Only You
Texto: CONSUELO DE CASTRO.
Direção: BIBI FERREIRA.
Com GRACINDO JUNIOR e ADRIANA ESTEVES.
Em cartaz no Teatro do SESI, no Rio de Janeiro.
Acomodado numa cinematográfica mansão na beira da praia, propriedade de um colega de
emissora, um autor de novelas luta para sair do branco na folha de papel, e entregar a sinopse
prometida a seu produtor. André, o tal autor, vive sozinho com sua máquina de escrever (não
suporta computadores) e sua garrafa de uísque, na verdade a pá com que mantém soterrados aos
olhos do público os fantasmas de seu passado. Vive no escuro, para não ter de ver a sombra da
ditadura militar, que tirou de suas mãos o grande amor da sua vida. Vive anestesiado, misturando
uísque com anti-depressivos para evitar que a memória o pisoteie mais uma vez. Quem olha não diz
que o autor charmoso e bem sucedido sofre tanto.
É uma mulher, outra, quem irá expor o conteúdo do recipiente que é André. A jovem, linda e
espevitada Júlia, vinda não se sabe de onde trazendo uma enxurrada de palavras e movimento ao
lugar até então calado e inerte, desperta o tesão fácil do autor, que julgando estar diante de
uma fã, ou candidata a escritora, ou mesmo uma simples funcionária do canal de TV em que
trabalha, logo tenta seduzi-la (como já deve ter feito com tantas outras jovens). Mas a
inesperada e imprevisível Júlia, mais do que um corpo gostoso, traz uma história, e uma
cobrança. Há um mês, os dois teriam se encontrado, ido para a cama, e no fulgor da paixão teria
André feito uma promessa cujo cumprimento ela agora exigia. Só que André não tem qualquer
lembrança do encontro dos dois, e desconfia quando ela demonstra conhecer não apenas os
principais pontos de sua biografia, mas também os tais fantasmas, que ele julgava tão bem
escondidos.
A essa altura o público que assiste
Only You já está fisgado pelo passado que ameaça voltar,
pelo mistério em torno de Júlia, e pelo embate sexual entre os protagonistas. A peça, no
entanto, é mais do que isso. Consuelo de Castro, a autora, é da mesma geração que seu
personagem André, e como ele acompanhou o período negro da ditadura, se não à distância, também
sem pegar em armas ou ir parar nos porões do DOPS. A participação não tão ativa quanto gostaria,
e mais o sentimento de culpa pela morte da mulher Veridiana (capturada devido a um atraso na
despedida de ambos, no dia em que ela fugiria do país), fizeram da amargura, do cinismo e da
descrença os principais companheiros de André. Se acha um fracassado, aquele que sobreviveu para
contar a história e nem isso conseguiu, já que a novela que pretendia escrever os
patrocinadores, num "AI-5 retroativo", cancelaram.
O personagem retrata uma geração que, convivendo com ídolos e heróis que tentaram mudar o
mundo, encontra tempos muito mais confusos, mais difíceis, sem qualquer solução aparecendo,
ainda que distantes, no horizonte. Tempos de frustrações, que Consuelo de Castro transmite com
sensibilidade e inteligência suficientes para que o espectador não saia do teatro pensando em
suicidar-se assim que virar a esquina. Seus diálogos são ágeis e repletos de um humor irônico,
por vezes sarcástico, que aliviam o público sem tirar a densidade do texto, para revelar um
profundo lirismo quando os personagens enfim se (re) encontram. O romantismo e a necessidade de
redenção escorrem para a platéia, que se comove com o belo final ao som da canção que dá título
ao espetáculo, e que é a canção que André ouvia quando da fatídica despedida de Veridiana. Não é
peça para se ver sozinho.
No elenco, Gracindo Junior compõe com carisma e dedicação o seu André. Cínico e distante no
início, frágil e dilacerado depois, dá ao personagem toda a profundidade que ele pede. É ator
que merecia maior destaque na mídia. Sua parceira de palco, Adriana Esteves, é mulher de
arrancar suspiros e querer levar pra casa. Linda, talentosa, carismática, ainda que seu timbre
de voz não soe tão agradável nos momentos em que ela tem de gritar. Sua Júlia, que a princípio
parece não ir além de uma patricinha meio doida e esotérica, aos poucos revela o sofrimento de
quem já desceu aos infernos, e, obsessiva, de lá quer sair levando pelo menos uma alma com ela.
A direção de Bibi Ferreira imprime ritmo e charme à encenação, que dessa vez parece ter agradado
a autora (Consuelo de Castro já havia encenado
Only You por conta própria, em 1988, com
Rose Abdala e Celso Frateschi, e não ficado satisfeita com o resultado). O cenário que reproduz
o interior da casa
transmite bem o ambiente de praia, com uma sacada dando para o azul e as velas reproduzindo a
passagem de uma procissão. Gravações de época, misturadas e finalizando com a introdução do Hino
Nacional Brasileiro, escancaram as portas da memória, tanto do protagonista quanto do público,
para os anos que se seguiram a 1964.
(M.L.)
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