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05.09.2004

As Filas de uma Sampa Desvairada
(Uma História Paulistana)
Silas Corrêa Leite





    Mal desembarcou nessa nossa Augusta Sampa de muito ouro e pouco pão, e o André Luis, vindo da Estância Boêmia de Itararé, pegou uma Circular ali pertinho da Estação Barra Funda do Metrô, e logo estava adjunto ao cruzamento da suntuosa Avenida Paulista com a Consolação, sondando o monstruoso estacionamento a céu aberto, que era assim mesmo, sempre, a poluída cidade engarrafada.

   Curioso e sensível como de costume, era mais um caipira interiorano numa metrópole grande, pulga atrás da orelha, sapeando belezuras e contentezas por atacado, meio que perdidão, mas, ainda assim, com o seu pisca-alerta ligado de se pôr acentuado desconfio (por questão de sobrevivência) com o risco de ser sapecado pela violência generalizada, entre insanos tótens capitalistas, o ar madorrento no chamado efeito estufa, máfias de perueiros clandestinos, ninhais do narcotráfico organizado e tantos migrantes carentes de uma periferia S/A.

   Quando menos pensou riscos e para onde iria em busca de um novo coletivo lotado como sardinha em lata, visando dirigir-se ao encontro com o Tio Verney Delegado, estranhamente, de uma hora pra outra, entre uma passeata ruidosa e um furto qualificado; entre um flanelinha paroara e um estrangeiro exótico, e, repentinamente viu-se numa inusitada fila enorme, de virar quarteirão, tudo muito agitado, gente saindo pelo ladrão, luzes, repórteres, correrias, celebridades, consumismo doentio e cheiro de óleo diesel vencido.

   Ali ficou quase uma hora empatando tempo precioso. Chateado, de tromba, maleixo, cainho e com medo de dar no pira. Cumprindo ordem, pois que era moço prendado e muito certo nos quesitos legais, o conterrâneo.

   Finalmente, suando como um gambá-xadrez, depois de muito esperar, com medo chegou a um estranho balcão de fórmica cheio de tranqueirada de camelô contrabandista informal, perto de um caixa vermelho como gabirova, onde o moço, atendente, perguntou de presto e de praxe:

   -E o sr, vai levar o quê?

   O André, coitado, assustadiço, grana pouca na algibeira surrada com escorpião de pão-duro que era, respondeu cansado, mas sem pestanejar, gracioso, prestativo e solícito:

   -Não vou levar nada, moço.

   E explicou-se, cândido e tinhoso, coitadinho:

   -Eu tava ali só olhando o forfé, quando um guardinha da Marta mandou eu entrar na fila.







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