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O Espantalho que Vigiava os Presos
Silas Corrêa Leite





    Orlando Tenório Quintais adorava pegar os belos fins de tardes claras para, ao seu jeito tinhoso e recalcado, cabular aulas de suplência e ir fuçar, na marotice, a vizinhança por atacado, com seu gracioso binóculo gringo de último tipo, ganho de largura num Bingo dominical de terceira idade.

    Zelador do Edifício Três Poderes, em Santana, bairro de classe média alta da zona norte de São Paulo, em vez de estudar pra caramba, para, com isso, pular etapas depressinha e pegar logo o canudo da oitava séria - que sempre sonhara desde os idos de antigamente numa horta-de-couve em sua aldeia natal - o lazarento largava o sonho de se formar direitinho e garrava o bendito último andar do prédio onde se escondia num puxadinho mal-caiado, para, jururu que fosse, soltar a franga sondando as acontecências inusitadas do derredor. O céu por testemunha.

    Flagrava de monte. Tinha momentos hilários. De furtos a beijos de línguas do mesmo sexo. De banhas com pneus sob o sol, a assaltos miúdos. De janelas indiscretas a céu aberto, a casos de amantes clandestinos de mala e cuia. Era a sua piração divertida pra mais de metro, seu costumeiro hobby predileto, por assim dizer. Até pensara, o arigó, em escrever um livreto a respeito. Curtia as tardes sósias na sua solidão de lázaro do dianho, se intrometendo aonde nem era chamado ou sabido, e seu belo binóculo de parceria era caro objeto cúmplice, quando, serelepe variava emoções entre casas, barracos, apartamentos, flats, garagens, garupas, taxis e camelôs curiosos da avenida alvissareira do bairro e adjacências.

    Sob sua mira privilegiada, de um lado, as gaiolas do baita quarteirão enorme do presídio do Carandiru. De outro, a encardida estação de metrô. Pras bandas do longe, o chique Clube Espéria ou o fétido rio Tietê. Por outro sondar de soslaio, o enorme Campo de Marte, e, num giro de 360 graus, até mesmo um supermercado, uma churrascaria, ou, ainda, os condomínios altos do morro de Santana, e, ao delongo da mira, num horizonte verdejante, a Serra da Cantareira pra lá dos cafundós do judas.

    Nessa variação esquisita, um dia, sem querer, de passagem e por acidente, mirou uma guarita cinza e solitária, e, num rompante, crítico de si para si, ponderou, en passante, sobre o pobre militar extremamente obeso e queixo caído - que ficava um tempão de arma em punho (feito uma gorda tartaruga ninja) - e que, pobre diabo, sondou de raspão. Vendo rapidamente, no olhômetro, captou tudo isso pelo buraco oval do quadrado lugar de dois metros por dois do espaço alto e limitado por sobre os arcos de uma torre de sentinela, quando teve um tico de curiosidade atiçada. Será o impossível. Matutou.

    Reforçou o olho de lince no alce da mira. Captou bem. Esticou a lente de ótimo alcance ao máximo. Voltou-se. Não acreditou. Ficou aturdido. Presídio de segurança máxima? Brincadeira?

    Dentro da caixa da guarita de cimento armado, um estranho boneco feito espantalho como improvisado e inédito "vigia". Pior: com uma velha vassoura piaçava cega na mão direita mole de tantos retalhos preenchidos de cepilho e serragem. Não acreditou.

    Riu-se. Depois, pôs as barbas de molho. Encafifou. Em seguida, ainda maleixo, sondou o devir, cismando alhures: o quê fazer daquilo que descobrira sem querer, e que malemal cabia em sua cabeça recheada de carapinha amelada? Mal se coube em si.

    Elefante atrás da orelha.

    Ligar para a senhora prefeita? Nem por força. Ela era do ramo dos direitos humanos e iria esbravejar. Ou não? Daria com os burros nīágua. Telefonar a cobrar para o sr governador, se questionou detravessado, feição de lambari na isca?

    O homem estava pelancudo na campanha pela reeleição, competindo com um turco corrupto, não iria querer saber daquela história sem pé nem cabeça, ponderou. Podia sobrar pra ele. Deusolivre. Tinha lá seu calcanhar de Aquiles, ora essa.

    Ligar ao sr. Presidente, o FHNistão, o Pai da Fome? - Minha Nossa! Quem era ele? (Stop: o homem tava lavando os sabugos da saída de um péssimo segundo governo cheio de falcatruas, não iria puxar sardinha pro lado adverso.) Assustou-se: tinha descoberto o ovo de Colombo, pensou, sem saber direito o uso da expressão gratuita que feriu a pelica do delicado momento de sua humildade açodada pelo que vira de perigo.

    Sentiu-se, a bem dizer, do outro lado do binóculo, isto é: pequenino de nada, para saber o que sacara, para dizer sobre o que vira, para espalhar aquilo tudo mesmo que um verdadeiro fato concreto.

    Depois, caindo da pose, caprichou numa espremidinha, tomou um golpe de aguardente com limão, e, finalmente então veio a idéia clara na sua lerdeza de migrante paroara sem lenço e sem documento em terra de lobo comendo lobo.

    Tudo no Brasil era mesmo um teatro de absurdos. Talvez, até, quem sabe, ele mesmo, cândido e solitário, mambembe e passado da conta, fosse apenas um marionete na vida de tantos ridículos circos explícitos.

    Longe de casa, vivendo mal, comendo o pão que o diabo amassou, o que era, afinal?

    Respondeu-se: Um coió, refém da saudade e do medo de estar ali. Era quase que também um espantalho, e, olhe lá se fosse mesmo só isso de ruim, vigiando os tantos especialistas em Nadas...

    Depois, sondou o boneco e ainda quis filosofar, diante da gritante descoberta.

    De alguma maneira, conjecturou, sabe-se lá como, a Prefeita, o Governador, o garboso Presidente poliglota e viajador, eram, todos, na tragicomédia da vida, simples BONECOS manipulados por lidas, mandos, bastidores, agiotas, quadrilhas, máfias, testas-de-ferro, na verdade meros cabrestos em feudos de especuladores da miséria brasileirinha...

    Conformado, de tromba e cara de bisca ruim, mudou logo de mira, o entojado.

    E garrou logo de sondar novamente a boneca de lingierie pink do décimo-segundo andar do Edifício República das Bananas.






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