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26.09.2004

Por Ivo Korytowski
Por que Sopa no Mel?



Cisco literário

   Maravilha poder flanar pelas ruas sem que me cerquem pedindo autógrafos, sem que me invectivem por ser judeu, sem que se riam de mim por ser magro ou torto, ou por qualquer outro motivo, sem medo de que a polícia venha me pedir os documentos que esqueci em casa.

   
* * *


    Tonitruante do mês: Olavo Bilac

   Há quanto tempo você não lê um poema de Bilac? Faz um bom tempo, né? Vez ou outra, temos que regressar aos clássicos, para não ficarmos presos demais ao espírito e à estética de nosso tempo. Com Raimundo Correia e Alberto de Oliveira, Bilac faz parte da famosa trindade dos grandes parnasianos. Mas o que são poetas parnasianos? Segundo o Aurélio, são partidários de uma escola poética que, em oposição ao lirismo romântico, cultivou uma poesia de feição mais objetiva e de notável apuro de forma. Vamos conferir!

Delírio

Nua, mas para o amor não cabe o pejo
Na minha a sua boca eu comprimia.
E, em frêmitos carnais, ela dizia:
- Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo!

Na inconsciência bruta do meu desejo
Fremente, a minha boca obedecia,
E os seus seios, tão rígidos mordia,
Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.

Em suspiros de gozos infinitos
Disse-me ela, ainda quase em grito:
- Mais abaixo, meu bem! - num frenesi.

No seu ventre pousei a minha boca,
- Mais abaixo, meu bem! - disse ela, louca,
Moralistas, perdoai! Obedeci...


Ouvir Estrelas

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto. . .

E conversamos toda noite, enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir o sol, saudoso e um pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizes, quando não estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas".

   
* * *


    Comédia dos Erros

   Uma figuraça a quem se atribuem casos antológicos é o ex-presidente do Corinthians, Vicente Matheus. Ele teria dito que "quem está na chuva é para se queimar", "agradecemos à Antarctica, que mandou umas braminhas pra nós" e "Jogador tem que ser completo como o pato, que é um bicho aquático e gramático". Certa vez, em referência a uma tática discutível, ele teria dito:

   - Essa tática é uma faca de dois legumes!

   O incrível é que esta história, de tanto ser contada, acabou realmente gerando confusão, e às vezes a gente ouve alguém dizer com a cara mais séria do mundo: "Isto é uma faca de dois legumes." Querem a prova material do crime? Façam a pesquisa no Google: eu obtive 435 resultados (dos quais podemos descontar uns vinte que fazem alusão ao causo de Vicente Matheus).

   Mas o que seria uma faca de dois gumes? O gume é o lado cortante, afiado da faca. Logo, uma faca de dois gumes corta dos dois lados - como algumas adagas e facas ciganas. Costumamos usar faca de dois gumes figurativamente para algo que pode ser bom, mas também pode ser ruim, e por isso é arriscado. Proibir a venda de armas é uma faca de dois gumes: pode diminuir a violência, mas pode também deixar a população honesta indefesa diante dos bandidos.

   (Extraído de meu livro Português Prático, ilustrado pelo Jaguar, editado pela Campus e à venda no Submarino e nas boas livrarias de todo o país.)

   
* * *


    Frase do mês

   Recebi do meu caro amigo e ex-colega de Rede Ferroviária, Manoel Rodrigues, estas "pérolas". Escolha uma delas como a frase do mês:

   "Sexo é o único esporte que não é cancelado quando falta luz."

    (Laurence Peter, escritor)

   "Meu cérebro é meu segundo órgão favorito."

    (Woody Allen, ator e cineasta)

   "Só acredito naquilo que posso tocar. Não acredito, por exemplo, em Luiza Brunet."

    (Luiz Fernando Veríssimo, escritor)

   "Sexo é hereditário. Se seus pais nunca fizeram, você não fará."

    (David Zing, fotógrafo e colunista)

   "A diferença entre o sexo pago e o sexo grátis é que o sexo pago costuma sair mais barato."

    (H. L. Mencken, jornalista e escritor)

   "O objeto mais leve do mundo é um pênis. Basta um pensamento para levantá-lo."

    (grafite num muro de Nova Iorque)

   "Mulher é igual circo. Debaixo dos panos é que está o espetáculo."

    (pára-choque de caminhão)

   "Certas mulheres amam tanto seu marido que, para não gastá-lo, usam o de suas amigas"

    (Alexandre Dumas Filho, romancista)

   
* * *


    Português do Brasil e Português de Portugal

   No tempo em que os aviões faziam escala em Recife, Dacar e Lisboa para, depois, prosseguirem até a Europa Central, um amigo de meu pai, diante do sotaque incompreensível do lusitano que o atendeu na lojinha do aeroporto de Lisboa, acabou apelando para o idioma universal:

   - Do you speak English?

   E pediu seu cafezinho em bom inglês - em pleno Portugal!

   Eu mesmo, quando estudante universitário, em viagem econômica, mochila às costas, pelos países da Europa, ao passar pela simpática Lisboa ("Quem não viu Lisboa, não viu coisa boa"), vim a descobrir as diferenças entre o português do Brasil e o português de Portugal: que ônibus era autocarro, a parada era paragem, o ponto final, zona, o bonde, eléctrico, o trem, comboio, que uma bebida gelada era fresca e sem gelo, ao natural, que camiseta era camisola etc.

   Certa vez, minha então esposa e eu fizemos uma viagem de ônibus entre duas capitais da Europa, junto com um casal de santistas que tínhamos acabado de conhecer. Viagem noturna, ônibus desconfortável (na Europa, rico anda de avião, classe média, de trem e os mais ferrados, de ônibus). Para matar o tempo, pusemo-nos a desfiar um rosário de piadas. Claro que, a certa altura, começamos a lembrar todas aquelas velhas piadas de português que a gente ouve desde criança. Era um tal de Joaquim pra cá, Manel pra lá, Maria fazendo uma ou outra ponta. Interessante é que havia outra pessoa, mais atrás no ônibus, que também estava rindo das piadas. Vez ou outra, virávamos pra trás tentando descobrir quem era, até que enfim conseguimos flagrar nossa companheira de idioma. Perguntamos:

   - Gostou da piada?

   - Bestial! - Nosso sangue gelou...

   - A senhora é...

   - Do Porto!

   No jornal Sol Português, da comunidade portuguesa do Canadá, encontro anúncio de casa com "3 quartos de cama, 2 quartos de banho, estacionamento para 2 carros, cave acabada". Na seção de classificados, "senhoras delicadas e amorosas fazem massagens em privado" e astrólogo curandeiro da Guiné-Bissau explica que "um dos problemas mais fáceis de combater é a impotência sexual, que actualmente afecta muito os casais, por vezes por questão de peso a mais, diabetes ou colesterol alto e para os quais a solução é a medicina tradicional, como a peticola, o pau de bicilom, barcolomo, assim como óleo de crocodilo e sumo de cabaceira."

   E viva o idioma português - seja ele do Brasil, de Portugal, seja de onde for!

   
* * *


    Curiosidades literárias: Rubaiyat de Omar Khayyam

   Rubaiyat é uma coletânea da poesia do poeta persa do século XII Omar Khayyam compilada e traduzida para o inglês por Edward Fitzgerald e publicada em 1859. Baseando-se em dois manuscritos, um do século XV e outro de origem relativamente moderna, Fitzgerald "destilou" e reuniu cerca de 600 quadras, ou rubaiyat. (Informações obtidas na Merriam Webster’s Encyclopedia of Literature)

   Segundo Fitzgerald, Omar Khayyam foi educado junto com dois amigos igualmente brilhantes: Nizam al Mulk e Hasan al Sabbah. Um dia, Hasan propôs que, como pelo menos um dos três alcançaria a riqueza e o poder, eles deveriam jurar que "quem quer que seja bafejado por essa sorte deverá compartilhá-la eqüitativamente com os outros, abrindo mão da proeminência". Todos fizeram o juramento e, no devido tempo, Nizam tornou-se vizir do sultão. Seus dois amigos procuraram-no e reivindicaram seu quinhão, que ele concedeu como prometido.

   Hasan solicitou e obteve um posto no governo; porém, insatisfeito com seu avanço, abandonou-o para se tornar o líder de uma seita de fanáticos que espalharam o terror pelo mundo muçulmano. Muitos anos depois, Hasan acabaria assassinando seu velho amigo Nizam.

   Omar Khayyam não pediu título nem cargo público. "A maior dádiva que podeis me conceder", disse a Nizam, "é deixar-me viver a um canto sob a sombra de vossa fortuna para propagar as vantagens da ciência e orar por vossa longa vida e prosperidade." Embora o sultão adorasse Omar Khayyam e o cumulasse de favores, "a audácia epicurista de pensamento e linguagem de Omar fez com que fosse visto com desconfiança em sua época e em seu país". (do capítulo 2 de Peter L. Bernstein, Desafio aos Deuses)

   Em língua portuguesa, conheço duas traduções de Rubaiyat: a já clássica tradução de Jamil Almansur Haddad e a tradução livre, sem se prender à forma literal dos textos nem seguir rigorosamente sua seqüência, de Ângelo D’Ávila. Vejamos uma das quadras de Rubaiyat na versão inglesa e em três diferentes traduções portuguesas, respectivamente, do Haddad, do D’Ávila e a minha. Escolha a melhor!

Ah, make the most of what we yet may spend,
Before we too into the Dust descend;
Dust into dust, and under Dust to lie,
Sans Wine, sans Song, sans Singer, and - sand end!

Vamos gozar o Amor! Provar cada Alegria
Que a vida possa dar! Seremos Poeira um dia:
Poeira a jazer na Poeira e sob a Poeira e assim
Sem Vinho e sem Amor, sem Música e sem Fim!

Sê feliz este instante, o instante passageiro
que é a tua vida, depois serás prisioneiro
debaixo da terra para sempre e sozinho,
não mais terás auroras, mulheres nem vinho.

Temos que aproveitar o tempo pela frente,
Antes que nosso corpo em pó se fragmente;
Do pó vieste e para o pó retornarás,
Sem vinho, sem canção, sem festa - para sempre!

   
* * *


    Minhocas na cabeça

   Se não passamos de um átimo na infinidade do espaço-tempo, por que nos percebemos como o centro do Universo?

   Por que temos medo do nada após a morte e não temos medo exatamente do mesmo nada antes de termos nascido?

   E para terminar a coluna deste mês, uma viagem pelas antigas piadas!

   
* * *


    Antigas piadas

   A piada mais antiga que conheço, do encontro entre os presidentes Dutra e Truman, ouvi de meu pai. Ignoro se esse encontro ocorreu deveras - algum historiador de plantão pra me esclarecer? - ou foi invenção de contador de piada (como, décadas depois, inventariam surreal viagem de Costa e Silva, o ditador militar, logo pra ilha comunista de Cuba, na piada em que sua mulher veio de Cuba "lançando" !)

   O presidente norte-americano Truman cumprimentou Dutra:

   - How do you do, Dutra?

   Ao que nosso presidente Dutra prontamente respondeu:

   - How tru you tru, Truman! (Contada pelo meu pai, acho que soava mais engraçada do que agora no papel.)

   Em matéria de piada, tenho memória de velho: lembram-me piadas remotas, do final da infância, da adolescência; mas as atuais, que recebo aos borbotões pelo e-mail, leio, às vezes dou gargalhadas e, ato contínuo, esqueço. Recordo apenas uma, que, de tão politicamente incorreta - atinge dois coelhos de uma porrada só, negros e judeus - escuso-me de contar aqui.

   No meu tempo de criança e pré-adolescência, contávamos umas piadinhas ingênuas que tinham lá sua graça. Por exemplo: sabe qual o verbo mais irregular do mundo? É:

EU calol (Eucalol era o nome de um sabonete)
TU barão
ELE fante
NÓS moscada
VOZ zeirão
ELES tricidade.

   Outra, ainda mais infame:

   Alunos UM, DOIS E TRÊS, venham ao QUATRO-negro. CINCO muito, professor, mas não SEIS nada. Pois SETE-se aí e da OITA vez NO VEnha com DEZculpas!

   Agora ouçam esta:

   - Sabe a piada do engraxate?

   - Não.

   - Não vou contar que não tem graxa.

   E esta:

   - Sabe a piada do pinto? (Normalmente, sabíamos!)

   - Sei: PIU!

   - E a dos dois pintos? (A resposta parecia óbvia.)

   - PIU, PIU.

   - Errou: PIU, um deles é mudo. E a dos três pintos? (A essa altura, a gente ficava desconcertado.)

   - PIU PIU?

   - Não. É PIU PIU PIU PIU PIU PIU... Um deles é gago!

   Lembro-me também de velhas piadas de português, contadas por meu pai. Uma delas, de tão antiga, transcorria no bonde. A linha do bondinho de Santa Teresa é apenas uma sombra da antiga rede de bondes que ligava os bairros cariocas entre si e ao Centro. Chovia torrencialmente, e o portuga viajava sozinho, o bonde vazio. Mas em vez de se sentar na parte do meio do banco, pra não se molhar, viajava na beirada, exposto à chuva. O cobrador o interpelou:

   - Ó Manel, pra quê ficas aí pegando chuva? Por que não trocas de lugar?

   A resposta (que tem lá sua lógica, posto tortuosa):

   - Mas trocaire com quem?

   Veio a ditadura militar. Recordo-me que, no dia da "Revolução", não tivemos aula - criança adora qualquer pretexto pra não ter aula, mesmo que seja um golpe militar. O novo regime apregoou entre seus objetivos acabar com a inflação e a corrupção. A inflação, debelou-a FHC décadas após. Já a corrupção...

   O regime de exceção, que de início se pretendia passageiro, de ato institucional em ato institucional foi-se perpetuando. A Castelo sucedeu o general Costa e Silva. Apreciador de corrida de cavalos e cara de general-caudilho-meio-bronco-de-republica-de-bananas-centro-americana (as aparências enganam: Costa e Silva fora aluno brilhante do Colégio Militar e da Escola de Oficiais), logo pipocaram piadas de Costa e Silva, tema de meu conto Filosofia. Só pra dar uma idéia: em viagem à Escócia, o presidente recusou-se a beber "uísque nacional"; em Paris, perguntou pro assessor como se diz petit-pois em francês; e, tendo visto na rua várias placas de EM OBRAS, julgou tratar-se de nova estatal, a Emobrás, que viesse se juntar à Petrobrás e Eletrobrás.

   Ótima piada da época dos generais-presidentes tem por protagonista o Simonsen: brilhante economista, duas vezes ministro na época dos militares, conhecedor profundo das óperas de Wagner e (comentavam as más línguas) eternamente de porre. Diz que Simonsen, certa manhã bem cedinho, vai recepcionar ditador africano em visita ao Brasil. O ditador se vangloria:

   - Quer ver como sou respeitado em meu país?

   Dirige-se a um soldado da guarda pessoal:

   - Soldado! Pegar a arma! Soldado, apontar a arma pra própria cabeça! Soldado, atirar contra a própria cabeça! - Bum! O submisso soldado cai morto. Simonsen, impressionado, resolve testar o método com um de seus seguranças:

   - Soldado! Pegar a arma! Soldado, apontar a arma pra própria cabeça! Soldado, atirar contra a própria cabeça!

   Ao que o segurança protesta:

   - Pô, ministro. A esta hora da manhã, vossa excelência já está de porre!

   E tinha piada de comunista também, que meu pai, que viajava a negócios ao leste europeu, contava em primeira mão. Numa delas, um norte-americano tenta convencer um russo das vantagens da democracia:

   - Nos Estados Unidos, desfrutamos de total liberdade. Por exemplo, se eu resolver ir pra frente da Casa Branca e berrar "O presidente dos Estados Unidos é uma bosta", ninguém me prenderá.

   - Na minha terra é a mesma coisa - replica o russo. - Se eu resolver ir pra frente do Kremlin e gritar "O presidente dos Estados Unidos é uma bosta", ninguém me prenderá também!

   Em meu tempo de adolescente, um mundo pré-drogas, pré-sexo livre, pré-transmissões por satélite, quais as nossas diversões? Uma delas: birita. Vira, vira, vira! Vez ou outra, um de nós ia parar no hospital, coma alcoólica - como que um rito de iniciação. Jogar biriba, pôquer (cacife baratinho), sete-e-meio até o sol raiar. Ou contar piadas. A gente passava horas a fio contando (e ouvindo). Havia as piadas do Bocage (que a gente pronunciava "Bocais"). Praticamente toda piada da época começava por "diz que..." Das piadas do "Bocais", não lembro nenhuma... Quem sabe algum leitor menos esquecido venha me refrescar a memória? Havia também piadas do "cúmulo": Sabe qual o cúmulo da rapidez? É trancar uma gaveta deixando a chave dentro, ou: Sabe qual o cúmulo da elasticidade? É colocar um pé no Pão de Açúcar, outro no Corcovado e lavar os colhões na Baía da Guanabara! E as piadas do "não confunda": não confunda "índio botocudo" com "botou no cu do índio", "um pouquinho de macarrão" com "um porrão de macaquinhos", "as grandes obras do mestre Picasso" com "a grande pica de aço do mestre de obras"! Sem falar nas anedotas de papagaio, de judeu (os melhores contadores de piada de judeu creio que são os próprios judeus, incluindo eu), do Juquinha (o garoto que falava palavrões), de freira, de inferno, de humor negro, de concurso de piroca, de sacanagem.

   Falar em sacanagem, lembram da piada do português que espalhou pra Deus e o mundo que conseguia transar mil vezes seguidas e foi convidado pra uma demonstração no Maracanã? Diante do público, deu uma, deu duas... deu dez... deu cem... deu quinhentos.. deu novecentos... na 956ª brochou. O público prorrompeu em vaias estrepitosas. O empresário do português ficou pê da vida, reclamou. Ao que o portuga respondeu candidamente:

   - Juro que não entendo a minha falha. No ensaio, meia hora antes, deu tudo certo!

   Mas a arte das piadas, como tudo na vida, também tinha seus riscos. Por exemplo, um amigo contava empolgadíssimo uma piada, mas você não entendia. A saída: simular teatralmente um sorriso amarelo. Ou você declamava uma piada numa roda e... ninguém achava a menor graça, nem se dava ao trabalho de fingir que achou. Tremendo constrangimento!

   Piada antológica que me ficou gravada na memória tinha por herói Sir Lancelote. Diz que Sir Lancelote foi lutar nas Cruzadas. Pra não ser corneado pela esposa, instalou-lhe cinto da castidade inusitado: com guilhotina pra capar o safado que tentasse comê-la.

   Anos depois, Sir Lancelote retorna vitorioso das Cruzadas. Reúne os cortesões, e vai logo avisando:

   - Todos abaixando a calça! Quero ver se alguém tentou me trair.

   Godofredo abaixa a calça: capado.

   - Godofredo, meu conselheiro, jamais esperei isso de vós.

   Ranunfo abaixa a calça: idem. E assim, um a um, os cortesões vão abaixando as calças, e estão todos capados! Até que resta o tesoureiro, velhinho de noventa anos, inofensivo.

   - Antão, meu velho Antão, espero que ao menos vós tenhais respeitado a minha esposa! - suspira Sir Lancelote, réstia de esperança. O ancião abaixa a calça: o pênis revela-se intacto.

   - Antão, querido tesoureiro, fostes o único que não me traiu. Escolhei uma recompensa. Podeis pedir o que quiserdes, ouro, jóias. Eia, vamos, pedi.

   - Hm, hm, hm. - O velho Antão não consegue falar, perdera a língua.

   Ah, e havia as piadas de Ibrahim Sued. Às novas gerações: Ibrahim Sued foi um famoso colunista social dos anos 50 a 70, autor do "clássico da literatura" Cem anos de caviar, que proferia "pérolas" como "em sociedade, tudo se sabe", "olho vivo, que cavalo não desce escada" ou "ademã, que eu vou em frente" e que, devido à fala engrolada e às mancadas léxicas e gramaticais - como confundir "repositório" com "supositório" - veio habitar o anedotário, na mesma divisão do general supracitado.

   Diz que Ibrahim Sued morreu e Deus escalou o sábio Confúcio pra entrevistar o colunista e descobrir se merecia entrar no céu. Começa a entrevista, blablablá, blablablá. Decorridos alguns minutos, Confúcio se exaspera e protesta, a plenos pulmões:

   - Pô, seu Ibrahim! Pra início de conversa, o Paulo não viu coisa nenhuma. Não é Paulo "vi", é Paulo "sexto". Segundo, cristão não é um Cristo grandão, mas um seguidor de Cristo! E terceiro, meu nome é Confúcio. Pafúncio é a PQP!

   Velhas e saborosas piadas. Veio a Nova República, a hiperinflação, a globalização, a Internet, a Nova Era. Nesse (relevem o clichê) admirável mundo novo, piadas circulam pela Internet, ou são enviadas por e-mail pra serem contadas pelo Jô - o último dos contadores de piadas? Quem sabe, daqui a 50 anos, meu filho estará escrevendo uma crônica que começará assim:

    "A piada mais antiga que conheço, do presidente Lula, ouvi de meu pai."


Fontes: Comédia dos Erros - do meu livro Português Prático (Editora Campus); Frase do Mês, Português do Brasil e Português de Portugal, Curiosidades Literárias e Minhocas na Cabeça - de minha coluna Português Divertido no site Comunidade Maitê (www.mayte.us); Cisco Literário e Tonitruante do Mês - especialmente escritos para O Cisco Tonitruante.



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