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26.09.2004
Roda Mundo: a antologia que pode dizer o nome
Silas Corrêa Leite
Sempre fui a favor das Antologias literárias em geral, eu mesmo um participante de várias delas,
em regime de cooperativas ou até mesmo como simples convidado, inclusive no exterior, como as do
Instituto Piaget (Portugal), Cristhmas Anthology (Estados Unidos), Antologia Multilingue de
Letteratura Contemporanea (Itália) e Poesia Sempre (Edição 500 Anos do Brasil) MEC-Fundação
Biblioteca Nacional, entre outras tantas, oficiais ou marginálias, desses brasis gerais e os
seus plangentes criares periféricos por atacado.
Toda abelha-rainha sonhadora, ou abelhudo-rei, digamos assim, que se propõe a juntar poetas
inéditos e-ou neomalditos (ah essa safra contemporânea brasileiríssima) merece respeito, carinho
e admiração, porque formar uma colméia de elos a partir de um verdadeiro clube de egos (e
núcleos de abandonos editoriais) não é fácil. É preciso cara limpa e muita coragem, além do
conhecimento de área.
E só gente nobre topa a empreita, a toleima, o desafio desse quilate, garimpando em tantas
jazidas novas, puras e valiosíssimas letras livres.
Acho que, juntando poetas, contistas, cronistas, memorialistas, contadores de causos, você
vai dando um acervo histórico de lastro ao que sabiamente já apregoou o francês Rimbaud, de que
todo artista deve ser antena da sua época. É por aí.
Eu mesmo já fui sondado por editoras de fanzines e mesmo fora do eixo Rio-SP para ser
coordenador de uma ou outra antologia de minorias, e só recusei às vezes por absoluta falta de
tempo û ah a sobrevivência - mas, de presto, ao meu jeito e com o meu modus operandi, dei o
fermento de minha contribuição, divulguei em nichos, indiquei nomes preciosos, criei títulos
interessantes, sugeri eventual desenho de capa, tal o amor por essa resistência literária, a
verdadeira vox do povo, o brado retumbante dos que escrevem com talento, e ainda a magna coragem
de nadar contra a corrente do falso mercado editorial, sempre com seus suspeitos livrecos
pseudo-popularescos trazidos do exterior a preço de banana, mas que não acrescentam nadica de
nada a historicidade crítico-criativa nacional, culturalmente falando também.
Como um mambembe produtor lítero-cultural no reino da web, ainda inédito em livro solo de
ficção, atrás de um mecenas (ou anjo-da-guarda) com um projeto inédito aprovado( e empacado)
pela Comissão 450 de São Paulo, apesar de vários prêmios, com bom currículo e até um livro
pioneiro, inédito e de vanguarda que fez até algum sucesso ocasional na mídia como e-book (livro
virtual) no site
www.hotbook.com.br/int01scl.htm (O Rinoceronte de Clarice), fico chateado
quando vejo parte da mídia veicular edições impressas de livros inócuos do Hosmanny Ramos, do
Ratinho, da Simonny, do Derico, enquanto muita gente talentosa cria à míngua, pois as editoras,
em geral, na verdade não têm pessoal capacitado para bem julgar, com competência avaliar, até
porque vários escritores mundiais de renome tardio só foram lançados depois de mortos; muitos
foram recusados por editoras convencionais, ficando a prova peremptória de que tentar sempre,
correr atrás o tempo inteiro, sonhar com dinamismo, ser determinado e com estilo, faz parte do
cultivo das hortênsias poéticas ou das groselhas pretas das prosas humanizadas.
Assim, penso que cada Antologia, seja ela como for, caseira, sazonal, multinacional ou mesmo
bancada por eventual Ong ou órgão público, é sempre uma bendita janela para o céu, um
respiradouro de almas, um solário de líricas que fundam a sensibilidade, a magia do tear poético
em proveito social, o curtume ainda sensorial desses tempos insanos de muito ouro e pouco
pão.
Cada antologia é uma porta que se abre, um cofre aberto para Deus; banca um tijolo na
própria construção da busca individual que seja por méritos próprios, faz-se andaime para
arquiteturas maiores, a obra perfeita, a edição, o sucesso que, claro, não acontece por acaso.
Há um Deus.
Foi mais ou menos isso o que eu captei quando recebi via e-mail o release do Editor Douglas
Lara, da Manchester Sorocaba, sondando-me para estar na Antologia Roda Mundo, Roda-Gigante
(Editora Ottoni), que acabou û sorte nossa û internacional, com gente criativa de quatro
continentes, o que nos envaidece, e premia o talento e a visão do editor e o produto final da
editora enquanto mercadoria-livro.
Honra e orgulho de quem abriu essa estrada de tijolos amarelos, para nosotros que queremos o
palco iluminado para mostrar nosso chão de estrelas em infames tempos de neoliberalismo
globalizador inumano e aético, com suas riquezas injustas (São Lucas) e lucros impunes (Millôr
Fernandes). Aleluia.
Faz escuro mas eu canto, disse um poeta.
É preciso que a emoção sobreviva, disse outro.
Tudo vale a pena, quando a alma não é pequena, frisou um outro ousado lusonauta da península
ibérica que, pra mim, sendo o maior poeta do mundo, só foi lançado depois que faleceu (de
cirrose, por causa do diário vinho do Porto), e ainda assim, cem anos depois é estudado com
cautela acadêmica, admirado como referencial, completo por inteireza de lucidez, a persona do
Fernando Pessoa e seus heterônimos-ele-mesmo.
Se houvesse tempo e espaço para uma, vá lá, antologia desse naipe na terrinha-mãe, talvez
Fernando Pessoa tivesse o reconhecimento antecipado, o jeito todo especial de ser valorado,
além de ser salutar e importante em sua usina de criames com espiritualidade lírica fora de
série.
Está feito: esse é o papel da Antologia. Trazer à tona o filão rico de nossos criadores que
teimam, cismam, reinam e fecundam idéias e ideais pelai. Não é a primeira Antologia do Mestre
Douglas Lara (como respeitosamente o chamo), certamente não será a última, outros canais virão,
novos tempos trarão outras visões, novas lutas nos engrandecerão enquanto trupes, pois lá
estaremos com a sua soma, juntando elos em versos e prosas, porque, afinal, como bem cantou
Caetano Veloso û Caetanear, por que não? û Gente é Para brilhar...
E a Antologia Roda Mundo, Roda-Gigante, fundou esse propósito, ornou-se dessa gala, e assim
somos vitoriosos todos nós que acreditamos que o sonho não acabou como disse John Lennon, mas
que, verdadeiramente o estamos tecendo dia após dia; página após página de rosto, de coração
para coração, como se um mosaico de tributo à vida; de inteligência criativa, pois, afinal,
escrever é a nossa mais doce transgressão, a nossa mais valiosa rebeldia, em contribuição à
causa de ler para ser, ler para ter, ler para também estarmos com o arco-da-promessa dentro do
pote de ouro, quando for o leitor interessado em prosopopéia & aventuras líricas, buscar seu
arco-iris.
E depois, falando sério, como digo num poemeto "Deus deve amar os loucos/Pois criou tão
poucos...".
E o poeta é sim, como a cana: mesmo pisado, ralado, posto nas moendas das vicissitudes,
ainda assim resiste e dá açúcar-poesia.
Habemus Douglas Lara.
Ave Douglas Lara.
Os poetas-saúvas te saúdam.
A benção, Mestre!
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