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28.10.2004
Retratos Reunidos na Poética de Antonio Miranda
Silas Corrêa Leite
Um amigo é um tesouro. Até mesmo um virtuoso amigo virtual. Um livro de poesia vale ainda mais
que ouro. Se for presente de um escritor de porte, então, a honra é nossa. Pois Antonio Lisboa
Carvalho de Miranda û esse é o nome û me mandou graciosamente o seu precioso livro chamado
"Retratos & Poesia Reunida", bancado pela Editora Thesaurus. E deliciei-me. Originário das
plagas do Maranhão, mas cidadão do mundo que me faz lembrar um Carlito Tropical, Antonio Miranda
pervagou por esse mundão sem porteiras, tornou-se mestre em Ciência da Informação e doutor na
área, sendo catedrático na Universidade de Brasília, onde por certo ancorou o facho e testemunha
deslizes de majestades liberais. Nesse corre-mundo, escreveu romances, novelas, contos, teatro,
tendo onze edições em português e espanhol. Nesse obra, ôRetratos...ö o autor respiga poemas de
sua safralavra, é realista, coloquial, questionador e aqui e ali até mesmo alírico, a palo seco,
como bem o registra o crítico Xavier Placer. Faz poemas para Borges, Calvino, Kavafis, Malthus e
Affonso Romano de Santana, destrincha falatórios-poemas de ótimo nível, culto e grasso. Seu
verbo-veia flui, sua poética move quadros-cinéfilos com óticas que rastreiam o ser e a
imperfeição do ser. Agnóstico, transcendente, destila-se e debulha a dor perolizada, a perversão
social do humanus e suas mazelas. Vai fundo no seu bisotê-estético em rompantes de amarguras e
desamparos auto-estigmatizados. Uma coletânea de poemas-vivênciais, pirambeiras sem rimas,
miosótis delicados, feito mesmo um mosaico de despojos residentes como lampejos de avaliar seu
tempo tenebroso. Ai de si! O labirinto do desespelho. A transição do desvendamento. Um poeta com
surto-circuito, inquieto e arredio, a rodar seu maquinal Super Oito nos versos ferrenhos.
Pesando estimas. A afirmação da negação, no liquidificador das idéias mirabolantes que saem
biscoitos finos. Ave Oswald. Pós-oswaldiano? Possa ser. Cita com propriedade de estirpe de
Mallarmé a E. Cummins, de Bilac a J. G. De Araújo Jorge ou Maomé, não sabendo no que se
re-colhe ou se reconhece cara a cara ipsis-literis. Poesia pura. ôRetratosö são rios perdidos
nas margens plácidas de requebrados retumbantes, relembra, reformador, lavrando pós-memórias na
geografia dos inválidos e suicidas. Fala de Dante, de Mazzaropi, o seu lambe-lambe é o divino
close do olhar mágico/trágico nas aparências de enganam.Transgride com estilo. Toca o indizível
sem retoques. Qualquer que o conhecesse assim, inteiro e completinho da silva, jóia rara, sairia
bem esgotado de tantos signo-ficantes. Gostaria de ler toda a sua obra para me dar por
satisfeito. Será o impossível? Como é que pode tanto? Vá saber. Tudo a ler. Li-o e vi-o quadro a
quadro, porta-lapsos. Olho no lirial. A mão que balança o verso, no avesso do haver-se, na
avenca dolorida, no ôntico timbral, pan-concreto e meio auditor do circo dos horrores (entre a
banda dos contentes) que é o vinho-verbo dos vícios-clips de sobre/sub-Viver. Taí. Às vezes
lírico, sim, noutras narrativas, viscoso, escorregadio para gáudio da poética propriamente dita.
Delírios? Uma coreografia de olhar perene; sua poética de sangue cênico? Benza-Deus. Às vezes
realista, noutras vezes saudoso-romântico, querendo refazer o mundo de si para si, vai tocando
seu fado-algoz, nas retratanças do ser que lhe cabe nesse latifúndio. Arde e geme os versos de
fogo-fáctuo. Recolhes de quando era (e é) criança-jovem-adulto (as paredes das memórias)
ator-dramaturgo de olho no desmundo. Quase um desmanche de si para ver-(ter-se). A poesia seria
a ossatura-pandora de sua alma caramelo-peregrina, ou um mero carnegão de seu
múltiplo-em-si-mesmo? Vá saber. Ele é ator, midiático, portanto. Todos os olhos, todos os
olhares, prismas e revelações. Multi-meio. Todas as tormentas. O livro, só um mero e ermo palco,
feito um não-lugar para não ser? Numa dialética de pardal em desconstrução de alicerce
imagéticos em monólogos. Que ele recompõe, retoca (retoca-se?), gota a gota, como um Goto,
esperando Godot. Tomo a tomo, sem ser átomo. Palco a palco. E seus cantares viscerais sem plano
de fundo. Catarses sem Cartazes. O jogo de cena no olhar buscando as coxias da alma sovada em
tralhas tortas? Às vezes sai-se de cena quando escreve, residente nesse mondo cane feito um
gárgula entre palhaços liberais e palácios de podres poderes que achincalha muito bem. Paisagens
na janela. Decotes do ser-se de si. A consciência do belo e do crível. A inércia da demanda, a
fragrância do corpo exalando a louvação-coivara: poemas vinagres. Ora Cardenal, ora Gardenal ou
Comital û quem sabe o dezelo íntimo do palco-íris do arquivo neural e um refluxo recorrente de
códigos legados pelo DNA talento-produção? Lendo Antonio Miranda, você se surpreende a cada
página (de rosto?) e, sim senhor, sonha seu diário de clássicos como rascunhos de manga-rosa.
Ou, vá lá, pesa: alguém assim tão producente não existe. Existir é resistir? A que será que se
destina? Viver é lutar? Olha o poeta. Só pode ser talento puro. Pois é. Ele inventa o que é
real. Pode? Toma a realidade û às vezes lembra en passant Clarice Lispector se fosse fazedora de
bioversos û e o que encilha é existência, havência que seja. Feroz? Mordaz? O livro que o reúne
sem sextante, é retrato fiel de si, quase que um filme-mundo-da-caverna (Platão) em alguma cilha
de sua alma nau. Antonio oficineiro é macaco velho de entalhes-engastes de existir, tirando a
polenta que desandou da alma para revelar-se no ocultismo tácito das idéias pegajentas mas ainda
assim mirabolantes, polivertentes. E dá-nos o seu melhor nessa espécie de antologia de andanças
evolutivas. Faz jornal, teatro, improviso de jazz etílicos nos poemas, e ainda fez sucesso nas
minhas releituras de vislumbres indeclaráveis. Um poeta como esse era para ser parado na rua e
chamado de fabulário, encantador de serGentes, ventríloquo xadrez, montanha azul, identidade do
abstrato, código do absinto e vai por aí a peleja-macadame. O avesso do avesso do avesso. Como
Drumond, Balzac, Lorca, Almodóvar, Antonio Miranda, esse totum top era para ser pop. Tem
parceria com jazidas, tem parecenças com quilate ideais. Leiam-no a sós como um fósforo
enlivrado, esquisitos de si mesmos, esquecido de serem seres, quesitos de vaidades à parte, e
tenham piedade dos registros em preto e pranto, os maravilhosos 3 X 4 dele. Os veios justificam
os filmes-poemetos. No Caso de Antonio Miranda sim. Fiquei lanterninha de carteirinha de seu
cinema-mundo. Não apaguem a luz que o flash ainda dói. Olha o passaredo. Clic!
Livro: Retratos & Poesia Reunida
Autor: Antonio Miranda - cmiranda@thesaurus.com.br
Thesaurus Editora - editor@thesaurus.com.br
Edição 2004 - www.thesaurus.com.br
Fone: (61) 344-2353
Endereço: SIG Quadra 8, Lote 2356
70610-400 - Brasília-DF
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