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Geopolítica do Caos
Ignacio Ramonet, Ed. Vozes, 1998
Com o fim da Segunda Guerra Mundial, todo o planeta, de uma forma ou de outra, encontrava-se
numa espécie de equilíbrio vigiado. A divisão do mundo entre EUA e União Soviética
arrefeceu e imobilizou forças, ações e processos nacionais, devido à tensão provocada pela
possibilidade de um conflito armado entre os dois países hegemônicos e antagônicos.
Em 1991, o desmantelamento da União Soviética acontecia como o evento final de uma sucessão de
transformações cujo significado parecia óbvio: um ano antes o Muro de Berlim era derrubado
pelos próprios alemães, e há apenas alguns meses os EUA, numa demonstração de força oposta à
debilidade soviética, vencia o Iraque com uma mão amarrada às costas. Estava mais do que claro
o rumo que o mundo ia tomando: abolia-se o socialismo; os EUA embolsavam sozinhos a supremacia
mundial; decretava-se o início de uma "nova ordem" orientada pela economia de mercado,
termo que logo viria a tornar-se o dogma da política internacional. Houve mesmo quem chegasse
a instituir o "fim da história" e a impossibilidade de ocorrência de novas transformações
radicais que alterassem o curso da civilização. Liberdade e democracia seriam a tônica das
relações internacionais a partir daí. O mundo poderia assim respirar aliviado.
Hoje, passados quase dez anos desde o fim da URSS, frustraram-se todas as previsões otimistas
quanto ao futuro do mundo. O planeta não apenas continua sem poder respirar aliviado, como mal
consegue dormir de noite. Se por um lado o fim da Guerra Fria sinalizou, à primeira vista, com
o recuo do perigo nuclear, por outro a liberalização das relações comerciais e sua submissão às
leis do mercado despertaram sentimentos e provocaram reações cujas conseqüências, embora ainda
imprevisíveis, não deixam de ser preocupantes.
É da incerteza, da perplexidade e do temor frente a essas conseqüências, algumas já bem
visíveis, que trata este Geopolítica do caos (Ed. Vozes, 1998), do jornalista Ignacio
Ramonet, editor do conceituado jornal Le Monde Diplomatique. Avesso à euforia causada
pelo estreitamento das ligações financeiras em escala mundial e à interdependência entre os
países devido à mundialização da economia, Ramonet analisa os efeitos desses dois fenômenos e
não encontra razões para entusiasmo. Vê, na turbulenta fase de transformações que o mundo vem
atravessando, um período de transição que não se sabe ainda ao certo aonde vai dar. É o caos,
a desordem generalizada, causando aquilo que Ramonet define com o curioso termo sinistrose
mundial.
No entanto, o que de início pode parecer um inconseqüente exercício de catastrofismo, logo se
revela como um minucioso olhar sobre os rumos e as posições tomadas pelos povos do planeta
diante de um novo movimento que, ao mesmo tempo que os une e interliga, gera a desagregação,
a desigualdade, o mal estar, a insatisfação e o conflito.
Senão vejamos. Mergulhados em precária situação financeira, países como os do Leste europeu,
das Américas Central e do Sul e do continente africano passam a ser vistos como áreas de
investimento pelo mercado internacional. A ajuda, no entanto, vem sempre condicionada a um
ajuste na economia interna destes países, de forma a vinculá-la e inserí-la à estabilização
macroeconômica global. Os termos do ajuste seguem uma espécie de cartilha obrigatória imposta
pelas instituições financeiras internacionais, FMI e Banco Mundial, e baseiam-se na
privatização de empresas públicas e corte acentuado de despesas, o que implica em desemprego
e recessão.
Junto com os empréstimos, os países recebem também a chegada de grandes empresas transnacionais
que se instalam em seu território, trazendo teoricamente desenvolvimento e geração de empregos.
Mas o que ocorre é que tais empresas vêm justamente para estes países em busca de mão de obra
barata, mal e porcamente protegida pela legislação local, com o único intuito de produzir mais
gastando menos ou nada. Como se tal privilégio fosse pouco, os governantes regionais fornecem
ainda todo tipo de incentivos fiscais a estas empresas, através da isenção de impostos. Está
completa a entrega.
A empresa já vem tão grande que até o Estado encolhe diante dela. Isso acontece não apenas nos
países onde são recebidas, mas também em suas nações de origem. Mesmo os EUA tiveram de
submeter-se à ação do mercado internacional e do fluxo de capitais e informações, cujo controle
o governo não possui. Ao mesmo tempo, os diversos acordos internacionais que os governantes
assinam, seja para a formação de blocos econômicos, seja para comércio bilateral, implicam
naturalmente em mudanças na legislação nacional, que vão aos poucos limitando a soberania do
Estado. Este, por sua vez, distanciando-se cada vez mais de qualquer controle sobre a situação
geral da economia, na mesma medida se torna incapaz de resolver questões de natureza social e
zelar pelo bem-estar do cidadão, função para a qual deve a sua existência.
Ocorre então o que o autor classifica como uma crise de identidade do Estado, que se alastra
para o próprio setor político da sociedade. No momento em que deixa de dispor de condições para
manter a estabilidade interna, já que deixou-se atar pelo mercado financeiro internacional,
Estado e classe política perdem a credibilidade diante da população. E quando esta, num contexto
de crise social rumo ao insustentável, deixa de acreditar e confiar no Estado, fica sujeita a
qualquer tipo de solução, que pode vir sob o manto do radicalismo ou do misticismo. Movimentos
de direita, de esquerda, nacionalismos, racismos, xenofobia, manifestações religiosas e
despontar de líderes carismáticos terminam por canalizar toda a insatisfação popular contra
governos ineficazes e corruptos.
É a falência social do Estado, atropelado por interesses que não atendem necessariamente a uma
nação, mas a grupos financeiros que já não possuem nacionalidade própria. A mundialização e
padronização da economia levou, assim, a um deslocamento do núcleo de poder. O poder mudou
de lugar, informa o autor, e nem mesmo a ONU consegue intervir em tal situação, atrelada
aos vetos de países membros com poder decisório. Sob o nome de empresa global, então, com sedes,
fábricas e subsidiárias localizadas em pontos diferentes do planeta, este novo poder
constitui-se de uma rede de diversos elementos articulados de acordo com objetivos estritamente
econômicos, seguindo os preceitos de competitividade e produtividade.
Assim, enquanto estas empresas "globais" se fortalecem e gozam de poderosa modernização
tecnológica, os países de onde são extraídas tantas vantagens empobrecem e se vêem cada vez mais
distantes do comércio global, como párias observando de longe e magrinhos o festejo da corte.
Essa marginalização revela o quão autoritária se torna a economia, e não mais o Estado, com a
mundialização. Ao ditar regras globais de comércio, rejeitar qualquer outro tipo de política
econômica, deixar de lado cidadãos e mesmo nações inteiras ao sabor do vento incerto do
mercado, tudo em nome da produtividade e da competitividade, a economia deste fim de século
termina por confirmar aquilo que Ramonet chama de "impostura da democracia".
Tanto poder provoca naturalmente reações, como as manifestações nacionalistas e o crescente
desejo na sociedade de retorno a um Estado forte, o que pode ser visto nos países do Leste
Europeu, deformados em suas fronteiras pelo império soviético. O mesmo não ocorre na América
Latina, por exemplo, submissa e vendida, onde a privatização maciça do setor público deixou-a
nas mãos dos grandes grupos multinacionais que, como acusa o autor, ao dominarem setores
inteiros da economia, utilizam-se dos Estados em suas participações nos fóruns internacionais
obtendo políticas vantajosas à sua ação global.
Mas tal domínio não se dá só no setor econômico. O que torna eficaz essa apropriação do Estado
pelas forças do mercado é a capacidade que elas têm de manter sob seu controle os órgãos de
informação, sejam da imprensa (jornais, televisão etc.) ou acadêmicos (universidades, institutos
de pesquisa). É através do financiamento a estas instituições que os grupos econômicos constróem
a base ideológica que irá legitimar e difundir maciçamente a sua ideologia à população. Tão
maciçamente que criou-se uma expressão que com muita propriedade define esta corrente:
pensamento único.
Os fundamentos do pensamento único são todos tirados do neoliberalismo e você pode ser
facilmente achá-los nos discursos políticos e nos editoriais da grande imprensa, por exemplo. O
econômico sobrepondo-se ao político-social, a concorrência, o livre comércio, a mundialização,
a privatização etc., tudo isso girando como engrenagens de uma entidade maior que é o mercado.
Repetidos à exaustão, tais conceitos terminam por ser incorporados à sociedade, gerando um
consenso ideológico que contrasta com a realidade social. Como diz Ramonet, o desemprego
crescente, a devastação ecológica, a disparada da pobreza e da miséria até o limite de uma
convulsão social parecem imagens distantes, coisa de pessimista num mundo funcional, livre e
competitivo apresentado pela mídia.
Apesar disso, não se trata de uma dominação imediata, instantânea, pois passa por negociações e
complexidades. Meios mais civilizados do que o uso da força para obtenção dos mesmos fins. No
lugar de exércitos usa-se a tecnologia, a influência e a fortuna, relegando para o passado a
violência física direta. Num mundo cada vez mais padronizado, porém desigual, o investimento em
bolsas de valores de países pobres traz amplo retorno financeiro para quem investe, mas não para
quem recebe o investimento. O capital investido flutua entre as bolsas, não se fixa em nenhum
país e chega até a quebrar economias nacionais, como quebrou o México em 1994. Nesse caso, a
especulação, além de levar um país à falência e à perda de sua soberania, demonstrou a
preocupação internacional em manter funcionando esse mecanismo viciado, com a ajuda mundial aos
mexicanos unicamente com vistas a salvar o sistema financeiro. Vê-se assim como se entrelaçam
os movimentos do que Ramonet chama de os novos senhores da geofinança, espalhados pelos
pólos econômicos do mundo e identificados na gestão dos fundos de pensão e de investimento,
movimentando freqüentemente somas impensáveis entre as nações.
Todo esse entrelaçamento do sistema financeiro internacional, porém, não garante a tranqüilidade
contra a ação contrária que a cada dia parece ganhar mais corpo. O imediatismo pelo lucro a
curto prazo e a ausência de projetos para o futuro e para o coletivo terminam por gerar uma
crise de inteligibilidade que o neoliberalismo não tem condições de impedir, embora venha
freando-a com relativo sucesso. Pergunta-se, no entanto, por quanto tempo isso será possível
até que o bote comece a fazer água. Por quanto tempo a fórmula adotada será eficaz e de que
forma os governantes irão reagir quando as sociedades afinal passarem da palavra para a ação.
(M.L.)
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