Le Souffle au Coeur,
França / Itália / Alemanha Ocidental, 1970.
Com BENOÎT FERREUX, LEA MASSARI, DANIEL GÉLIN,
FABIEN FERREUX, MARC WINOCOURT, MICHAEL LONSDALE, AVE NINCHI, GILA VON WEITERSHAUSEN,
MICHELINE BONA, HENRI POIRIER, LILIANE SORVAL, CORINNE KERSTEN, FRANÇOIS WERNER,
JACQUELINE CHAVAUD.
Música: SIDNEY BECHET, GASTON FRÈCHE, CHARLIE PARKER,
HENRI RENAUD.
Fotografia: RICARDO ARONOVICH.
Montagem: SUZANNE BARON, CATHERINE BRASIER-SNOPKO,
SOLANGE LEPRINCE.
Desenho de produção: JEAN-JACQUES CAZIOT, PHILIPPE TURLURE.
Produção: VINCENT MALLE, CLAUDE NEDJAR.
Escrito e dirigido por LOUIS MALLE.
Estréia no RJ:
Sinopse e comentário.
Drama. Dijon, 1950, época em que a França se envolve na guerra da
Indochina. Filho caçula numa família da alta burguesia, Laurent é um
jovem de 15 anos que vem alternando sua adolescência entre o trabalho e os estudos na igreja,
os discos de jazz e a convivência com a família: os debochados irmãos Thomas e Marc, que o
apresentam ao fumo, à bebida e ao sexo; o pai Charles, ginecologista com quem mantém uma
relação de distância e antipatia; e a mãe, Clara, bela e exuberante italiana por quem é
fascinado. Sua rotina é quebrada quando, ao contrair escarlatina, Laurent descobre ter um
sopro cardíaco, o que leva seu pai a enviá-lo, acompanhado da mãe, para tratamento numa
estação de águas. Lá, o relacionamento entre a mãe e o filho irá se estreitar, com os ciúmes
de Laurent por causa do sucesso que Clara faz com os homens, com a descoberta de que ela
possui um amante e com a intimidade provocada pelo uso de um único quarto.
Da mesma forma que o holocausto, a adolescência é tema recorrente no
cinema de autor, sobre o qual sempre há um consagrado cineasta se debruçando. O francês Louis
Malle, dono de uma filmografia tão diversificada quanto provocante, embora nem sempre acerte
o lugar onde mirou, fez com este Sopro no Coração o seu filme sobre a tão comentada
fase das descobertas, das revoltas e do sentimento de desorientação no mundo, sem deixar de
explorar a classe burguesa, objeto de crítica e de fascínio em sua obra. O berço de ouro de
onde veio não impede que Laurent e seus irmãos roubem discos na loja, ou se apropriem do
dinheiro da caridade da igreja (também fustigada, na figura do padre que assedia sexualmente
o protagonista). Desejo de transgressão que esbarra na ausência de objetivos e mesmo de
conhecimento do que signifique transgressão, embora não falte a leitura dentro de casa, tanto
dos clássicos como da História de O. Já os pais vivem de aparências e de uma
estabilidade emocional sustentada à custa de amantes.
E tudo funciona muito bem. O pai severo acaba rindo das traquinagens
dos filhos bagunceiros (que têm os melhores diálogos e proporcionam cenas hilárias como a do
esfaqueamento do quadro), e até a quebra do tabu do incesto, que nos anos de 1970 foi razão
para o filme ser exibido com cortes no Brasil, é vista sem qualquer culpa, trauma ou
sofrimento. Houve quem dissesse que se não houvesse culpa a mãe não seria italiana, mas
francesa como o resto da família. Pode ser, mas pode ser também que o diretor estivesse
querendo criticar a sociedade francesa, incapaz de deixar-se levar pelos sentimentos, como
fez Clara. Independente disso, Sopro no Coração é crônica narrada com leveza, humor
e algum cinismo, que permite tanto momentos de puro escracho como uma guerra de espinafre
entre os irmãos, quanto intimistas quanto as manifestações da sexualidade de Laurent, seja
atacando todas as meninas da estação de águas, seja sentindo tesão pelo coleguinha louro
durante encenação religiosa, ou vestindo-se como Clara, quando ela sai com o amante. "Não
existem mais crianças", diz Laurent em certo instante, podendo referir-se tanto a ele próprio
e a fase que atravessa, quanto à sociedade que o criou.
(M.L.)
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