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Desvairados Inutensílios
Silas Corrêa Leite



um homem arrasado carrega um enorme cofre às costas. a sua própria natureza

   
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    uma vez tive vontade de me matar. depois escrevi-me. até hoje ninguém reparou a prova do crime em sangue nas minhas mãos quando faço poesias

   
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    os exércitos são demônios de sombras abismais

   
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    hoje eu me estou muito hidrante

   
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    arvores para lenhas são pessoas que mataram a mãe a machadadas

   
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    uma vez eu vi um grito: ele era empalavrado de vento-coisa

   
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    coloquei areia-díesel na caixinha de pó-de-arroz estrangeiro de minha irmã Erzita

   
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    no dia de todos os santos choveu azul xadrez

   
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    uma vez vi um chicote queimado no lugar do rabo de um tatu feito prato principal

   
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    quem inventou a memória, azedou a polenta da vida

   
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    quando estou muito triste, eu fico de pé perante Deus e coço a bereba da consciência

   
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    é da natureza humana ficar longe da morte. o passado

   
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    uma vez ganhei na loteria da sorte grande: li Fernando Pessoa

   
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    cobra já foi língua de traidora amante ruiva

   
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    uma vez achei uma bolinha de gude no miolo de uma jabuticaba vesga

   
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    miolo de fechadura queria ser lápis de São José Carpinteiro

   
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    pelanca de anta obesa serve de tobogã pra mosquito-curumim

   
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    o universo todo é só parte de um neurônio de Deus

   
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    mães são flautas do sol

   
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    existir é pular carniça com na pandimensão do cosmo

   
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    fazer poesia é pôr a alma no cuorador de oxigênio espiritual do etéreo

   
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    a morte é hermafrodita

   
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    canivete são línguas de mancos sapos pegajentos promovidos a eternos

   
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    laranjas têm ferrugem porque o sol ficou com ciúme das cheirosas grinaldas brancas anunciando frutos

   
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    uma vez vi um pássaro que não existe

   
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    a grávida, aleijada de uma perna só, em frente ao mar espera a meia estação

   
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    barco encalhado é minha assinatura presencial em qualquer lugar do mundo

   
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    espiritualmente o ser humano é um tiranossauro terrestre

   
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    escrevo porque não sei me matar

   
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    infernos sãos os livros: limam, purgam e decantam nossas serventias

   
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    figos maduros têm zíperes de açúcar cristal

   
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    uma vez fui a um baile de fantasmas: eles ficaram com medo porque eu era o único

   
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    durante um mês inteiro, fiz regime para emagrecer: perdi 30 dias

   
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    colabore com as autoridades: cometa um crime perfeito

   
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    há muitos séculos fui ilha e me apaixonei por uma Gaivota. os oceanos ainda choram o sal de nossa impossibilidade

   
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    a urina é o vinagre do corpo

   
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    escrever é domínio de butim fantasma

   
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    acompanhe a maioria. ande sozinho

   
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    em terra de cego, quem tem olho vai a deriva

   
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    o mundo acabou. apenas os loucos, os poetas, as crianças, as grávidas, os engolidores de fogo, os fabricantes de bonecas e o dono do Circo de Marionetes é que não foram avisados

   
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    escrevi um poeminho tão bonito e cúmplice, que tive vergoinha da nudez precária dele, e deixei-o pendurado num varal. veio um pássaro-flor e levou-o no bico luminoso para encantar uma nuvem-lesma que tinha parado a linha do horizonte, por causa de ciúme de uma estrela do mar que era bailarina cega e tinha cor de zebra e nudez de girafa

   
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    fujam, fujam, fujam - o poeta vem aí com sua demão de incêndios

   
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    sempre fui feio, pobre, simples, triste. por isso mesmo nem me matar valia a pena. então inventei de inventar desvairados inutensilios urbanóides com varizes de palavras

   
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    se não chover hoje de manhã, chove hoje a tarde. e se não chover hoje a tarde, choverá ainda hoje de manhã

   
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    depois do luar cheio, um conhaque e um fado com bandolim e clarineta, só mesmo chamando os nossos filhos de Pais

   
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    se ninguém tivesse inventado a roda e o fogo, ainda assim haveria poemas, porque os poemas são a roda e o fogo desses primatas e ermitões homens sensíveis

   
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    duas coisas em que nunca me vou: meu casamento e meu enterro. do primeiro eu já me livrei sete vezes sete, e no meu enterro vou estar na rósea barriga de uma grávida que ao me receber voltando, terá uma enorme vontade de tomar cerveja preta

   
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    faz tempo que não me encontro comigo. deve ser falta de nau catarineta

   
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    uma vez vi um burro na sombra: era o espelho de minha infância cortada pela metade

   
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    escrever é preciso. viver não

   
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    a vida é só uma compota de neuras entre encantários e pertencimentos

   
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    sempre quis morrer jovem. quero ver se faço isso com uns cem anos

   
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    hoje vi um anjo pedindo esmola na praça 3 poderes. dei-lhe meu olhar e ele se arrependeu de ter sido indicado para repositor do almoxarifado da havência

   
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    se eu pudesse ficar grávido, eu gostaria de gerar um árvore

   
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    hoje finalmente eu me vi no espelho: meu Deus, como eu estou parecido com o que eu não me fiz a partir do que me fizeram de mim!

   
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    sempre quis aprender a tocar piano. como meus padrastos cortaram as minhas mãos, esculpo poemas na parede da memória

   
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    tempestade em copo de água: alka-seltzer

   
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    eu ainda vou conhecer Portugal: e vou me sentir dentro do meu próprio coração

   
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    hoje eu vi um Jesuscristinho de rua sendo abençoado por uma caridade limpa

   
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    tentativas de abismo são fornos carvoeiros na estrada de tijolos amarelos da vida

   
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    as carroças dos séculos carregam sempre a mesma única familia: a raça humana

   
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    quando o mundo acabar, eu volto para itararé






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