Taxi Driver Motorista de Táxi
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Taxi Driver,
EUA, 1976.
Com ROBERT DeNIRO, JODIE FOSTER, CYBILL SHEPHERD, ALBERT
BROOKS, HARVEY KEITEL, LEONARD HARRIS, PETER BOYLE, RICHARD HIGGS, VIC ARGO, MURRAY MOSTON,
STEVEN PRINCE, MARTIN SCORSESE, NAT GRANT.
Música: BERNARD HERRMANN.
Montagem: TOM ROLF, MELVIN SHAPIRO.
Fotografia: MICHAEL CHAPMAN.
Produtor associado: PHILIP M. GOLDFARB.
Escrito por PAUL SCHRADER.
Produção: MICHAEL PHILLIPS e JULIA PHILLIPS.
Direção: MARTIN SCORSESE.
Estréia no RJ:
Sinopse e comentário.
Drama urbano. Aos 26 anos, o ex-fuzileiro Travis Bickle vem sofrendo
de uma forte insônia, que o leva a vagar sem rumo pelas ruas de Nova York durante toda a noite.
Consegue então um emprego como motorista de táxi, e se torna conhecido entre os colegas por não
ter problemas em rodar por todos os pontos da a cidade, inclusive os mais violentos, e por falar
pouco. Cada vez mais incomodado com aquilo que chama de "o lixo do mundo" (as prostitutas, os
traficantes, os mendigos), com as freqüentes idas a cinemas pornôs e, principalmente, com a
solidão, Travis acredita ter encontrado o seu destino numa manhã quando, ao passar diante de um
comitê de campanha de Charles Palantine, candidato a presidência, vê a jovem assessora de
imprensa Betsy, de quem se aproxima. Nos dois encontros que tem com ela, no entanto, seu jeito
meio grosseiro e ignorante estraga tudo, e o retorno à vida solitária da qual parecia ter
escapado vai aumentando mais e mais seu desconforto em relação ao mundo até que uma idéia fixa
parece dar-lhe algum sentido à vida. Passando a fazer exercícios diários a fim de purificar o
corpo, e comprando armas, Travis estabelece para si mesmo uma missão que pretende levar até o
fim, ao mesmo tempo em que conhece Iris, criança de 12 anos de cuja vida entregue à prostituição
ele promete tirar. Sua missão, no entanto, o levará, armado, até um comício de Palantine.
A princípio, tudo parece restringir-se à melancolia. A paisagem urbana
noturna, observada por um olhar de espanto e desconfiança do protagonista, ganha um contorno
suave com a música lindíssima de Bernard Herrmann. Uma beleza triste, que remete diretamente à
solidão e que se confirma ao espectador com a descoberta da insônia e do ritmo de vida de
Travis. No entanto, a visão de um universo que se degrada, a falta de soluções e a impressão de
que as coisas, se não pioram, permanecem como estão e ninguém liga, só fazem crescer o mal-estar
do personagem, e aquilo que ele chama de "vontade de sair daqui" (não importando para onde, ou
para quê, apenas sair).
Mas toda essa depressiva insatisfação, que talvez não tivesse maiores
conseqüências, explode quando o último contato do protagonista com algo próximo da felicidade
se rompe. Ao ser repelido por Betsy, Travis vê como que se partindo a sua tábua de salvação, e
a dor daí surgida faz renascer uma vontade de reagir de alguma forma, e combater da única
maneira que ele, ex-militar, conhece. É dor o que se vê acompanhando todo o treinamento, a
busca por armas, a mudança no visual. E após a dor, é a redenção o que busca o personagem, na
tentativa de salvar do "inferno" a menina prostituta. Travis quer purificar o mundo, e segundo
ele mesmo sugere, quando conduz em seu veículo o candidato Palantine, isso não é possível de
forma não violenta.
Contratado depois que os produtores viram seu filme anterior, Caminhos
Perigosos, o diretor Martin Scorsese (antes dele, cogitou-se em entregar a direção a Brian
DePalma) criou uma pequena obra-prima de angústia e crítica social, carregada de uma
contundência raramente vista, e de uma inteligência que era comum no cinema social americano da
década de 1970. Sem perder-se em discursos moralistas ou excessos narrativos, Scorsese conta
sua história de maneira ao mesmo tempo fria e emocionada. Acompanha como num documentário a
população das ruas, deixa que seus atores improvisem diante das câmeras (a clássica seqüência
de Robert DeNiro diante do espelho, dizendo "Está falando comigo?", foi toda improvisada pelo
ator), e com sutis movimentos de câmera impõe a dramaticidade que a trama exige. Em entrevista,
Scorsese (que faz duas participações diante das câmeras: uma, sentado durante um comício, e
outra, substituindo um ator que não compareceu às filmagens, como o passageiro traído pela
esposa, no banco de trás do táxi) disse considerar a última conversa telefônica entre Travis e
Betsy como o momento fundamental de Taxi Driver. Naquele instante, em que ela rompe o
relacionamento que sequer começou, a câmera vai se afastando lentamente até se fixar num longo
corredor vazio, afastando-se de um diálogo que seria por demais doloroso. É em detalhes como
este, ou como no close do comprimido efervescente no copo dágua, ou ainda na discreta repetição
(de cenários, da música) indicando a rotina do taxista, que se vê a consciência do pretendido,
e a segurança do realizado.
Do elenco, pouco (ou nada) há que ainda não se tenha dito. Robert
DeNiro, impressionante, entrega-se de corpo e alma ao papel, numa preparação que incluiu o
trabalho real como taxista e a visita a centros de doentes mentais para criar um Travis Bickle
que pode tanto parecer manso como uma bomba prestes a explodir. Outro que também fez laboratório
foi Harvey Keitel, que para compôr o cafetão Matt passou uns tempos no mundo da prostituição
(sua cena, aliás, em que dança com Iris, foi também improvisada). Destaque-se ainda a menina
Jodie Foster, aqui apenas uma promessa, mas demonstrando talento o bastante. Foi seu desempenho
nesse filme que inspirou um maluco a tentar matar o presidente Ronald Reagan.
(M.L.)