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Simone


Simone,
EUA, 2002.


Com AL PACINO, RACHEL ROBERTS, CATHERINE KEENER, PRUITT TAYLOR VINCE, EVAN RACHEL WOOD, WINONA RYDER, JAY MOHR, JEFFREY PIERCE, JASON SCHWARTZMAN, ELIAS KOTEAS, REBECCA ROMIJN-STAMOS, BENJAMIN SALISBURY.

Música: CARTER BURWELL. Fotografia: EDWARD LACHMAN. Montagem: PAUL RUBELL. Desenho de produção: JAN ROELFS. Co-produção: DANIEL LUPI. Produção executiva: BRADLEY CAMP, MICHAEL DE LUCA, LYNN HARRIS. Escrito, produzido e dirigido por ANDREW NICCOL.

Estréia no RJ: 16.05.2003.















Sinopse e comentário.



    Comédia / crítica social. Caminhando para seu quarto fracasso seguido quando perde a estrela que protagonizaria seu último filme, o diretor Viktor Taransky acaba sendo demitido pela chefe do estúdio, Elaine, que também é sua ex-esposa e mãe de sua filha Lainey. Quando já se considerava acabado, Taransky descobre ter herdado de um fã recém falecido um disco rígido de computador contendo um programa de sua autoria, o Simulation One, capaz de criar com perfeição figuras humanas, dando-lhes voz, aparência e personalidade de acordo com as determinações do usuário. Passados nove meses, o novo filme de Taransky é um sucesso, graças principalmente à sua estrela, a misteriosa Simone, que jamais foi vista em público, não concede entrevistas e sequer contracena com outros atores. O que ninguém sabe é que a atriz, que de imediato se revela um fenômeno de público e crítica, não existe, tratando-se apenas de um efeito especial digitalizado inserido posteriormente nas cenas filmadas por Taransky, que vai mantendo a fraude através de uma suposta reclusão da estrela, simulando hospedagens em hotéis, uso de dublês e até hologramas para forjar um show ao vivo. Aos poucos, no entanto, o diretor vai se dando conta de que, por mais que Simone seja uma invenção sua, é só ela, a criatura, que o público quer, ignorando o criador. Junto a essa insatisfação, que o levará a planejar uma "vingança" contra a estrela, Taransky será investigado obsessivamente por Max Sayer, editor de uma revista que, como todos os homens, está apaixonado por Simone, e considera que o diretor a mantém prisioneira.


    "Se a interpretação é boa, que importa se o ator é real ou não?", pergunta-se Viktor Taransky a certa altura, de saco cheio da infinidade de exigências de suas estrelas para aceitarem participar de seus filmes. Simone trata dessa questão ética enquanto mistura na mesma trama o monstro de Frankenstein e O Médico e o Monstro. Tomado pela síndrome de Deus, o diretor fica obcecado com a possibilidade de "criar a vida a partir do nada", e logo abandona a promessa de confessar a farsa após seu primeiro filme. Taransky faz outro, e enche a mídia com fotos, entrevistas forjadas e todo um passado construído para sua estrela. Dá o que o público quer. É a "morte do real", diagnostica. Mas quando a criatura passa a aparecer mais do que o criador, chegando mesmo a sobreviver a ele, logo vem a pergunta: quem criou quem?


    O diretor / autor Andrew Niccol, que já presenteara o público com Gattaca e com o roteiro de O Show de Truman, procura explorar com algum humor a piração de seu arrogante protagonista deliciosamente interpretado por Al Pacino. Tropeça, no entanto, na mesma arrogância, ao encher seu filme de discursos e explicar cada rumo que a história toma, como se o espectador fosse um idiota incapaz de entender sozinho o que está vendo. O roteiro, embora repleto de ótimos momentos como a hilariante tentativa de vingança (primeiro com o filme Eu sou um porco, dirigido pela própria Simone, que aparece chafurdando na lama num chiqueiro, depois com a entrevista repleta de declarações politicamente incorretas, como "Se há mesmo um buraco na camada de ozônio, por que eu não posso vê-lo?" ou "Você já comeu carne de golfinho? É uma delícia"), força a barra para atingir seus objetivos, permitindo-se um final bocó e comportamentos desnecessários como o "assassinato", atirando ao mar um baú cheio de disquetes.


    O filme torna-se, assim, longo demais. Enfadonho em alguns momentos, o que é pena, diante de tão rico material. De qualquer forma, tenta explorar questões como o uso da tecnologia, o mundo vazio das celebridades de Hollywood (onde atores e críticos são sempre mostrados de forma caricata, muito burros e fúteis) e até perguntar-se para quê e para quem serve realmente o objeto da criação artística. Não bastasse isso, traz ainda a presença da adorável Catherine Keener, que desde Quero Ser John Malkovich vinha fazendo falta com um trabalho onde aparecesse mais de quinze minutos na tela. A destacar ainda os efeitos especiais, que levam Simone a parecer mesmo uma boneca digitalizada em algumas cenas, a lembrança de grandes atrizes (cujas vozes, gestos e outras características serviram de base para a construção de Simone), e a breve citação ao Rio de Janeiro, na tela do computador de Taransky, entre as cidades a quem a estrela deve cumprimentar em suas viagens - isso antes de ser contaminada por um "vírus desconhecido" durante uma turnê ao terceiro mundo... (M.L.)





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Vergonha na cara não é vírus.