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Consagrados e Malditos:
Os Intelectuais e a Editora Civilização Brasileira

Luiz Renato Vieira, Ed. Thesaurus, 1998







    Versão ligeiramente modificada de sua tese de doutoramento em Sociologia na Universidade de Brasília, em Consagrados e Malditos Luiz Renato Vieira analisa, a partir da trajetória de vida do editor Ênio Silveira, e de seu trabalho à frente da Editora Civilização Brasileira, o desenvolvimento do campo intelectual do Rio de Janeiro, durante as décadas de 1950 e 1960. Seu objeto central é o período compreendido entre os anos de 1964 e 1968, período no qual a editora publicou o importante periódico Revista Civilização Brasileira, um marco do pensamento político e cultural brasileiro e da resistência ao regime militar.

    Em essência, embasado metodologicamente nas concepções de Pierre Bourdieu sobre "capital simbólico", Vieira analisa o universo intelectual brasileiro ao longo do século XX até a década de 1960, e o mercado de bens simbólicos em que a atividade intelectual e, dentro desta, o mercado editorial no Brasil, se desenvolveram.

    Analisa a consolidação de certas temáticas, entre as quais a idéia de "construção da nação", face à modernização da sociedade, até os anos 1920; a produção das grandes interpretações sobre o Brasil, nos anos 1930; a cooptação dos intelectuais pelo Estado que condenam, durante o Estado Novo; o nacional desenvolvimentismo dos anos 1950; até chegar ao desenvolvimento de um pensamento radical de esquerda, nos anos 1960, quando os intelectuais estão tentando se identificar com o conjunto da sociedade e, nesse sentido, buscam produzir um ideário capaz de impulsionar vários setores da sociedade rumo ao desenvolvimento. Ênio Silveira, a Editora Civilização Brasileira e a Revista Civilização Brasileira estão justamente neste contexto. O autor não deixa de lado, no entanto, a atuação do Estado na Esfera cultural durante o regime militar.

    Esse esforço histórico-analítico de Vieira é fundamental para que possamos compreender o surgimento da Revista Civilização Brasileira, e o universo heterogêneo de intelectuais que colaboraram com a sua publicação. No entanto, não é por si só suficiente. O grande desenvolvimento da editora e o sucesso editorial e político da revista não teriam sido possíveis sem o papel inovador e corajoso do editor Ênio Silveira. Nesse sentido, o autor se dedica a analisar a biografia profissional e pessoal do editor.

    Cidadão de classe média, de formação humanista e filiado ao Partido Comunista, em 1951 Ênio, então com vinte e cinco anos, é designado por seu sogro a assumir a direção da Editora Civilização Brasileira, que, até então, era apenas uma subsidiária da paulista Companhia Editora Nacional no Rio de Janeiro. Vindo de um período nos Estados Unidos, onde fizera cursos sobre o campo editorial e mantivera contato com profissionais e empresas do meio, Ênio Silveira faz uma revolução na editora, provocando uma total ruptura com o momento anterior.

    Altera a linha editorial, antes baseada na publicação de livros didáticos; implementa modificações gráficas inéditas no Brasil, como o uso da brochura e a utilização de gravuras nas capas e no interior das obras, tornando-as mais atraentes; publica livros de bolso, de baixo custo, sobre temas políticos e sociais, com o intuito de levá-los a um número maior de pessoas; lança jovens autores brasileiros, como Carlos Heitor Cony e Paulo Francis, outros já consagrado e, pioneiramente no Brasil, clássicos do pensamento teórico de esquerda, como Gramsci, por exemplo.

    Durante a década de 1950, Ênio Silveira acumulou capital simbólico para si e para a editora. Sabendo conciliar a sua posição política com as necessidades do mercado editorial, se posicionou de modo independente frente ao Partido Comunista, não permitindo, apesar de seu engajamento político, que a editora se transformasse em um apêndice deste, e, assim, pode publicar autores não alinhados com o partido.

    Desse modo, adquiriu prestígio para si, e para a editora, e compôs um amplo e heterogêneo grupo de amigos e colaboradores, dando condição de sobrevivência a muitos autores desempregados durante a ditadura militar. A independência editorial de Ênio Silveira e a questão da luta pela democracia foram os pontos de união desse grupo tão diverso ideologicamente. Os encontros de fins de tardes no escritório da Livraria Civilização Brasileira, tornaram-se famosos e serviram de inspiração para um outro periódico lançado pela editora no final dos anos 1970, os Encontros com a Civilização Brasileira.

    Com a instauração do regime militar, Ênio Silveira, assim como outros intelectuais do "Grupo Civilização", e a própria editora, passaram a sofrer repressão política. No entanto, ele não se calou, e procurou demonstrar a contradição entre o discurso do regime, que buscava uma fachada democrática, e a sua prática arbitrária. Mas a apreensão de edições inteiras, as ameaças a livreiros, um atentado à bomba contra a editora, o incêndio criminoso da livraria e a censura velada da falta de crédito bancário, corroeram as bases financeiras da editora e consumiram a fortuna pessoal de Ênio. Enquanto outras editoras eram beneficiadas pelo regime, a Civilização Brasileira sofria todos os tipos de pressões.

    Aos poucos o contexto político se complica. O governo edita o AI-5, alguns colaboradores morrem, outros sofrem perdas pessoais e as divergências internas se intensificam. O Grupo se desfaz. Ênio ainda tenta novamente, com a publicação dos Encontros com a Civilização Brasileira, reproduzir o sucesso da Revista Civilização Brasileira, mas o resultado não foi o esperado. O novo periódico não tinha uma definição ideológica clara, e o ambiente político-intelectual havia se transformado.

    Em 1982, Ênio Silveira vende 90% das ações da editora para a DIFEL e Bertrand Brasil (hoje Record), mas mantém-se como diretor editorial da Civilização Brasileira e torna-se consultor da Bertrand. Morreu em 11 de janeiro de 1996, aos setenta anos, vítima de edema pulmonar.

    O trabalho de Luiz Renato Vieira tem méritos, como a constatação da existência de uma cultura de esquerda em voga no Brasil nos anos 1960. Mas, o maior deles é, sem dúvida, o de resgatar a biografia desse intelectual ímpar que, como profissional, foi extremamente competente e inovador e, enquanto o regime militar permitiu, foi muito bem sucedido. Um editor que enfrentou e refez as regras do mercado editorial brasileiro e que conseguiu conciliar o caráter profano da atividade (gerar lucro), e manter-se fiel aos seus princípios socialistas. Um homem que, sendo comunista, enfrentou o partido e se manteve independente. Um intelectual que não se portou como um intelectual clássico, e, por sua independência, se posicionou acima das disputas intelectuais e, assim, conseguiu aglutinar ao seu redor um heterogêneo e talentoso grupo de intelectuais pelo repúdio ao regime e pela defesa das liberdades democráticas e de expressão. Um humanista que acreditava na missão pedagógica do livro de transformação do homem e da sociedade, e que, por isso, buscou romper com o caráter elitista do intelectual e da cultura. Um cidadão que, por sua competência e por seu talento, se tornou um intelectual consagrado, embora para o regime militar ele tenha sido um intelectual maldito. (Cláudio Beserra)



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