The Kid Stays in the Picture,
EUA, 2002.
Documentário.
Narração: ROBERT EVANS.
Música: JEFF DANNA.
Fotografia: JOHN BAILEY.
Montagem: JUN DIAZ.
Co-produção: KATE DRIVER, CHRIS GARRETT, SARA MARKS.
Produtor associado: CHRISTOPHER J. KEENE.
Baseado no livro de ROBERT EVANS.
Adaptação: BRETT MORGAN.
Produção: NANETTE BURSTEIN, GRAYDON CARTER, BRETT MORGAN.
Direção: NANETTE BURSTEIN, BRETT MORGEN.
Estréia no RJ: 15.08.2003.
Sinopse e comentário.
Documentário abordando a carreira de Robert Evans, produtor
norte-americano de cinema que na década de 1970 recuperou da falência os estúdios Paramount, e
que em seu auge viria a ser conhecido como "o rei de Hollywood". Descoberto em 1956 pela atriz
Norma Shearer, que ao vê-lo banhando-se na piscina de um clube o convidou para estrelar O
Homem das Mil Faces com James Cagney, o até então empresário do ramo de roupas femininas
tornaria-se famoso, principalmente ao cair nas graças do todo-poderoso produtor Darryl F. Zanuck
e descobrir que seu destino era a produção de filmes. Ambicioso e arrogante, logo seria
contratado pelo então pequeno estúdio Paramount, recém comprado pelo executivo Charles Bluhdorn,
de quem Evans se tornaria amigo. Sempre brigando com chefes de estúdio e diretores, o novo
produtor conseguiria transformar em grandes sucessos filmes de realização problemática como
O Bebê de Rosemary, O Poderoso Chefão e Chinatown, além de ser o
responsável pelo grande sucesso de Love Story, que ainda lhe jogaria nos braços o grande
amor de sua vida, a estrela Ali McGraw, com quem se casaria e por quem seria abandonado (McGraw
acabaria trocando-o pelo ator Steve McQueen). Alçando a Paramount ao topo dos grandes estúdios
e tornando-se um dos mais poderosos produtores de Hollywood, Evans iniciaria sua decadência ao
envolver-se com as drogas, que levou-o não apenas a ser preso, mas a ter o nome associado ao
assassinato de um amigo. O escândalo lhe fecharia todas as portas, e a perda da mansão Woodland
seria a gota d’água a causar forte crise de depressão que o levaria a internar-se num hospício.
"O garoto fica no filme, e se alguém não estiver satisfeito pode ir
embora". Mais do que dar o título original a O Show Não Pode Parar, foi a frase de
Darryl F. Zanuck (defendendo o jovem Robert Evans durante as filmagens de E Agora Brilha o
Sol) que empurrou para trás das câmeras o ator novato e o transformou em produtor.
Arrogante e ambicioso, a Evans interessava o poder de tomar decisões, de tirar e colocar num
filme quem ele bem entendesse e de dar à obra o rumo que quisesse. Envolvia-se intensamente na
realização de filmes, fazendo questão de mostrar isso. Em entrevista, fala de sua importância
na realização de Chinatown, maior até do que a do diretor Roman Polanski: "Polanski
trabalhou apenas seis meses no filme, eu trabalhei três anos". Também teria sido ele o
responsável pelo sucesso de O Poderoso Chefão, em que exigiu de Francis Ford Coppola (a
quem se refere como "o príncipe") que esticasse o filme. "Você me prometeu uma saga, e me deu
um trailer", teria dito ao diretor.
O próprio Evans diz, logo na introdução do filme, que para todos os
fatos "existem três versões: a sua, a minha e a verdadeira", e todas devem ser aceitas. O
Show Não Pode Parar é baseado em livro autobiográfico de um homem vaidoso, que não hesita
em alimentar o mito em torno de sua imagem. Dono de talento inegável e realizador de filmes de
sucesso tanto junto ao público quanto à crítica, gostava de correr riscos, como o fez durante as
filmagens de O Bebê de Rosemary (ainda novato, encarou tanto os chefes de estúdio quanto
o poderoso Frank Sinatra, que queria sua esposa Mia Farrow fora das filmagens a tempo de
terminar o filme dele), e ao convencer toda a diretoria a não fechar a Paramount,
prometendo-lhes grandes sucessos por vir. Acreditava, ao contrário do que se vê hoje em dia,
que nenhum filme sobrevivia sem um bom roteiro, por isso estimulava escritores que lhe
apresentassem idéias que pudessem render boas histórias. Não é à toa que exerceu tanta
influência e conquistou tantas amizades, de Jack Nicholson (responsável por Evans recuperar a
mansão de Woodland) ao secretário de Estado Henry Kissinger, que mesmo durante a guerra do
Vietnã compareceu a uma estréia ao lado do produtor. Após a separação de McGraw, com quem teve
um filho, passou a viver rodeado de mulheres, chegando a ser considerado "um dos dez mais
cobiçados solteirões de Hollywood". O contato com as drogas, e os seguidos escândalos, viriam
acabar com a festa. Tanto diminuiu-lhe a inspiração (o primeiro grande filme desta nova fase,
Cotton Club, foi um fiasco em todos os sentidos) quanto abalou-lhe o prestígio. Mesmo
quando recuperou-se, retornando à Paramount depois de anos, jamais foi o mesmo, o que se pode
ver por suas últimas produções: Invasão de Privacidade e O Fantasma.
Ainda que delicioso na forma, o documentário sobre Robert Evans não
procura mostrar nenhuma outra visão de seu biografado, além da que ele possui de si mesmo. Não
se aprofunda nas questões financeiras que levaram o diretor a exigir participação maior da
Paramount (e que o faria tornar-se um diretor "independente", contratado da empresa) e que
permitiriam sua posterior recuperação, nem colhe depoimento algum de terceiros. É filme para
aficcionados em cinema, que se encantarão com os diversos trechos de clássicos dos anos 1960/70
e imagens de bastidores. O recurso dos efeitos especiais sobre as fotografias dá maior dinâmica
ao filme, adicionando dramaticidade à narrativa. Mas a melhor descrição de Evans aparece ao
final, durante os créditos, no hilariante improviso de Dustin Hoffman durante as filmagens de
Maratona da Morte, em que imita Evans. A seqüência inteira é impagável, e mostra um
Evans obcecado com o trabalho, a ponto de sequer conhecer os detalhes anatômicos do próprio
corpo, e suas relações com a política ("Peço-lhes que votem no Presidente Warren Beatty para
a reeleição", diz o ator, falando muito sério e rapidíssimo).
(M.L.)
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