Samsara,
França / Índia / Itália / Alemanha, 2001.
Com SHAWN KU, CHRISTY CHUNG, NEELESHA BaVORA, KELSANG TASHI,
LHAKPA TSERING, JAMAYANG JINPA, SHERAB SANGEY, TSEPAK TSANGPO, NORBU DOLMA, SONAM GYATSO,
TSEWANG DORJE, TENZIN NORBU, TENZIN TASHI.
Música: CYRIL MORIN.
Montagem: ISABEL MEIER.
Co-produção: REINHARD BRUNDIG, MARC SILLAM.
Desenho de produção: PETRA BARCHI, AMARDEEP BEHL.
Fotografia: RALI RAL CHEV.
Produção: KARL BAUMGARTNER, CHRISTOPH FRIEDEL.
História original: PAN NALIN.
Escrito por PAN NALIN, TIM BAKER.
Direção: PAN NALIN.
Estréia no RJ: 11.04.2003.
Sítio oficial: http://www.samsarafilm.com
Sinopse e comentário.
Drama. Após passar 3 anos meditando sozinho numa caverna, o jovem
monge Tashi é finalmente levado de volta ao mosteiro do qual faz parte. O avançado estágio
alcançado durante a meditação (que rendeu-lhe honrarias), no entanto, não parece trazer para o
monge a iluminação ou a paz interior. Visitado por freqüentes sonhos eróticos, Tashi acaba se
envolvendo com Pema, camponesa num vale próximo, com quem passa a noite. Mas a experiência, que
deveria tranqüilizá-lo, só o deixa mais perturbado, e ele acaba resolvendo-se por deixar a
disciplina monástica. Em sua nova vida, Tashi vai trabalhar justamente na colheita do pai de
Pema, e do reencontro com a camponesa a paixão ressurge. Casam-se, ela engravida, e ele se
torna um agricultor com o sogro, a quem ajuda descobrindo a fraude de um comprador, e sugerindo
que a colheita seja levada à cidade, para ser vendida por melhor preço. Assim, o ex-monge
experimentará as sensações da vida mundana, conhecerá a inveja, a cobiça, a traição, verá sua
vida em perigo e se envolverá com outra mulher. Até chegar a notícia da morte de Apo, o monge
que foi seu mentor e que teria deixado-lhe, em carta, a pergunta: "O que é mais importante,
satisfazer mil desejos ou conquistar apenas um?"
De acordo com Maria Sílvia Camargo, que escreveu sobre este filme no
sítio Criticos.com.br, Samsara é "o aspecto mutável, fragmentado e, por isto mesmo, ilusório,
do mundo material". A vida mundana buscada e vivenciada por Tashi seria, assim, uma manifestação
desse aspecto, algo irreal e instável em oposição ao mundo espiritual. O sexo que tanto
atormenta o monge é objeto de degradação, como se vê nas ótimas cenas do monge mais velho
mostrando os desenhos eróticos que se modificam quando vistos contra a luz. Tashi sabe disso, e
mesmo assim deixa para trás os preceitos budistas. Alega que o próprio Sidarta, antes de
conhecer a iluminação e tornar-se Buda, por 29 anos teve uma existência mundana, e que mesmo o
budismo diz que é preciso desaprender para poder aprender, e possuir para ter a que renunciar.
É como se Tashi virasse outra pessoa. O próprio cão que o acompanha não
o reconhece, e o abandona. Nem os habitantes da casa onde vai trabalhar lembram-se de sua
recente visita. Só Pema, a lindíssima Pema, o identifica. Retratado com uma desconcertante
delicadeza que, no entanto, não lhe tira a intensidade, o amor dos dois parece real e duradouro
como o filho que traz ao mundo. A vida em família, o trabalho na plantação, o ciúme do ex-noivo
de Pema, os transtornos com o comprador corrupto, a sedução da mulher mais jovem, tudo parece
fazer parte de um processo natural que Tashi aceita. Em nenhum momento o vemos reclamar da vida
ou da sorte, como faz, por exemplo, o sogro. Mas o conflito (verbalizado poeticamente na
pergunta "Como impedir uma gota d’água de secar?", que o monge vê inscrita numa pedra), no
entanto, ainda que recrudescido, permanece e virá à tona.
Em sua estréia na ficção (anteriormente só realizara documentários), o
diretor / autor indiano Pan Nalin fez um filme rico em contéudo, e surpreendente na forma.
Samsara tem a narrativa lenta e contemplativa dos filmes orientais, mas entre os
significativos instantes de silêncio o filme aborda, sem jamais tornar-se exaustivo ou maçante,
questões de fé e religiosidade, de tradição e de costumes. Chama a atenção dos espectadores
ocidentais com imagens (a fotografia é de uma beleza aterradora) que nos causam estranheza,
como a punição sofrida por Pema pela noite passada com o monge, as paisagens arrebatadoras das
montanhas do Himalaia, ou o curioso choque cultural quando Tashi vai à cidade - onde vemos uma
loja com o anúncio, em inglês mesmo, de "Internet Access". Brinca com a passagem do tempo na
seqüência do nascimento do bebê, e ainda provoca furor na inventiva cena de sexo entre Tashi e
a jovem Sujata. Seus personagens encantam pela expressividade, e emocionam em cenas como a do
final, durante e após o diálogo entre os dois protagonistas, onde acaba-se discutindo a condição
feminina na história de Yashodara, a esposa que Sidarta abandonou com o filho, quando foi
encontrar a tal iluminação. Samsara é filme que comove pela sensibilidade que parece tão
fácil atingir, e que mesmo assim vive fora de nosso alcance.
(M.L.)
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