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O Capitão saiu para o almoço
e os marinheiros tomaram conta do navio
Charles Bukowski. L&PM.
"Minha alma está a perigo. Sempre esteve."
Onde andará agora, por quais sarjetas se arrastará a alma embriagada de Charles Bukowski,
que evaporou de seu corpo septuagenário em 1994, deixando-nos muitas farpas em escrita honesta e
talentosa em mais de 40 livros com romances, contos e poemas?
Mestre do texto seco e irreverente, suas lições são como tapas na cara: "Não recebo
pessoas... Um escritor não deve nada, exceto ao seu texto. O melhor leitor e a melhor pessoa são
os que me recompensam com sua ausência".
Passou mais de meia vida como trabalhador braçal mas nunca parou de escrever. Sempre que
dúvidas o fustigavam, abria outra garrafa e lia outros autores. Situava-se: "Acho que
Sherwood Anderson foi um dos que melhor brincaram com as palavras, como se fossem pedaços de
comida para serem comidos... Te atingiam direto... Hemingway tentava demais. Você sentia o
trabalho duro em seus livros. Eram blocos rígidos, colados. E Anderson podia rir enquanto te
contava algo sério. Hemingway nunca conseguiu rir. Quem escreve de pé às seis da manhã não tem
senso de humor. Quer derrotar alguma coisa."
Sacanear Hemingway, demolir colossos, cagar para o sistema sem receio de ser apedrejado.
Puro Bukowski.
Mais lições: "Você decide ser um escritor fazendo coisas instintivas que te protegem
contra a morte em vida... Uma época, significava pra mim beber muito, beber até a loucura.
Afiava a palavra pra mim, a trazia à tona. E eu precisava do perigo... Com homens. Com mulheres.
Com carros. Com apostas. Com a fome."
Desde os anos 80 é possível conhecer o universo Bukowski em várias mídias: o filme/adaptação
CRÔNICAS DE UM AMOR LOUCO, com Ben Gazzara e Ornella Muti, é um excelente começo. É um registro
perene do modo etílico e autodestrutivo como o escritor viveu por mais da metade da vida, seu
horror ao convívio social - estar "espremido entre as pessoas", onde só via babacas -,
sua aversão pelos escritórios envidraçados e refrigerados onde lhe propunham muita grana em
troca de submissão e conformismo.
Assim ele gerou seu mito, escrevendo para não enlouquecer e travando um embate de
resistência com o establishment manipulador. Mas em seu diário/epitáfio, O CAPITÃO SAIU
PARA O ALMOÇO E OS MARINHEIROS TOMARAM CONTA DO NAVIO (L&PM), algo mudou: ficamos conhecendo o
Bukowski consagrado e sustentado não pelas prostitutas ou pelas merrecas que pasquins lhe
pagavam por seus contos, mas por direitos autorais, inclusive do cinema (ele roteirizou BARFLY,
mas os críticos disseram que Mickey Rourke estragou o filme) e até de HQs (o quadrinista alemão
Mathias Schulteiss, por exemplo, fez ótimas adaptações de seus contos).
Nesses seus últimos anos, Bukowski está casado com Linda Lee e não se nega pequenos prazeres
que a fama lhe garante. Apesar disso, sua verdade, aquela que fez dele um mito, não se perdeu,
basta ler o diário. Só que aqui, ao invés de beber para acordar todo dia sobre latas de lixo,
cria nove gatos e relaxa numa piscina de hidromassagem em seu jardim.
Iupizou-se, o velho safado? Não. É o repouso do guerreiro e um armistício com a síndrome da
autodestruição a qual se dedicava de "copo" e alma.
A idade e a proximidade da morte trouxeram mudanças: "O que preciso agora é mais sutil,
mais invisível... Ainda preciso de um trago. Mas agora estou em nuanças e sombras... Minha
competição é só comigo mesmo: fazer direito, com poder, força, deleite e risco. Se não,
esqueça... Estar perto da morte é energizante."
Mesmo por cima da carne seca, ele ainda recusa os salões e badalações. Prefere o hipódromo,
onde as pessoas são cinzentas: "A multidão do hipódromo é o mundo em tamanho menor, a vida
lutando contra a morte e perdendo."
Como em todos os seus escritos, o humor permeia as narrativas banais ou boçais deste diário,
sempre num estilo muito próprio: "O Natal está chegando como um arpão." E tudo ilustrado
por Robert Crumb, um verdadeiro brinde.
Comemorar os dez anos da morte do velho safado lendo seu diário ou qualquer de seus textos,
ou ainda sua biografia, lançada em 2000 pela Conrad, parece ser-lhe o melhor dos tributos.
(Ofeliano)
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