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Boêmio
Silas Corrêa Leite





    Madrugada em Itararé.

    Nem latido de jaguara cão rueiro, apito de guarda-noturno ou freada brusca de simca chambord de seresteiro.

    Silêncio quase prece.

    Uma meia lua feito delicado sorriso de "miss", dependurada no céu jade de Itararé. Algumas nuvens cãs.

    O cacau quebrado que os paralelepípedos da rua São Pedro representavam, enserenados. Nem alísio porqueira, pirilampo ou bilro cândido de cigarra, grilo estridente ou sapo-martelo "caipora" de fuzarqueiro.

    Um boêmio solitário, encostado no posto de gasolina do Rivadávia, pita ensimesmado. Soturno o boêmio cisma. A fumacinha do cigarro sobe leve como um mero caracol de gelo frágil. O cheiro gostoso inunda a rua deserta, lados do Palácio Vadico. O olhar do solitário Itarareense tem miúdos pedidos de socorro em vão. Um chapéu verde de feltro cru cobre-lhe a cabeça parda. Um paletó de tweed xadrez esconde uma camisa de linho branco e um peito alquebrado.

    Tem a mão direita segurando uma roseira íntima, como se no falso bolso fundo da calça rancheira.

    Com a mão esquerda segura o pito encardido no beiço de saliva com réstia de álcool mal-amanhecido. Procura no silêncio do momento encruado, um aceno de salvação, um pleito de apoio.

    Sabe que não tem mais salvação. Sabe que é chegada a maldita hora. Não tem outra alternativa. Não tinha como fugir de um capricho do destino algoz.

    Poderia ir para a guerra do Vietnan. Sentir literalmente na pele o desfolhante químico Agente Laranja. Poderia entrar para a Legião Estrangeira numa colônia da França.

    Mas não lhe resta um tico de dúvida; um só gomo de indecisão. A sorte está selada.

    As casas Itarareenses ao derredor têm o selo ingênuo da penumbra, e uma parca nuança de abóbora prepara o breve pano de fundo na aurora inda distante, lados do planalto paranaense, depois do rio Itararé que divide o Estado de São Paulo da região sulina.

    Quase meio século de vida livre, na maciota, em zonas de meretrício e "forfés", o boêmio tem o olhar perdido e a barriga já saliente de cervejas e galinhadas com os companheiros de farra.

    Agora acabou-se. Levou quem trouxe! Desacorçoado suspira alhures.

    Resoluto, empacou o definitivo passo naquele entravado momento de contemplação íntima, como se de si para si mesmo. Um ventico de nada sola um chicote queimado de pré-minuano, na acordeona de um arvoredo lados do empório do "Seu" Vitorino.

    Não tem outra saída. Sabia que seu dia iria chegar, mas pensava em adiá-lo infinitamente, se possível fosse, sem medida de tempo ou entrega terminal. Era o desígnio fiel na vida de um boêmio atiçado em berço esplêndido.

    Pensa em assobiar uma guarânia triste. A mente não traz a harmonia pro bico doce. Amuou. Quem sabe deveria se apinchar no "tembé" da Gruta da Santa do rio Itararé? Deixar ali com honra o último suspiro de vida. Quem sabe devia de dar-se um tiro de garrucha no pé do ouvido? O coração repica o floretim transido de um impoluto Não.

    Uma patativa madrugadora faz siricotico com uma corruíra, na telha goiva do armazém de secos e molhados da Dona Lígia Presbiteriana. Uma cigarra temporã estala a matraca repetidora fora de estio. O boêmio sabe que não pode mais perder muito tempo. Nem esperar o sol arrebentar mamonas, depois de despir-se das calças do longínquo horizonte de araucárias. Precisava pegar o jipe, as tralhas que reservara para a ocasião e rapidamente dar no pira. Chispar depressinha.

    O boêmio, com um coturno batido dos tempos do Tiro de Guerra, turma de cinquenta e tanto, pisa o resto do fedido cigarrinho cotó. Vai chamar o vigia ainda atarefado com uma fulaninha traste. Em minutos o boêmio arranca com o jipe verde, lados da Vila Jora, indo nervoso cumprir sua sina. Vai roubar a mulher de sua vida. Forçá-la a fugirem juntos como estavam se comprometendo há anos, para casarem escondidos no vizinho estado do Paraná.

    A guria, sua "mina", recentemente, sem ele saber, e à revelia dela mesma, fora prometida pelo velho pai coruja a um tipo feiçudo, afeiçoado da família e demais de muito trabalhador. E naquele próximo sábado de Aleluia deveria haver a consumação do noivado forçado. Não tinha tempo a perder. O Céu por testemunha. Vai ter que "largar-mão" daquela vida de porcarias notívagas e assumir finalmente a paixão de sua vida. Não iria perdê-la por nada nesse mundo.

    Onde já se viu? A dita zinha era especial. Estaria carecida ainda? (O pai vinha cerceando os encontros rápidos.). Estaria com os belos cabelos encaracolados e com um belo "pega rapaz" feito franja na testa de ruiva sardenta? Não tinha telefonado mais. E as cartinhas apaixonadas cada vez mais raras, curtas, mixurucas. A sogra também era do-contra. E tinha entroncados cunhados topetudos. A última palavra, no entanto, seria a sua. Daria o pira com a Dagmar e pronto. Quando desse na vista, estariam pra lá do Paraná. Largaria o "clube da boemia". Seria uma mixórdia aquilo tudo de tanto cismar num entojo de medo de perda.

    Criaria juízo depois de passado de moço. Nem serenatas dantescas, nem roubar frangos na Santa Casa, tampouco porres homéricos. Será o impossível? Bateu a saudade inquebrável da doce mulher amada, daquela que seria a esposa ideal, a paixão tão sonhada e cantada em verso e prosa, a patroa perfeita que sabia lavar, passar, cozinhar e tinha outras qualidades mais de "Amélia" de verdade.

    O boêmio apaixonado e sensível, reacende um meio sorriso maroto na boca quadrada de descendente de italianos. E segue seu destino feliz e de aceitação por ter conseguido finalmente, pelo menos no íntimo, renegar à boemia Itarareense.

    Mal sabe, o coitado, que a sua prometida paixão está de três meses, embuchada pelo pretendente rico arranjado pelo sogro valentão.






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