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Brinque e Cresça Feliz
Haroldo P. Barboza. Editora Kroart. Rio de Janeiro, 2003.
Conheci Haroldo P. Barboza via Internet,
compartilhando espaço em várias Listas de Discussão
Literária, onde expõe seus textos criativos desde
poemas até debates envolvendo problemas brasileiros.
Poeta dos bons e militante político dos mais éticos,
comungamos idéias afins ou discutimos assuntos
divergentes, e Haroldo me surpreendeu quando mandou-me
pelos Correios os originais deste seu livro Brinque e cresça feliz,
pedindo que eu fizesse a Apresentação.
O livro revelou-me o lado desconhecido de um amigo
distante sobre o qual pensava saber tudo. Na verdade,
foi uma agradável surpresa encontrar nesse Haroldo um
menino alegre e brincalhão, preocupado com o bem-estar
das crianças e tentando tornar-lhes a vida mais
agradável.
O livro "Brinque e cresça feliz" de Haroldo P.
Barboza, resgata as brincadeiras infantis, algumas já
esquecidas pelas gerações de hoje, cujas crianças
estão sentadas diante do aparelho de TV, ou ligadas em
games, onde a violência toma o primeiro lugar, na fila
dos objetos plásticos, que substituem a capacidade de
criticar. Se é verdade que em toda casa de família há
sempre um cantinho alegre que a criança elege para
compartilhar o mundo consigo mesma ou com os amigos de
seu coração, é justamente esse esconderijo que Haroldo
vai descobrir como palco onde é possível sentar e
brincar.
O tema "brincadeiras infantis" enfocado no livro,
era-me totalmente desconhecido sob forma didática, até
ser tocado por Haroldo, que me obrigou a pesquisá-lo
em bibliotecas públicas, onde encontrei obras raras,
fora do mercado, verdadeiras jóias do folclore
universal e dos costumes num Brasil, onde as crianças
trazem o samba no pé, desde o berço, e a música no
sangue, herdeiro de um país rico em manifestações
culturais, que desafiam a miséria social do seu povo.
Brincar é a principal tarefa das crianças. Se não há
espaço para brincar elas inventam um. Na sociedade
consumista as crianças são levadas a valorizar
produtos industrializados, desconhecendo nas grandes
cidades a capacidade que têm de criar seus próprios
brinquedos a partir de objetos recicláveis. O
principal objetivo do livro é ensinar a crianças e
adultos que o sofisticado jogo de boliche, por
exemplo, com objetos profissionais, surtiria o mesmo
efeito, se fosse montado com garrafas de plástico
vazias derrubadas por uma pequena bola, em animada
competição, organizada a partir da comemoração
natalícia, num exíguo apartamento. A falta de pião
convencional, por outro lado, poderia ser preenchida
por um cartão redondo, com um furo no meio, onde se
introduz um lápis, e esse pião doméstico, feito com
material reciclável, alegraria do mesmo jeito que o
outro, original. As crianças envolvidas nessa
brincadeira encontrariam, portanto, dupla satisfação:
na fabricação do brinquedo, e na saudável competição.
Pesquisando sobre que Haroldo desenvolve tão bem no
seu livro, vim a saber que a arte de brincar ganha o
nome de "parlendas" e que estas se subdividem em
"brincos", "memonias" e "parlendas propriamente
ditas". "Brincos" são versos ingênuos (sem música):
"Palminha de Guine / pra quando papai vier..."
"Memonias" são versos recitados no sentido de ajudar a
criança a aprender algo: "Um, dois, feijão com arroz /
Três, quatro, está no prato / cinco, seis, galinha
pedrês...." Enquanto os "brincos" e as "memonias" são
brincadeiras de iniciativas de amas, mães, pais e
outros adultos, para distrair crianças de tenra idade,
as "parlendas propriamente ditas" são de iniciativa
das próprias crianças de todas as idades. Exemplos:
"Macacão dendê / quero ver perder". (gritos da torcida
para quebrar a resistencia dos adversários nas
competições). "Macacão dandá / quero ver ganhar".
(gritos da torcida para estimular os jogadores aliados
nas competições). Também estão classificadas neste
item as brincadeiras de "cobra-cega" (ou "cabra-cega",
como se diz no nordeste brasileiro), "quebra-panela"
(muito comum em todas as partes do Brasil), entre
outras.
Além das "parlendas", são considerados brincadeiras
infantis os acalantos, as adivinhas e as cantigas de
roda. O livro de Haroldo é uma recriação do que a
imaginação infantil pode fazer para resgatar o passado
e reinventar o futuro, destina-se a educadores de
todos os níveis. Seu conteúdo pode ser utilizado em
escolas de ricos ou pobres, em mansões ou barracos, e
em festas infantis realizadas em locais públicos ou
residenciais. É portanto uma obra abrangente, de
interesse geral. Quem primeiro se preocupou em
resgatar nossas tradições orais foi um compositor
genial chamado Villa Lobos, colocando no papel as
pautas das músicas cantadas pelas crianças nas
brincadeiras de roda. Câmara Cascudo transportou essa
preocupação para outros níveis, pesquisando nossas
expressões culturais - na linguagem, na cozinha, nos
costumes, nos folguedos e nas brincadeiras infantis -
registrando-as numa obra monumental que ficou na
História. Matemático e Analista de Sistemas
informatizados, Haroldo P. Barboza empresta ao
trabalho sua condição de Poeta, presente em reflexões,
que enriquecem a obra.: "Trabalhei trinta anos com
computadores. Mas sei que o equipamento mais
importante é o Coração". "Quatro caixas de fósforos
vazias, engatadas, podem virar um trenzinho que
realiza fantásticas viagens pelo mundo maravilhoso da
imaginação". "Faça uma criança feliz para que o mundo
tenha mais esperança". "Somente uma geração de
adolescentes de bom coração pode salvar nossa Nação".
O que ele chama humildemente de "manual de
entretenimento", para mim é um trabalho grandioso, que
se soma ao iniciado pelos Grandes Mestre, que agora
tem continuidade.(Maria José Limeira)
Contato com o autor: hpbflu@terra.com.br
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