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Escreva seu livro
Guia prático de edição e publicação
Laura Bacellar. Editora Mercuryo Ltda. São Paulo, 2001. 160 págs.
Escrever é um ato isolado. Gesto heróico de criação.
Todo artista tem o desejo de divulgar sua obra,
compartilhando-a com familiares, amigos,e com a
humanidade inteira.
Mas, será que esse livro vale a pena? É realmente uma
obra literária? Ou não passaria de simples desabafo,
criado em noite solitária que, à luz do dia, perde o
rigor, deixando à mostra apenas um texto duvidoso, que
não segue as regras ensinadas pelos Mestres, tem
vários erros de redação, e muitos lugares-comuns?
Principalmente, sem nada de novo...
Livros, há muitos. Para todos os gostos.
Mas, os autores que mais sofrem as injustiças do
mercado são os Poetas.
Ah, os Poetas... Gênios incompreendidos. Vítimas
marginalizadas de todos os tempos. Seres românticos,
sensíveis. Boêmios inveterados ou intelectuais
arrogantes.
Quanto mais apaixonados, mais os Poetas escrevem,
achando que a única condição exigida para escrever é
ter uma boa Musa.
Gênios frustrados derramam sobre guardanapos de mesa
de bar e em calhamaços de papel uma enxurrada de
textos e catilinárias, achando que descobriram a
pólvora, e são únicos em suas cantilenas à amada.
A Musa - doce Musa - bem o merece!
Alguns desses Poetas chegarão ao ponto de mudar o nome
do soneto-tradicional para soneto-traque, por exemplo,
contato que sejam elogiados como inventores de um
Movimento Novo. São os chamados criadores da Falsa
Vanguarda.
Fui descobrir numa autora desconhecida û Laura
Bacellar, que assina o livro Escreva seu livro - Guia
prático de edição e publicação - por que se tem tanta
má vontade em relação ao gênero Poesia, em particular,
e aos Poetas, em geral, e por que agüentamos, durante
tanto tempo, pessoas se dizendo gênios da Literatura,
tentando nos impor textos sofríveis como se fossem
obras monumentais.
Falta autocrítica aos escritores. Este é o problema.
Diz Laura Bacellar, uma executiva de conhecida
editora, com muita experiência no relacionamento com
os fazedores de Arte, que todo Poeta acha-se gênio.
Por isso, sente-se incompreendido, quando seus textos
são rejeitados pelos editores.
O livro de Bacellar não se refere apenas à Poesia, mas
a qualquer outra obra escrita, inclusive, Memórias e
Teses de Doutorado, do ponto de vista de autores e
editores. E com relação aos azares do mercado.
Analisando os difíceis caminhos da obra literária,
desde o momento da criação, até a publicação, o livro
dá algumas dicas valiosíssimas para quem quer escrever
alguma coisa e, um dia, publicar sua produção.
Naturalmente, com investimento das editoras, e não com
recursos próprios do autor.
Falta profissionalismo no escritor. No Poeta,
principalmente, para quem somente a Musa interessa.
Este é outro ponto abordado por Bacellar.
Um dos erros mais comuns cometido pelos autores é
entregar originais a familiares e amigos, para
avaliação.
Resultam daí mais fantasia, ilusão e engano: é claro
que a resposta será elogio. Inclusive, elogio
ignorante, pois nem sempre esses críticos amados,
amantes e amadores têm ferramentas necessárias para
analisar textos.
Mas isto não interessa a quem quer somente ser
elogiado.
"Se você quiser uma avaliação legitima - diz Bacellar
- contrate um profissional. Esse serviço se chama
leitura crítica, e deve ser exercido por um editor que
não conheça você, e que não tenha inibições quanto a
fazer um relatório completo".
A autora dá as seguintes dicas (da maior importância!)
aos Poetas que não pretendem apenas rodar e dançar em
torno do próprio umbigo, em exibições numa Pasárgada
qualquer:
Você já passou por algum crivo de leitores críticos?
(Bem críticos mesmo, acérbicos, sarcásticos, não
amigos).
Você já recebeu algum prêmio significativo pelo seu
trabalho? (Não vale estar entre os cem melhores do
concurso de poesia da cidade de Piraporinha do Sul).
Você já jogou fora nove décimos do que tenha
originalmente escrito só para a presente obra? (Você
mesmo tem de selecionar o que é bom e o que é
mediano).
Você presta atenção à sua volta? Sabe quais são as
preocupações, angústias e felicidades das pessoas
hoje? (Ninguém - inclusive editores - deseja obras
desconectadas do público).
Há algum tema na sua poesia que não seja você-mesmo,
seus dramas existenciais ou a fascinação que a Musa
exerce sobre você? (É muito difícil fazer de dramas
pessoais uma leitura interessante).
Você lê muito, todo tipo de literatura, inclusive
Poetas novos? (Se você não sabe o que está acontecendo
na cultura, provavelmente estará repetindo erros e
obedecendo a tendências ultrapassadas).
Você escreve muito, todo tipo de coisa, inclusive
cartas e e-mails, sem erros ortográficos? (Sem
habilidade de escrita, não há poesia que preste).
Você ama a Língua Portuguesa? (Sem amor pela última
Flor do Lácio, idem).
Textos pobres, feitos nas coxas, podem ser o máximo em
besteirol. Não devem ser confundidos, no entanto, com
Poesia verdadeira.
Qualquer riminha besta de um Pierrô apaixonado,
escrita a esmo, não é necessariamente Poesia.
Não existem verdades eternas. Nem regras
incontestáveis. Ou soluções mágicas.
Mas o livro de Bacellar dá um recado claro e
retumbante a todos os escritores brasileiros:
- Poetas! Respeitem os leitores!
(Maria José Limeira)
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