara curta. O tom era duro e acusativo e pretendia reacender o quebra-pau sobre o nome do Simonal, que sabe dessa vez esclarecendo o que nunca fora evidente. Pelo menos Millôr Fernandes, que recebia aquelas notinhas, se manifestou:

   O caso do Simonal é mais complexo do que simples deduragem da esquerda - que inúmeras vezes foi mais dedoduro do que a direita.

   Segundo foi divulgado na época, no episódio em que Simonal teria mandado "exemplar um auxiliar", é que ele tinha carteira do Dops e os executores da "tarefa" nao foram condenados devido ao enorme trânsito que o cantor tinha na instituiçao policial. O velho negócio, agora ressuscitado no Senado
[M.F. refere-se ao caso que custou a renúncia de ACM] - cumpriam ordens.

   Pra mim sempre foi um mistério que um cantor extraordinário como Simonal tivesse caído na esparrela da "direita". Em minha peça Os Orfaos de Jânio, traço um retrato altamente dramático da figura humana do cantor.

   Em 1970 Wilson Simonal era um dos cantores mais populares do Brasil - leia-se aqui reger o Maracanãzinho inteiro cantando Meu Limão, Meu Limoeiro - e garoto propaganda da Shell quando viajou ao México, acompanhando a seleção brasileira como um amuleto de sorte ambulante para a Copa do Mundo. Segundo Nelson Motta no livro Noites Tropicais, quando voltou ao país, Simonal descobriu um desfalque em sua empresa e, ao invés de acionar um advogado ou investigador, chamou um capanga amigo seu do DOPS para "exemplar um auxiliar", no melhor estilo das vendetas mafiosas. A notícia chegou à imprensa e em 1972 O Pasquim publicou uma reportagem acusando o cantor de delatar subversivos à ditadura, e em seguida, iniciou o que Simonal chamou uma campanha de perseguição covarde, o começo do que seriam 30 anos de esquecimento. Curioso, certa vez dei um pulo na biblioteca do CCBB para conferir a coleção completa d’O Pasquim que lá está, e o que encontrei foram edições e mais edições em série onde pelo menos meia página é ocupada por um cartum, quase sempre jocoso, onde se prega o indelével rótulo de dedo-duro nele.

   Sua queda aos infernos foi dramatizada por Millôr Fernandes numa peça de 1981, onde o personagem Beto "só não é o Simonal por causa do nome", segundo L.F. Veríssimo. A perda de reconhecimento popular e a manipulação da opinião pública que o fizeram relegado a shows em cafofos de quinta categoria, retratadas por Millôr na peça, foram apontados na imprensa como motivos para o alcoolismo que o cantor teria desenvolvido nos anos que se seguiram. Meados de 2000, começaram a brotar nos jornais notas sobre seu estado de saúde precário, após sobreviver a uma crise de cirrose hepática, a mesma que acabaria tomando sua vida, pouco depois. Seu drama particular, associado ao lançamento dos elogiados primeiros discos de seus filhos Max de Castro e Simoninha, era uma pauta boa demais para não ser explorada pelos abutres da mídia. Houve tempo para dar uma entrevista canto-do-cisne, onde falava tudo o que ficara preso em sua garganta nos decênios anteriores, e logo depois, faleceu.

   Nessa época, em lance de absurdo explicado apenas pelo desespero, a esposa do cantor estava empenhada em obter junto à justiça federal um documento atestando que Simonal não fora dedo-duro do período militar - como se algum governo fosse manter um registro oficial de delatores, como se fosse viável emitir tal sorte de documento... Dois anos depois, li na TelescÓpica a notícia que a Comissão Nacional de Direitos Humanos do Conselho Federal da OAB concluiu que Wilson Simonal era "inocente da acusação de ter agido como alcagüete da polícia política". Antes dessa conclusão sair, sua biografia já passava por um período de reabilitação, como costuma acontecer na proximidade da morte, cujo desfecho Simonal não viveu para testemunhar.

   Durante o enterro, muitos de seus desafetos relativizaram seus pontos de vista em função de perspectivas históricas e políticas nas declarações que fizeram. No entanto, na entrevista que concedeu à revista Bundas após o lançamento de Noites Cariocas, Nelson Motta entrou num bate-boca com Ziraldo exatamente sobre a figura de Simonal; Nelson defendia que Simonal fosse o chamado "apolítico", mas Ziraldo não arredou pé da argumentação que eram tempos diferentes, de um lado contra o outro. Pesados todos os dados, sempre me soou impróprio que gente como Ziraldo e Jaguar, cujo trabalho vive de exposição pública e reconhecimento autoral, tenham escolhido para alguém na mesma condição deles, um cantor, o pior de todos os castigos: o esquecimento. O mesmo esquecimento do qual a imprensa tentou se redimir, tardiamente demais. Em tudo quanto foi obituário, reproduziram-se as palavras do Jaguar, que já confessara veladamente ter "ajudado a destruir a carreira de um cantor", e sem as quais é impossível encerrar qualquer texto sobre a história de Wilson Simonal:

   "Foi um impulso meu. Ele era tido como dedo-duro. Não fui investigar nem vou fazer pesquisa para livrar a barra dele. Não tenho arrependimento nenhum."




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