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Zigurate - Uma Fábula Babélica
Max Mallmann. Editora Rocco. Rio de Janeiro, 2003. 220 págs.
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Ok, ele conseguiu novamente.
Comprei ontem o livro, 27 de Outubro de 2003, dia do lançamento carioca, evento no qual
reuniram-se bons companheiros da Ficção-Científica, e li ainda antes de ir dormir, umas trinta
páginas - e hoje mesmo o terminei, à espera de um professor que não apareceu na faculdade,
somando um total de umas quatro, quatro horas e meia para liquidar suas cerca de 220 páginas.
Falo isto não para me gabar, mas para dizer que, quem gostou de Síndrome de Quimera,
de uns três anos antes, do mesmo Max Mallmann, vai encontrar em Zigurate a mesma prosa
fluída e enxuta que pega o leitor pela mão e vai conduzido em um rápido deslizar, num só fôlego,
até o final do livro.
Zigurate é sobre dois imortais, um homem e uma mulher, Lugal e Nin, que estão entre
nós pelo menos desde a época dos Sumérios; e duas pessoas normais que tem suas vidas mudadas ao
cruzarem seu caminho. Duas tramas, uma para cada um, desenrolam-se no livro: entre Paris e
Edimburgo, Sophie Brassier, uma jovem antropóloga com pouco tempo de vida - sofrendo uma
enfermidade sem cura além de uma condição cardíaca - acha pistas através de registros históricos
que a levam cada vez mais obsessivamente em busca dos imortais, acabando por encontrar Lugal. No
Rio, temos a história paralela que se passa com Ray Stern, consultor de marketing
americano, contratado para organizar a campanha de um político corrupto, que acaba encontrando -
e se apaixonando - por Nin. A história de Sophie, e depois de Lugal e Sophie, é pontuada de uma
certa melancolia, refletindo a imagem que se tem das cidades onde ocorre a trama. A história de
Ray e Nin, refletindo a imagem que se tem do Rio de Janeiro, é agitada, apimentada e violenta,
virando um thriller de ação muito bem desenvolvido - e este reflexo também se dá nos
comportamentos respectivos de Lugal e Nin, como peixes em seus respectivos aquários, por assim
dizer. As cidades são muito bem caracterizadas - nunca estive em Paris ou Edimburgo para
constatar isto, mas ao menos me convence; e o Rio de Janeiro me saiu inconfundível.
Sophie e Lugal terão uma história curta cheia de perguntas, respostas, e poucas certezas no
final - apenas aquelas que realmente importam. Ray e Nin terão uma história rápida e violenta,
sem tempo para perguntas, porém repleto de respostas, e com um súbito final revelando uma
certeza que possa valer à pena. O fim, como não podia deixar de ser, acaba sendo tomado pela
melancolia - e a engraçada sensação do que é apresentado não deixar de ser o mais feliz possível
dos fins.
Uma comparação com outras obras do autor acaba sendo inevitável - e como só de Mallmann
conheço Síndrome de Quimera... de cara, não deixa nada a dever ao primeiro. Achei graça
de Zigurate ter, assim como Síndrome de Quimera (que vai ganhar uma edição
francesa!), um protagonista com uma condição cardíaca, além de uma brincadeira com a idéia da
imortalidade. Claro, em Síndrome, o absurdo reina, enquanto que o fora do comum é representado
apenas pelos imortais - e não apenas por isso, é uma história totalmente própria.
Alguns dos personagens secundários chegam a um nível quase cartunesco, no estereótipo, e
para a levada de humor interno de Zigurate, todos eles com um charme pessoal,
característico - detalhe para Neném da Candonga.
A citações sumérias permeiam o livro todo, com direito à escrita cuneiforme para numerar os
capítulos. Versos do poema épico mais antigo que se tem, sobre mítico rei Gilgamesh, abrem as
partes diferentes do livro, além de ficar revelado qual sua importância na história própria de
Lugal e Nin. Impressionam também certas recriações históricas de Mallmann, por onde Sophie vai
tirando suas conclusões. Uma ambientação extremamente competente, sem incorrer em excessos de
descrição desnecessários, sem comprometer o ritmo da história.
Ritmo este ágil; Mallmann é extremamente hábil em fazer suas mudanças de cena, do que
obviamente lhe faz valer sua experiência como roteirista profissional, dando a impressão que
Zigurate seria facilmente adaptável para as telas do cinema. Nós aqui platéia estamos
torcendo bastante para que isto, algum dia, ocorra.
(Luiz Felipe Vasques)
Sítio do livro: www.zigurate.com
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