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Spider - Desafie Sua Mente


Spider,
França/Canadá/Reino Unido, 2002.



Com RALPH FIENNES, MIRANDA RICHARDSON, GABRIEL BYRNE, BRADLEY HALL, LYNN REDGRAVE, JOHN NEVILLE, GARY REINEKE, PHILIP CRAIG.

Roteiro: PATRICK McGRATH, baseado em seu romance. Música: HOWARD SHORE. Produtores associados: MARIA AITKEN, SANJAY BURMAN. Fotografia: PETER SUSCHITZKY. Montagem: RONALD SANDERS. Desenho de produção: ANDREW SANDERS. Produção executiva: JANE BARCLAY, CHARLES FINCH, SIMON FRANKS, VICTOR HADIDA, SHARON HAREL, ZYGI KAMASA, MARTIN KATZ, HANNAH LEADER, LUC ROEG. Produção: CATHERINE BAILEY, SAMUEL HADIDA, DAVID CRONENBERG. Direção: DAVID CRONENBERG.

Estréia no RJ: 03.01.2003.

Sítio oficial: www.spiderthemovie.com








Sinopse e comentário.



    Drama. Recém saído de um manicômio, o esquizofrênico Dennis Clegg acaba de chegar à residência da Sra. Wilkinson, que irá abrigá-lo junto com outras vítimas de deficiências mentais. Tímido e arredio, sua rotina limita-se ao relacionamento com os outros doentes, à montagem de quebra-cabeças e às anotações num pequeno livrinho de memórias. É nele que Dennis volta e meia faz visitas ao passado, onde revive a infância junto ao pai, o encanador Bill, e à mãe, de quem ganhou o apelido "Spider" por causa da história de uma aranha e seus filhotes, que o encantara, e por sua habilidade em trançar fios de barbante, como teias. À noite, não era raro Spider ter de ir buscar o pai no bar, ou ter de presenciar as discussões do casal, que culminaria, aos olhos do menino, num grave acontecimento envolvendo traição e assassinato.


    Ainda que não seja um filme simples, Spider não é tão desafiador quanto sugere o subtítulo em português, e muito menos pode ser comparado com o recente Cidade dos Sonhos, de David Lynch, como andaram dizendo. Seu interesse está no jogo que o diretor David Cronenberg, um canadense especialista nas deformidades humanas, faz com o espectador, misturando em sua narrativa aquilo que é real e o que existe apenas na cabeça do protagonista esquizofrênico, sem obviamente dizer onde termina uma realidade e começa a outra. A interessante premissa, no entanto, derrapa no mesmo problema que vitimou um outro filme sobre esquizofrenia, o americano Uma Mente Brilhante, de Ron Howard: o acanhamento dos diretores. Em ambos os casos, a falta de ousadia ao narrar tão fascinante assunto resultou em pequenas frustrações para o espectador. O problema é que, no caso de Howard, acostumado a fazer filmes padronizados visando o grande público e a academia de Hollywood, a frustração não é novidade. Seus filmes são certinhos, bem produzidos e interpretados, e, se não entusiasmam, também não fazem ninguém sofrer por assistir.


    Mas aqui estamos falando de David Cronenberg. Seu cinema, que começou com alguns filmes de terror barato, evoluiu para uma morbidez escatológica (que o faria ganhar o apelido de "Cronenblergh"), e, de uns tempos para cá, vem se tornando cada vez mais intimista, é um sopro de inventividade, de fuga da mesmice tanto narrativa quanto temática. Sem pudores em incomodar, curioso e voyerista, Cronenberg cada vez mais parece querer embrenhar-se dentro da cabeça das pessoas e ver o que encontra lá dentro. Principalmente de pessoas que abrigam nas cabeças pensamentos, desejos, sonhos, obsessões pouco convencionais. Sua obra, ainda que irregular, já faz parte da história do cinema com preciosidades como M. Butterfly, Gêmeos - Mórbida Semelhança ou Videodrome - A Síndrome do Vídeo, e mesmo curiosidades como os mal resolvidos Crash - Estranhos Prazeres, Scanners - Sua Mente Pode Destruir ou mesmo A Mosca. Em todos esses títulos, o diretor parece buscar o desconforto e, lembrando de que também somos assim, explorar a treva fechada em cada peito.


    Era de se esperar, então, que um filme novo de David Cronenberg, cujo personagem principal sofresse de esquizofrenia, fosse no mínimo instigante. Spider seria o personagem certo para o diretor ideal, mas o que se vê na tela é um filme previsível, ainda que narrado com sensibilidade o bastante para manter o espectador atento. Principalmente quando a câmera acompanha as manias dos personagens, como o costume de Spider de vestir várias camisas ("A roupa faz o homem; e quanto menos há , maior a necessidade de roupa", explica um outro doente no filme), catar coisas pelo chão e guardar nos bolsos, ou fazer anotações ininteligíveis em seu caderninho. Ou ainda o passatempo de um dos médicos do manicômio, juntando os cacos de um vidro quebrado como se montasse um quebra-cabeça, ou a sutil tensão erótica que atravessa todos os relacionamentos. São esses pequenos elementos, junto com o ótimo trabalho dos atores (principalmente Ralph Fiennes, com seus olhares desconfiados e assustados, sua fala embrulhada e a lentidão nos gestos), que sustentam o filme e impedem que ele passe despercebido. Poderia certamente ser melhor, se o diretor desse asas à sua fértil imaginação e enlouquecesse de vez a narrativa. Vê-se que em alguns momentos isso é tentado, como na cena do pai com a amante na rua, e é disso que o filme carece, pois acaba não sendo aquilo que se espera de David Cronenberg - provocador -, para ser apenas um bom filme, ainda que menor, do cineasta. (M.L.)








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